quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

“A Geografia em tecidos mitológicos”


Por Belarmino Mariano Neto (belogeo@yahoo.com.br)

A palavra é possuidora de muitas forças forjadas nos recônditos de nossa mente, elas expressam pensamentos, expressam sentimentos e, expressam vontades. Este trivium é minha maneira de viver e ver o mundo do qual sou participante.

Todas as palavras são de um potencial sacro fantástico. Elas são imantadas de significados e interesses tão divinos que podem ser encontradas no mitológico mundo de Hesíodo em “os trabalhos e os dias” e esclareço a escolha deste filosofo grego, pois nele encontramos o mito de “Prometeu e Pandora” que começa dizendo: “oculto retêm os deuses o vital para os homens; senão comodamente em um só dia trabalharias para teres por um ano, podendo em ócio ficar; acima da fumaça logo o leme alojarias; trabalhos de bois e incansáveis mulas se perderiam” (HESÍODO, 2006, p.23).

A escolha do fragmento de idéias gregas, tão primitivas e civilizadas encosta nos nossos dias de trabalho e de ócio. Mas voltemos a Prometeu, pois lhe coube a dádiva de criação do homem, essa mistura de água, terra, ar e ocultos materiais divinos que lhes permitiram direcionar a face aos céus, se imaginando também um pouquinho deuses.

Vejam que estamos pensando em coisas essenciais que poderiam ser aqui representadas como elementos da natureza. Mas parece que na lógica da discórdia e na separação dos materiais, “o olho e o cérebro” (MEYER, 2002), preferem o cérebro matéria, memória expressa em neurônios e percepção visual da terra, do lugar ou do peso do firmamento.

Nesse momento, gostaria de invocar a mulher, pois “Pandora” parece ser o presente de grego, dádiva de Júpiter ao pobre Prometeu. Ela é um castigo de Júpiter e que atingirá de cheio a criação divina em forma de homem. Gostaria muito de colocar o irmão de Prometeu nessa parte da história que lhes conto, pois foi exatamente Epimeteu, quem recebeu Pandora enquanto um presente, do qual Prometeu suspeitava e desconfiava. Pandora trazia em sua caixa, muitos e irados problemas para os homens e estes problemas escaparam antes que Pandora houvesse fechado a sua caixa, restando apenas um cantinho de esperança no fundo das coisas.

Vejam que estamos vivendo mais uma vez à sórdida história das tragédias humanas e colocadas enquanto antecipação de fatos e fantasias tão divinas e tão humanas, com os quais nos tornamos homens mortais. Assim, as coisas estão caminhando em nosso mundinho. O uso in-devido das palavras, fortalecem contradições e expõem as entranhas de tradicionais forças que vivem em subterrâneas camadas do nosso cérebro. Hoje estava me perguntando: Pensamento, memória e o consciente são mesmo de que matéria? Pelo que mesmo estamos lutando em nossos dias? Em que darão estas brigas de Titãs?

É nesse sentido que invoco Hesíodo em “os trabalhos e os dias”, pois pelo que me consta, existem muito melindro e vaidade entre as divindades do olímpico. Por isso os homens e mulheres que não são deuses, mesmo tendo sido projetados com o mesmo material e designe das divindades, precisam trabalhar, mesmo que muitos prefiram o ócio e confusões divinas.

Por outro lado, “O Prometeu acorrentado” acha que Pandora trás em sua caixa todos os tipos de males, uma narrativa em que o ódio, a inveja e tudo mais, recairão sobre o homem e seu lugar. Vejo que as nossas relações estão até certo ponto, presas ao mito de Prometeu e Pandora.

Gosto da idéia de ser uma mortal e de ver meus dias consumidos pela vida, pela imprevisibilidade, assim me sinto tão divino quanto às crianças que brincam despreocupas do amanhã, mas sei das minhas correntes e assumo a condição “prométeica” de ter que trabalhar os dias, de planejar meus sonhos e de fazer acontecer.

Claro que o cérebro, processa necessidade imediata, reação instintiva e o frio na espinha quando se é surpreendido pelo latido do cão nas pernas. Mas passado o susto, recomposto o estado da racionalidade pura, será possível dialogar com as três maiores e invisíveis forças da natureza: Cronos (o tempo), Cosmo (o espaço) Caos (aqui traduzido com a incerteza).

Falo do tempo, pois ele é o grande senhor que a todos consome. No nosso caso, o tempo urge e precisamos ter clareza disso em nossas ações, pois depois que a areia escorre pelo fino gargalo da ampulheta, pouco se tem a fazer ou a espacializar de fato

Sobre a incerteza, acredito demais nela, é o corpo teórico com o qual gosto de trabalhar. Defendo inclusive que a vida é imprevisível, que “só há um ponto fixo”, como afirma Kafka e que é daí que precisamos partir.

Não acredito que o cérebro funcione apenas para transmitir e dividir o movimento das ondas neurais. Algo mais que motricidade e mecânica físico-química acontecem nesse órgão de seleção e ação. Meio que discordando de Bérgson citado por Meyer (2002), somos possuidores de memória pura antecedente e o que chamo de essência espiritual dos titãs. Assim justifico tão enfronhado texto de mitos, homens, mulheres e divindades.

Por isso, somos homens e mulheres mortais e sem culpas, nesse caso, conscientes dos papeis por nós assumidos entre “os trabalhos e os dias”, temos um poder reconhecido enquanto “lembrança pura”, transformada em “lembrança-imagem” (MAYER, 2002, p.24), e o conhecimento que podemos utilizar servirão para como Hercules, libertamos prometeu das correntes, pois sua luta foi conquistar o fogo para os humanos e por tal façanha foi acorrentado.

O lugar como um detalhe abre espaço-tempo para o uso da inteligência coletiva (LÉVY, 2000) e para a constituição de laços sociais e relações com o saber dos quais temos profundo censo de justiça, ética e mais uma vez inteligência coletiva. Esse é o espaço que precisamos geograficamente refletir.



Referências:

HESÍODO. Os trabalhos e os dias. (Traduz. LAFER, M. C. N.). São Paulo: Iluminuras, 2006.

LÉVY, Pierre. A Inteligência coletiva – por uma antropologia o ciberespaço. São Paulo: Edições Loyola, 2000.

MEYER, Philippe. O olho e o cérebro – biofilosofia da percepção visual. São Paulo: Ed. Unesp, 2002.

A Geografia Cultural e o Cordel do Fogo Encantado

Por: Belarmino Mariano Neto

Estamos no Nordeste brasileiro. Nordeste do Brasil não é apenas um referencial geográfico definido pelas coordenadas geográficas em suas latitudes e longitudes, definidas pela rosa dos ventos em seus pontos cardeais, colaterais e subcolaterais. Esse desenho por nós conhecido desde os primórdios do ensino.

O Nordeste brasileiro é uma construção cultural marcada por rotas e novelos de existências humanas indígenas, negras e brancas em um mosaico multefacetário em suas imagens caleidoscópicas.

As palavras não conseguem dizer o que o Nordeste brasileiro representa em seus ruídos, imagens e sons. Os ouvidos enquanto sentidos auditivos projetam imagens mentais de coisas que só sendo nordestino e tendo vivido em determinados lugares, como os sertões, comunidades quilombolas, caboclas ou coisa parecida. Os sertanejos e suas marcas cravejadas de espinhos, pedras e coriscos em carrascais que só a paisagem sertaneja guarda em suas estações de secas, primaveras, verões e invernos. Tons de couro de vacas e cabras em utensílios muitos. Balaios, peneiras, chocalhos e potes de botar água de beber.

Humanos de serras e vales secos. Humanos de espinhos e rostos queimados pelo fogo solar em seus cotidianos de lida pelas catingueiras. As chuvas em temporais e seus rios cheios de vazios de barros e barrancos. Humanos presos pela força das águas e capazes de conviver em pleno vale encantado dos lajedos mágicos. Na voz das resadeiras e seus oratórios da casa ou santos pendurados nas taipas das paredes da sala.

O Cordel do Fogo Encantado é um grupo musical das brenhas do Sertão pernambucano, das bandas de Arco Verde e redondezas. Esse grupo consegue assimilar a essência do ser nordestino, simbolismo, existência e fascinação criadas por sons, cores, sabores e odores ditos por uma língua em farpas do pensar cantado. Uma filosofia viva, vivida em cotidianos extremamente ricos de diversidades e contradições.

O Cordel do Fogo Encantado canta lamentos nordestinos, alegrias e tristezas que se manifestam em festas e sotaques de aboios e canções de lavadeiras. Eles cantam uma geografia cultural profundamente arraigada às tradições da fala nordestina, da fala e da escrita em diálogos feitos com cordas de palavras penduradas pelas línguas em cordéis de dizeres que só o nordestino consegue dizer. A palavra ganha força, a voz nordestina em sua agudeza afro-descendente em rituais de tambores e chamamentos espirituais. As coisas dos índios em ritmos caboclos. A fala seca musicada em ritmos semi-áridos.

O canto popular, as cantigas do lugar coladas em seus diferentes ritmos e significados. Este ensaio é a perspectiva de uma geografia cultural. A Geografia de um lugar é sua cultura manifestada em atores sociais que percebem a riqueza dos sons, dos ritmos e dos padrões de linguagem. Parece até que estamos falando do local, no sentido da lugaridade ou do localismo em fragmentos desligados da globalidade. Nada disso. O Cordel do Fogo encantado trabalha com os sons do universo, os ruídos e métricas matemáticas da música em suas profundezas (Letra de Música):



A Árvore Dos Encantados
Cordel Do Fogo Encantado (Composição: Lirinha)

Acorda levanta resolve
Há uma guerra no nosso caminho
Nos confins do infinito
Nas veredas estreitas do universo
Vejo
As cinzas do tempo
O renascimento
As danças do fogo
Purificação transporte
Escuto
O trovão que escapou
As ladainhas das mulheres secas
Herdeiros do fim do mundo
Isso não é real
Não
Isso não é real
A brotação das coisas
Herdeiros da Tempestade
Girando em torno do sol
Do sol
Girando em torno do sol
Vejo
Aquele cego sorrindo
No nevoeiro da feira
Aquele cego sorrindo
Beijo
A fumaça que sobe
O peito da santa
O cheiro da flor
Árvore dos Encantados
Vim aqui outra vez pra tua sombra
Árvore dos Encantados
Tenho medo mais estou aqui
Tenho medo mais estou aqui
Aqui Mãe
Aqui meu Pai
Em cima do medo coragem . Recado da Ororubá

Sentimos as profundezas da letra e sua interpretação pelo grupo simplesmente desafia as leis do firmamento. A Geografia cultural então observa que o autor Lirinha constrói uma paisagem de sons, melodias e imagens caleidoscópicas de um ritual místico, mas ao mesmo tempo tenebroso; cheio de enigmas e escuridões. A história contada pela musica a árvore do encantado nos permite ir até gênese ou o livro de São Cipriano. Aos confins do Brasil e as entranhas da África. O arrasta de espíritos negros em suas correntes de fumaças.

"Entre o cristal e a fumaça" (ATLAN, 1992) é possível ver segredos revelados pelo medo estampado no “peito da santa”. A arvore do encantado é a ciência humana em suas profundezas. A busca da verdade. A grande questão do real: “Isso não é real”. O que é real? Qual a verdade? Como diz Fernandes (2003), a fantástica possibilidade da cegueira humana, da ciência brincando de cobra cega. Mas quando levamos para a essência das coisas, claro que estamos diante de clarividentes, exercitando uma paisagem geográfica.

Referências:

ATLAN, Henri. Entre o Cristal e Fumaça. Rio de Janeiro. Jorge Zhar editor,1992.

FERNANDES, Manoel. Aulas de Geografia. Campina Grande: Bagagem, 2003.

http://www.cordeldofogoencantado.com.br/

morte espetacular

Brmino Mariano Neto


Quando ocupei o útero de gaia ainda não era homem, mas apenas sonho. Gaia Gerou do sêmen solar a luz da vida que germina em suas entranhas fecundas. Primeiro um pó de luz se espalhando pelos recantos e imaginários olhos de mulher, que chora, grita, e sorrindo cria nas profundezas do ser os cristais para o novo e desprendido movimento do nascer galáctico: o filho de uma nova idade, fluído de uma aromática essência de mulher que chorando se corta por dentro e sangra um avermelhado e violento momento matriarcal.

"Eu vi a morte, (...) com manto negro, rubro e amarelo. Vi o inocente olhar, puro e perverso, e os dentes de coral da desumana. Eu vi o estrago, o bote, o ardor cruel, os peitos fascinantes e esquisitos. Na mão direita a cobra cascavel, e na esquerda a coral, rubi maldito. Na fronte uma coroa e o gavião, nas espáduas as asas deslumbrantes que ruflando nas pedras do sertão, pairavam sobre urtigas causticantes, caule de prata, espinhos estrelados e os cachos do meu sangue iluminado. (...) Mas eu enfrentarei o sol divino, o olhar sagrado em que a pantera arde. Saberei por que a teia do destino não houve quem cortasse ou desatasse. (...) Ela virá a mulher aflando as asas, com os dentes de cristal feitos de brasas e há de sagrar-me a vista o gavião. Mas sei também que só assim verei a coroa da chama e Deus meu rei assentado em seu trono do Sertão." (Suassuna, Poesia Viva, 1998, CD:14 e 15 )

Estes fragmentos de sonetos, carregados de signos, enigmas e imagens únicas são os elementos da morte, percebidos por Ariano Suassuna. Neste imaginário, as figuras da morte, vestida com adereços de elementos da natureza sertaneja, nos fazem viajar pelas palavras para na morte a sublimação da carne, onde o sol é um testemunho vivo de tal sede. Assim, símbolos da natureza semi-árida são ressaltados como poderosos e sagrados, no ponto do divino centralizar sua força nestas terras. Em outras partes do soneto, Suassuna ressalta a morte como um toque inapelável do divino, maciez, vida e obscuro toque de um Deus no homem. O lugar e seus elementos como o gavião, a cascavel, a coral, a vida e a morte como figura feminina, que em suas palavras ganham um profundo significado. O destino, outro elemento muito forte na cultura nordestina, que em sua “triste partida” pode estar traçado, e diante da morte é preferível vagar pelas terras alheias, na espera de um dia voltar. Pois o destino traçado em suas mãos vai além de seus poderes terrenais.

Morte espetacular, em todos os seus elementos de arte. A morte possui a arte de matar. A morte mata o tempo e morrer é muito natural. Todo tempo é de morte, é de morrer.

O ato de morrer parece o fim da vida, animal ou vegetal. Pode ser uma entidade imaginária, crânio humano sobre ossos e cinzas. Morte agônica, súbita, neurocerebral e irreversível.

A morte cósmica de uma estrela, grande e natural morte. Morte matada não natural. Morrida, natural. Por doença, violenta, rápida, imprevista. Desastre, homicídio, suicídio. Chorada, cantada, lastimada, irremediável.

A morte de um amor ou de um rancor. Cores incolores pouco vivas, pálidas, mortas, brancas, pretas almas.

Um espetáculo. Milhares de pessoas todos os dias e noites. A cor incolor da morte tecida em luz e trevas, ausenta e apresenta-se sai dos esconderijos e em seu clandestino silêncio, representa a contemplação nua dos deuses com seus toques mágicos de mulheres em seda, morim e cetim. Tintas e cores tecidas no multicolorido matar incolor. Um espetáculo aos vivos. Bandeiras sobre os caixões, fogo das paixões cremam em lágrimas, enquanto as flores murcham e as moscas acompanham o cortejo fúnebre.

Era um anjinho, menos de um ano. Cedo de mais para seus oitenta e cinco anos de vida lúcida e pública. Apenas um ano e o câncer se espalhou por toda sua vida acumulada em rugas.

Um espetáculo de cores que para o trânsito e muda o sentido das conversas. Breve, curto, longo sentir. Apenas um tremor de terra, quase tudo pelos ares. Via satélite, aos vivos. Um espetáculo de imagens em escombros. Quase tudo fora do lugar. Um resgate pelo cochilo da morte. É o que é da morte em todos os lugares, um complemento ao ponto final. Um espetacular cálculo estatístico que preocupa os órgãos de saúde.

As covas são valas rasas e pequenas para os milhares de mortos infantis por desnutrição transcontinental. Um espetáculo, assistido em propagandas de iogurtes, promoções de supermercados ou recordes de produção nas safras de grãos.

Um espetáculo em imagens para a hora do almoço e do jantar. Uma morte que fica bonita e ganha vida própria. Colorido, trilha sonora, visitas ilustres e cenas de choro e lenços. Populares e ilustres tecem curtos trechos de filosofia vã (vida/morte, ser/existir, desistir). A tristeza se reveste de pompa, os óculos pretos e modernos contrastam com as faces rubras de peles bem tratadas.

A morte ganha todas as cenas, gera audiência, redimensiona a memória/imagem de passados que já estavam mortos. Os filtros das câmaras criam um ar acinzentado e mórbido. Flores quase mortas avivam os entornos do espetáculo mortal. Uma princesa, um velocista, um bandido, um índio Galdino, um mega star, um caminhão de sem terras no click de Sebastião Salgado ou mesmo um simples popular do corpo de bombeiros, que arriscava a vida para salvar vidas. Todos filhos da morte.

Tons e sons de morte sobrevoam o local do cortejo. É uma pessoa ilustre, um chefe de Estado, era integro honesto e bravo. Álbuns de família são focados pela panorâmica das câmaras. Uma desatinada busca e alucinada espera. Cortante e bruto alimento do pensar, desconstrução de destruição na construção de uma miragem. Filhos do estupro ou abortados pelo medo, homens. Violação patriarcal do divino, violência matriarcal em estar vivo. Morte calada que rebusca nas cinzas a poeira cósmica da noite, que escondo o sono e que não permite a embriagues dos sonhos.

Um espetáculo mortal, monumental. Milhares foram soterrados pela truculência da natureza, em um simples tremor de terras. Cenas mundiais repetidas mais de uma vez pelos diversos canais, via satélite, aos vivos.

A tragédia é africana e européia. Combina morte/ rivalidade, alimento/ fome. Um espetáculo mortal e louco de vacas inocentemente sacrificadas aos milhares. Tragédia euroafricana de vacas e homens. Quantas vidas para cada morte. Uma morte, uma vida. Uma cena espetacular que desencadeia todos os pensamentos que a lucidez consegue roubar da mente em uma loucura. Um viajar imaginário do ser e penetrar da seda fina do subatômico do momento do sábio nadar e no demasiado sendeiro do escuro da luz nada encontrar. É grande a noite se resumida a uma madrugada da morte. Parece uma nevasca eterna. São tantos os espaços da morte que até o vazio se desespera.

É um espetáculo a certeza da morte. Como garrafas de vinho vazias representa os devaneios humanos, a morte das uvas e o nascimento dos sonhos que embebidos pelo doce/amargo, seco/suave traz na sua idade o sabor de uma vida presa, enfrascadora de energias que em estado líquido, tinto, branco ou rose, pode derramar-se sobre o corpo, a alma, a calma e a alegria. Por libertar-se, ser vinho, rio correndo pelo pensar e passar dos que se tornam vinhos em suas fantasias fermentadas. Te vê do alto com um voar de homem-pássaro, tua contradição dilacera todos os sentidos de um apocalíptico alfa do gradativo vitral nadesco a se apagar. Sem luz perdi de ver o brilho dos teus olhos, perdi de ver de vez o que talvez não veja jamais.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

tudo se mistura

encontrando textos nos porões da internete esse é mais um daqueles textos antigos que já havia dado como perdido, mais na net nada se perde, tudo se mistura...
http://www.biblioteca.sebrae.com.br/bds/BDS.nsf/F059693DC8F0E34F03256FDD0047C64D/$File/NT000A6582.pdf

sábado, 23 de outubro de 2010

I Congresso de Ciências Jurídicas

Centro Acadêmico promoverá 1º Congresso Jurídico no Campus III da Universidade Estadual


Seg, 13 de Setembro de 2010 14:31

A cidade de Guarabira, que abriga o Campus III da Universidade Estadual da Paraíba, será receptáculo do 1º Congresso Jurídico do Centro de Humanidades (CH). Destinado a estudantes e profissionais da área, o evento acontecerá de 17 a 19 de novembro, está sendo realizado pelo Centro Acadêmico de Direito Professor Antonio Cavalcante da Costa Neto (CADI) e trará o tema Direito Público Contemporâneo: Novos Desafios.

Compreendendo a Universidade como um espaço privilegiado para a discussão e para a produção científica, o CADI propõe uma estrutura de evento que incentive à publicação de projetos tratando do tópico central, através dos Grupos de Trabalho (GT'S) e oficinas ofertadas no Congresso.

Entre as oficinas, destacam-se: Normatização de trabalho acadêmicos; Noções básicas de petição inicial; Noções Básicas de Direitos Humanos; e Direitos Fundamentais. Já as conferências percorrerão diversos assuntos, a exemplo de Direitos Humanos e Democracia, Direito Penal e Estado de Direito, Direito Ambiental, Processo Político e Reforma Constitucional.

Detentor de uma vasta programação, o Congresso contará com nomes de relevo no cenário jurídico paraibano da atualidade, como Agassiz Almeida Filho, Antônio Cavalcante da Costa Neto, Bruno César Azevedo Isidro, Danielle da Rocha Cruz, Hugo César Gusmão, Talden Queiroz Farias e Romulo Palitot.

Para inscrições e maiores informações, acesse o endereço http://conjurch.blogspot.com/

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Movimento Negro faz duras críticas a intolerantes religiosos na Paraíba

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

http://pizzariadoze.blogspot.com/2010/10/tiro-no-pe-maranhao-recebe-severas.html

Tiro no pé - Maranhão recebe severas críticas por racismo e intolerância religiosa

REPÚDIO À INTOLERÂNCIA RELIGIOSA E AO RACISMO NA PARAÍBA, NO TOCANTE ÀS AGRESSÕES SOFRIDAS PELAS RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA NA PARAÍBA

Nos últimos dias (07 e 10 de outubro) tem circulado material anônimo (impresso, e-mails e vídeos na internet) desqualificando e desrespeitando as religiões de matriz africana com a divulgação de imagens associando-as ao culto de “entidades demoníacas”. Acrescenta-se o fato de que estas mensagens associam pessoas negras como praticantes do “satanismo”.

Essa manifestação (covarde, discriminatória, racista e intolerante) tem explícito intuito eleitoreiro, uma vez que vincula-se um dos candidatos ao cargo de governador da Paraíba como adepto das práticas “satânicas” afirmando que o mesmo estabeleceu um acordo com o sobrenatural para garantir sua vitória eleitoral. Esse tipo de atitude apenas serve para desvirtuar as questões importantes de uma campanha eleitoral, que deve se pautar por um debate de propostas para a sociedade e não lançar mão de práticas discriminatórias e intolerantes, que distorcem imagens, reforçam/reproduzem preconceitos e constroem discursos injuriosos. [1]

As imagens utilizadas são de uma sacerdotisa/Ialorixá, de alguns representantes do movimento social negro paraibano e de gestores/as públicos. Todas as pessoas que aparecem nos materiais divulgados estavam numa escola pública de João Pessoa, realizando a abertura de evento público, no qual se discutia a Intolerância Religiosa na Paraíba. Nesse evento a participação do poder público, com a presença do então prefeito de João Pessoa Ricardo Coutinho e da Secretária de Educação, Ariane Sá, que exerciam o dever como administradores públicos, buscando “incentivar o diálogo entre movimentos religiosos sob o prisma da construção de uma sociedade pluralista, com base no reconhecimento e no respeito às diferenças de crença e culto”, conforme orienta o Plano Nacional dos Direitos Humanos III.

Não querendo adentrar as questões políticas eleitorais, manifestamos nosso REPÚDIO aos que não respeitam a diversidade religiosa e aos que querem restringir o direito de se vivenciar as religiosidades afrobrasileiras. Primeiro endemonizando racialmente seus praticantes, ao criar uma associação intrínseca entre negritude e satanismo. Segundo, colocando um vídeo que permaneceu na internet por algumas horas. Terceiro, produzindo panfletos que foram entregues aos moradores de alguns bairros de João Pessoa. Quarto, enviando e-mails com conteúdos difamatórios e discriminatórios.

A divulgação desse tipo de informação distorce a importância histórica e cultural das religiosidades negras, das sacerdotisas/ialorixás que são guardiãs da memória de povos arrancados do continente africano e foram escravizados no Brasil, e tenta impor uma visão de que a religião dos orixás é falsa, satânica e com prática restrita a população negra. Difundindo, portanto, uma postura intolerante, discriminatória e racista.

Além da forma preconceituosa, discriminatória e intolerante pelo qual se referiam as religiões afrobrasileiras, destacaram vários monumentos artísticos, ditos como “estátuas”, e como materialização da “consagração de nossa capital paraibana ao satanás”. O autor (ou autora) desse material discriminatório, mais uma vez, mostra-se sem condições de cumprir as regras de convivência respeitosa e descumpre vários marcos legais que regulam a vida em sociedade, de maneira, que cabe a nós, grupos, núcleos, articulações e organizações negras na Paraíba destacar alguns dos muitos preceitos legais que foram desrespeitados e exigir a punição legal dos responsáveis pela elaboração e distribuição do material que discrimina as religiões de matriz africana:

“Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito implica a liberdade de mudar de religião ou de convicção, assim como a liberdade de manifestar a religião ou convicção, sozinho ou em comum, tanto em público como em privado, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos, conforme consta no Artigo 18 da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948);

“Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: Inciso VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”, asseverado no Artigo 5º da Constituição (Cidadã) de 1988;

“Serão punidos, na forma desta Lei os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”, determinações do Art. 20 da Lei nº 9.459, de 13 de maio de 1997.

Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Pena: reclusão de um a três anos e multa, conforme determinações do Art. 20 da Lei nº 9.459, de 13 de maio de 1997.

Sem dúvida, vivemos num sistema democrático dotado de mecanismos para combater práticas intolerantes e racistas, como a mencionada no material divulgado na Paraíba que demoniza as manifestações religiosas de matriz africana, e não podemos assistir este tipo de ataque. Os/as responsáveis por semelhantes atos de preconceito, discriminação racial, intolerância devem ser submetidos/as ao rigor da lei para serem julgados/as. Assim se fortalece a prática republicana e democrática brasileira, afinal, todos, inclusive a população negra, tem direito de ter direitos.

Por tudo isso, nós, ativistas na luta antirracista e, que compomos grupos, núcleos, articulações e organizações negras na Paraíba dizemos não à INTOLERÂNCIA RELIGIOSA e ao RACISMO, bem como exigimos respeito a nossa história, nossa cultura e as nossas expressões religiosas.

Assinam:

Articulação da Juventude Negra – Paraíba
BAMIDELÊ – Organização de Mulheres Negras na Paraíba
FICAB: Federação Independente de Cultos Afrobrasileiros do Estado da Paraíba
Instituto de Referência Étnica-IRE
Movimento Negro Organizado da Paraíba/MNO-PB
Núcleo de Estudantes Negras e Negros da UFPB/NENN
Rede de Mulheres de Terreiros

terça-feira, 28 de setembro de 2010

MARINA SILVA E O VELHO QUE LIA ROMANCES DE AMOR

MARINA SILVA E O HOMEM QUE LIA ROMANCES DE AMOR


Por Belarmino Mariano Neto (belogeo@gmail.com)


Esse artigo é fruto de um caloroso debate articulado a partir de um texto escrito por Joana belarmino no portal Luis Nassif - http://blogln.ning.com/profiles/blogs/o-velho-que-lia-romances-de?xg_source=activity – no qual Joana tenta fazer uma articulação entre a Candidata Dilma Ruseff/Lula/PT com “ O velho que lia romances de amor”. Fiz um contra-ponto e articulo uma outra versão aos fatos, colocando no centro do romance a candidata Marina Silva – PV. Outro ponto, agora de concórdia é quanto a mídia burguesa e seu raio de ação desferindo ataques sombrios contra a Ex- Ministra Dilma, meios de comunicação que Joana unifica em uma espécie de Partido da Imprensa Golpista – PIG.

O autor chileno Luis Sepúlveda, dedica a Chico Mendes, guerreiro amazônico um dos mais belos escritos românticos, em prosa descritiva e perceptiva. É importante observar que o velho eremita que vive na floresta e que lê romances de amor, nos lembra bem mais, outra candidata a presidente, também amiga pessoal de Chico Mendes e que teve oportunidade de aprender a ler em objetos de papel só após 16 anos de idade. Marina Silva se relacionaria melhor nas observações feitas por Joana Belarmino.

Tive oportunidade de conhecer e fazer amizade com um antropólogo acreano conhecido por Mauro Almeida/UNICAMP. Ele também foi amigo de Chico Mendes e é amigo de Marina Silva. Em suas aulas sobre Antropologia, território e identidade, ele contou um pouco de suas experiências na floresta. Com os caçadores, com os seringueiros e com as suas leituras em plena selva. Ele contou que havia uma geladeira velha, na qual depositava seus livros de pesquisas, entre eles: alguns romances, obras marxistas e antropológicas.

Marina Silva se serviu de sua geladeira de livros, e possivelmente traga em suas análises afiadas, um pouco desse romance real. Não como segunda pele, mas como primeira pele. Quando a gente fala da epiderme do ser é como tratar da essência, elementos que transcendem a própria lógica formal, pois estamos diante de dinâmicas cognitivas utilizadas pelo pensamento analógico.

Acho que a colagem feita por Joana Belarmino quando faz sua dura crítica a imprensa burguesa é correta, mas a comparação entre o velho que lia romances de amor e Dilma/Lula está descontextualizada, pelo simples fato de que diferente de Lula, estrategista emocional, Dilma não convence nem a si mesma. Essa é uma opinião não da mídia burguesa, mas de muitos intelectuais e de pessoas simples com as quais a gente encontra e tabula conversas políticas típicas de nossa frágil democracia.

Assisti algumas entrevistas de Dilma e li algumas de suas opiniões espalhadas pela mídia burguesa, ou simplesmente, por canais alternativos de imprensa, blogosfera e sites livres. http://www.youtube.com/watch?v=8wIlFaF2r4c Me estranha suas posições sobre o meio ambiente e sobre a literatura. http://www.youtube.com/watch?v=qWgol6I-YpY&feature=related . Como a tratada aqui do artigo de Joana Belarmino. Fico pensando, será que Dilma já se deu ao trabalho primitivo de lê esse belo romance?

Concordo com uma coisa, atos falhos são psicologicamente normais, pois representam o que de fato a gente pensa sobre determinadas questões. Atos falhos sequenciais comprometem a personalidade do individuo em questão. Por outro lado, quando lemos Levy (1993), o mesmo argumenta que a dinâmica do pensamento nos dias atuais relaciona-se a um processo cognitivo coletivo. Nesse sentido, preocupa-me querer culpar o PIG, pelos atropelos da escolha presidencial petista. Sabemos que a esquerda moderna, chegou ao poder pela via da direita, cheia de boas intenções. Sabemos também que para o PT chegar ao poder, precisou fazer uma limpeza ideológica em seus quadros (marxistas, leninistas, trotskistas, maoístas, ghevaristas, etc.), os últimos fundaram o PSOL de Heloisa Helena e seus companheiros.

Acho que precisamos de um segundo turno, não por vontade da imprensa burguesa, mas por vontade popular, pois o personagem que vive na floresta e lê romances de amor é Marina Silva. Acho que também na visão de Boff, Caetano, Betânia, Adriana Calcanhoto, Lenine, Pedro Simom e Dona Eulália, 73 anos, professora aposentada e que disse: “Marina é frágil, mas tem muita fibra. Vi sua entrevista no Bom dia Brasil, ela me convenceu, e eu nem ia votar este ano”.

Será que a história da vida de António José Bolívar foi inspirada em Chico Mendes? Quem conhece a história de Chico e entra no universo do velho que lia romances de amor, percebe e se envolve com o respeito pela natureza e aos povos da floresta. Esse mundo verde, que alimentou a ficção de AVATAR, é preconizado no romance de Marina Silva, em sua UTOPIA ATIVA, em uma missão quase impossível. Mas a onda verde vem pegando velocidade, podendo virar tsunami político, quase que em uma reação de viragem ecológica. Algo como “um vendedor de flores que ensina seus filhos a escolher seus amores” (Ana Carolina). Não gostaria que atribuíssem a imprensa burguesa tal fato, pois Marina só tem um minuto de TV e o mesmo espaço na imprensa que os demais candidatos. No entanto, vejo uma montanha de internautas reinventando silenciosamente uma nova maneira de fazer política.

Quanto às rugas ou verrugas no espaço-tempo, sequestro de Lula e Dilma, acho que o PIG não precisará de nada disso, pois a escolha de Dilma é um erro que deve ser atribuído aos dirigentes do PT, dos quais Lula é apenas um, mesmo que seja o principal.

Gostaria de ter visto no artigo outros personagens de o velho que lia romances de amor, entre eles o venal Barbosa e sua absurda lógica de extorsão, típica do modelo político brasileiro. Eleições corrompidas pelo álcool, pela compra de votos e fichas sujas, aparecem no romance do chileno Luis Sepúlveda. Em nossa realidade estas fichas sujas viram fichas limpas na boca do nosso líder operário. A direita recebe de presente todas as munições que Lula/Dilma e seu grupo de continuidade no poder, não poderiam dar ao PIG.

Quem é Bolivar, além de um leitor de romances de amor? Profundo conhecedor de todos os sistemas vegetais, animais e hídricos da floresta. Conhecimento romanceado ao longo da vida, dos ritos e da lida. Marina Silva, agora no PV, vive esse romântico e livre mundo em que a consciência contribui para as grandes decisões coletivas. Independência que passa pelo poder de escolher seus homens e mulheres, para o ministério de um governo nascido do coração dos povos da floresta, da caatinga, do cerrado, da mata atlântica, pantanal, araucárias e dos pampas gaúchos.

Quem são os inimigos? Isso fica para os futuros leitores de “O velho que lê romances de amor”. Faço questão de aqui colocar o velho como o que lê romances de amor, pois estou na casa dos meus quarenta e seis anos de idade, enquanto aquele velho, só de floresta já tinha 40 anos. Os velhos e as velhas, os jovens e as jovens devem enveredar pela sugestão de leitura da irmã Joana Belarmino e verão que a candidata que melhor se relaciona com o romance é Marina Silva, filha da floresta, agora uma guerreira AVATAR que já conseguiu um verdadeiro exercito verde e isso será irreversível na vida política cultural, social e ambiental desse pais.

Assim como Lula da Silva, filho de Brejeiros do Agreste pernambucano, Marina Silva é neta de cearenses retirantes e filha da floresta, leitores e construtores de um romance sem precedentes na história desse país que já tem uma nova história para contar.

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