terça-feira, 2 de junho de 2015

GEOPOLÍTICA AMERICANA NAS ENTRANHAS DA FIFA: os Estados Unidos da América (EUA) entenderam que o futebol movimenta trilhões de dólares em todo o mundo.

new yorker futebol
Fonte da imagem: http://www.brasilpost.com.br/2014/06/26/


Por Belarmino Mariano Neto


“Rompendo seu histórico desprezo pelo futebol, os norte-americanos finalmente se apaixonaram pela Copa do Mundo. As partidas da seleção dos EUA batem recordes de audiência na TV, superando esportes tradicionais no país como o beisebol. Movimentos populares pressionam a Casa Branca para decretar feriado nos dias de jogos. Notícias sobre a Copa dominam as manchetes de jornais e revistas. E a classificação de hoje para as oitavas de final marca a virada definitiva: a audiência foi tamanha que chegou a derrubar o site da ESPN norte-americana. O "soccer" caiu, de uma vez por todas, no gosto do grande público nos EUA” (http://www.brasilpost.com.br/2014/06/26).

Será que esta imagem estampada no The New Yorker revela que os norte-americanos vieram para a Copa do Mundo no Brasil e se apaixonaram de vez pelo futebol? Mas, para além das copas passadas e por vir, o que de fato me animou para escrever esse artigo foi exatamente a intervenção do FBI e a prisão de dirigentes da FIFA; a realização das eleições da FIFA e em seguida e renuncia do Suíço Eleito Joseph Blatter. Ele terá culpa no cartório? Ou foi uma orientação do permanentemente neutra governo Suíço? 
                O mundo todo se pergunta: Qual o interesse dos Estados Unidos em intervir diretamente na FIFA, através do FBI e com o apoio direto das agencias de segurança da Suíça? Outras questões podem nortear essa analise geográfica de perspectiva geoestratégica. O mundo encurta sua expectativa temporal e fica demonstrado claramente que os megaeventos internacionais estão se tornando um grande negócio em curto e médio prazo. Em 2018 teremos a Copa do Mundo na Rússia e em 2022 será a Copa do Mundo do Qatar. Temos quase uma década pela frente, em que trilhões de dólares correram para territórios que não estão na escala de interesses norte-americanos. Diga-se de passagem, temos de um lado o mundo árabe e do outro, resquícios do sonho socialista que marcou profundamente a “Guerra Fria” e a velha ordem Geopolítica. Esse é o desenho de fato, esquadrinhado pelos dirigentes da FIFA e que estrategicamente desagradou os Estados Unidos, que começaram a se interessar pelo mundo do futebol.
A bola escolhida para provocar uma crise nesse mundo futebolístico foi exatamente o que melhor caracteriza seus dirigentes maiores, a bola da corrupção, os contratos bilionários, as compras de liberações de imagens, os negócios escusos cotidianamente praticado nesse mundo do futebol e ao qual ficamos conhecendo mais diretamente, pois o Brasil foi sede da ultima copa do mundo, com direito a todos os tipos de escândalos de corrupção. O país deu exemplo de que corrupção na organização da copa foi escandalizada em todos os pontos cardeais desse país. Para a realização da copa do mundo no Brasil, foram alteradas até leis na Constituição; foram abertas as porteiras dos negócios e as regras do jogo da corrupção facilitadas.
Os movimentos sociais foram às ruas e protestaram contra esse jogo sujo, dizem até que houve interferência de grupos organizados patrocinados para expor uma violência nas ruas. A gente ainda fica se perguntando, se de fato houve conspiração contra a Copa no Brasil? Se havia o dedo dos Americanos para provocar um fiasco no evento mundial. Ficou claro que havia dois grupos nas ruas. Aquele historicamente reconhecido como de esquerda e que lutava contra a corrupção, contra as obras faraônicas da copa, enquanto faltava saúde, educação e segurança para o povo; e havia também um grupo de direita que orquestrava uma campanha contra o governo petista que ao lado da CBF e da FIFA organizavam a dita copa. Não há dúvidas de que, em meio às manifestações, surgiu uma onda de violência orquestrada, não se sabe por quem, uma espécie de tumulto e violência para além do tolerável, meio que tentando, através do vandalismo, melar o grande evento mundial que todos sabemos funcionou graças as muitas propinas e aditivos para o término dos estádios, ou arenas.
O site da BBC destaca que os norte-americanos se apaixonaram pelo futebol e pela Copa do Mundo no Brasil e este foi o segundo pais que mais comprou ingressos e veio ao Brasil. Mas as audiências da Copa foram altíssimas em todo o país. O site ainda falou sobre a dança dos milhões de dólares que foram movimentados para retransmissão de futebol nos Estados Unidos, nas duas ultimas copas do mundo e faz previsões para os anos de 2018 e 2022, nesse mercado bilionário, talvez os norte-americanos estejam acordando para as perdas que já tiveram até agora, enquanto o povo americano começa a se deleitar com uma paixão há muito tempo vivida pelos brasileiros.

“A ESPN pagou cerca de US$ 100 milhões (R$ 220 milhões) pela retransmissão em inglês das Copas de 2010 e 2014 nos Estados Unidos, enquanto que o canal em espanhol Univisión, voltado para a comunidade hispânica, desembolsou US$ 325 milhões (R$ 726 milhões) pela exclusividade das imagens Mundial em espanhol, revelou a revista Forbes. (...) Trata-se de um crescimento considerável frente aos US$ 22 milhões (R$ 49 milhões) que a ESPN pagou pelos direitos do Mundial da França em 1998, o primeiro transmitido em sua totalidade em território americano. E muito menos do que os US$ 425 milhões (R$ 950 milhões) que a Fox pagará pelo direito de transmitir os torneios de 2018 e 2022” (http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/06/).

Talvez ai esteja uma das reais motivações norte-americanas em atacar diretamente alguns dos corruptos dirigentes da FIFA, nas vésperas de seu congresso mundial e das eleições para os dirigentes da entidade. São milhões em jogo, são grandes negócios que estão em jogo, uma fatia do mercado mundial do futebol, que efetivamente não passava por dentro da economia norte-americana.
Nos Estados Unidos, o mundo do futebol é tão corrupto quanto em qualquer federação estadual, de países do futebol como o Brasil. E não se enganem, pois o FBI começou o trabalho de combate à corrupção no futebol, fazendo o dever de casa. Prendeu dirigentes da federação americana de Futebol, ofereceu a delação premiada e aos poucos criou as condições geoestratégicas necessárias, que foram camufladas por uma falsa legalidade típica dos interesses geopolíticos norte-americanos. Agora estamos diante de um paradoxo, pois parece existir uma ação legal dos Estados Unidos, razão pela qual, não houve reação do mundo as suas iniciativas em prender dirigentes, vasculhar equipamentos eletrônicos, documentos e efetivamente passaram a arbitrar os rumos do mundo do futebol, assim mesmo, da noite para o dia.
Os USA como uma grande potência em todos os setores da economia e do esporte mundial (basquete, beisebol, futebol americano, etc.) teimava em ignorar o mundo do futebol de 11 contra 11. Insistia em não demonstrar interesse pelo tema. Achava que esse esporte não caberia na vida nacional americana. Podemos dizer que houve um erro em não valorizar o esporte, que no mínimo, não perceberam que esse tipo de jogo eminentemente coletivo já era paixão nacional em dezenas de grandes nações. O futebol é um dos esportes coletivos que estão nos jogos olímpicos desde 1908, e mesmo assim, os governos americanos nunca incentivaram o esporte naquele país. Hoje eles sabem muito bem que o futebol movimenta trilhões de dólares todos os anos e os grandes eventos internacionais mexem com milhares de grandes negócios. Agora, se revestem de uma moral semelhante a que utilizam na esfera da ONU, para tentarem influir em uma organização, na qual eles não apitavam em nada, até então.
Os interesses dos Estados Unidos da América estão para além de questões da corrupção no futebol, ou na FIFA e em suas Confederações e Federações espalhadas por todo o mundo. O jogo de poder é geopolítico e com vistas ao futuro desse esporte e dos seus grandes negócios. Vejam as negociações bilionárias que eles denunciaram em empresas que fabricam materiais esportivos nessa área, ou os grandes negócios que ocorrem por dentro dos meios de comunicação para a transmissão de jogos em diferentes partes do mundo, em especial, na América Latina. Vejam que as confederações e federações diretamente atacadas foram justamente daqueles países sem força geopolítica efetiva, tanto na América do Sul e Central (não estamos aqui, querendo redimir os dirigentes corruptos existentes nesses países, a exemplo do Brasil, que já eram motivo de pedidos de CPI).
Veja o envolvimento de países como Espanha, Itália, Alemanha e Reino Unido com o mundo do futebol. Estes países sozinhos investem bilhões de euros todos os anos com o futebol. Nos grandes clubes europeus são gigantescas as empresas que mobilizam milhões de pessoas, como sócios torcedores. Sempre são destacados os melhores jogadores do mundo todos os anos, saindo de times europeus, com a compra internacional de passes, seja de jogados sul-americanos, africanos entre outros. Na atualidade, a China se destaca com o investimento pesado em times de futebol; o mundo árabe faz o mesmo, enquanto que o Japão e a Coreia do Sul já faz isso há décadas. Então, os Estados Unidos, tardiamente, tentam entrar nesse mundo, ao seu modo, com ações geoestratégicas, pois assim, suas empresas seguirão as tendências desse mercado bilionário.
Parece que alguns países não estão querendo se indispor com a geopolítica americana e aos quatro cantos do mundo, acompanhamos os governos ou os entes das federações de futebol e até mesmo as empresas envolvidas com este mundo da bola, declararem que estão dispostas em colaborar com as investigações, que concordam com as ações do FBI para esclarecer e se existirem irregularidades, que estas sejam expostas e os culpados paguem pelos seus atos de corrupção.
Ficam as perguntas no ar: Agora com a vacância do cargo, será que viveremos uma FIFA aos moldes da ONU, nessa relação das grandes organizações mundiais que rezam na cartilha geopolítica dos USA? Será que o imperialismo Norte-Americano chegou a sua ultima fronteira capitalista com sua exitosa intervenção na FIFA?


Referências:

domingo, 31 de maio de 2015

Estudos sobre cidades do Sertão Paraibano

Antiga Estação Ferroviária de Sousa/PB. Fonte: patrimoniodetodos.gov.br

Em respeito ao dia do Geógrafo Brasileiro, segue uma pesquisa muito bem feita, sobre a geografia do Sertão Paraibano. Tive o prazer em orientar esse trabalho de Danile Alves. A pesquisadora focou seu estudo nos municípios de Sousa e Santa Cruz, discutindo principalmente a interdependência social, econômica e cultural entre estas cidades do Sertão paraibano.

Vejam na integra:
http://dspace.bc.uepb.edu.br:8080/jspui/bitstream/123456789/1161/1/PDF%20-%20Daniele%20Ferreira%20Alves.pdf

quarta-feira, 13 de maio de 2015

ALERTA! sobre antibióticos em animais que consumimos

Fonte da imagem: https://secure.avaaz.org/po/antibiotics_factory_farms_loc/?btHGAdb&v=58082


Fazendas pecuárias cruéis estão entupindo animais saudáveis de antibióticos
 para produzir mais carne de forma mais rápida e barata. Esta crueldade insana também está gerando superbactérias resistentes a remédios e que podem nos matar! 

Vários países europeus já reduziram drasticamente o uso de antibióticos. Agora os ministros da União Europeia estão negociando leis para fazer o mesmo em todo o continente.

A importância de reduzir a crueldade contra os animais ao mesmo tempo em que se poupa vidas humanas é algo tão óbvio que até mesmo o McDonalds prometeu que pararia de vender frangos que fossem criados com alguns dos antibióticos nos Estados Unidos. Entretanto, o lobby das indústrias farmacêutica e agropecuária trabalha a todo vapor para deter as novas leis europeias.

Dentre os ministros da União Europeia que se reunirão amanhã, muitos ainda não decidiram que posição tomar. Vamos fazer uma campanha com milhões de assinaturas pedindo a proibição do uso cruel, letal e abusivo de antibióticos na pecuária industrial e entregar a petição para cada um deles. Assim que vencermos na Europa, vamos levar a causa ao redor do mundo. Assine agora e compartilhe com todo mundo:

https://secure.avaaz.org/po/antibiotics_factory_farms_loc/?btHGAdb&v=58082

A Organização Mundial de Saúde emitiu alertas graves sobre como as bactérias resistentes a antibióticos podem torná-los inúteis no combate de doenças infecciosas, como a tuberculose e a pneumonia. Grande parte da medicina moderna depende de antibióticos, incluindo os tratamentos de câncer e operações cirúrgicas -- um relatório recente estima que morrerão até 2050 se não salvarmos os antibióticos.

Doses baixas e constantes de antibióticos geram superbactérias. E, embora o abuso de antibióticos da parte das pessoas também contribua para o aumento da resistência, pouco tem sido feito para reduzir a enorme quantidade de antibióticos administrados aos animais de criação: dois terços dos antibióticos produzidos nos EUA e Europa são usados em animais!

Dinamarca, Suécia, Noruega e Holanda mostraram que é possível produzir carne com muito menos antibióticos, mas com a exportação de carne e bactérias através das fronteiras, é preciso efetuar mudanças em outros países.

Muitas pessoas gostariam de fechar fazendas pecuárias perigosas de uma vez por todas. Estas novas leis da União Europeia serão um passo enorme para a melhoria do bem-estar animal e da saúde humana. Porém, de acordo com especialistas, os ministros não estão sentindo nenhuma pressão pública: podemos mudar isso agora.

Assine a petição e espalhe a campanha: quando chegarmos a um milhão de assinaturas, a Avaaz vai conduzir pesquisas de opinião e trabalhar com países defensores da causa para levar a nossa petição direto para o plenário antes da votação na União Europeia:

https://secure.avaaz.org/po/antibiotics_factory_farms_loc/?btHGAdb&v=58082
Milhões de membros da Avaaz ajudaram a proteger baleias, pintinhos de granjas e outros animais. Agora vamos nos unir novamente para proteger um dos pilares da medicina moderna e conquistar essa vitória para os animais e para todos nós.

Com esperança,

Alex, Allison, Laila, Alice, Antonia, Alaphia, Ricken e toda a equipe da Avaaz

MAIS INFORMAÇÕES


Primeiro a saúde e a segurança alimentar! (O Público)
http://www.publico.pt/mundo/noticia/primeiro-a-saude-e-a-seguranca-alimentar-1691883

Em defesa de uma carne mais saudável (Gazeta do Povo)
http://www.gazetadopovo.com.br/saude/em-defesa-de-uma-carne-mais-saudavel-5dfrk4fi9jhlmi6wa4tkq2rta

OMS: Infecções comuns podem matar de novo por resistência a antibióticos (Terra)
http://saude.terra.com.br/oms-infeccoes-comuns-podem-matar-de-novo-por-resistencia-a-antibioticos,185895f2aa50d410VgnCLD200000b2bf46d0RCRD.html

Antibióticos - Sumário da resistência antimicrobiana (CIWF) (em inglês)
http://www.ciwf.org.uk/research/human-health/antibiotics-briefing-antimicrobial-resistance/

Resistência a antibióticos é agora "ameaça global", adverte OMS (BBC) (em inglês)
http://www.bbc.com/news/health-27204988

Alimentos, agropecuária e antibióticos: um desafio para os negócios na área de saúde (The Guardian) (em inglês)
http://www.theguardian.com/sustainable-business/food-farming-antibiotics-health-challenge-business

Por que fazendas também devem lidar com a resistência a antibióticos (EurActiv) (em inglês)
http://www.euractiv.com/sections/health-consumers/why-antibiotic-resistance-must-be-tackled-farm-too-310078 

sábado, 9 de maio de 2015

O Homem que me Fez

Foto dos meus pai e mãe - Mariano Belarmino e Gessi Costa
Texto de Joana Belarmino
Todo dia 1º de maio eu escrevo. Com as mãos, com os olhos, com o corpo todo embebido da saudade dele. Como se estivesse brincando com legos, procuro na memória pedaços da sua vida, refaço trilhas, conversas, silêncios, sofro de novo com as suas crises asmáticas, sorrio com o mundo fantasmático que ele despejava nos causos que contava.
Toda vez me surpreende a força e a meiguice com as quais ele fora tecido. Nasceu a 1 de maio de 1915, num mundo ainda assombrado com o pós-guerra, num pedaço de nordeste crestado de sol, Riacho Fundo, onde água era produto de luxo.
Ali o futuro dos homens estava cinzelado em poucas letras de pedra. Ser pobre, ser honesto, trabalhar, de sol a sol, nas terras dos latifundiários, que apadrinhavam seus filhos, apertavam suas mãos calosas, fiavam suas compras na feira de quarta-feira e ficavam com quase todo o seu lucro que saísse da terra.
Hoje me veio uma lembrança da infância. Estávamos nos anos sessenta. Localização, Angico Torto, um sítio perdido no município de Itapetim, alto sertão de Pernambuco. Um dia ele chegou em casa cansado da asma, a ira nos olhos, brigando pelo ar, gritando contra a injustiça. Apanhei a história aos bocados, com minhas mãos de menina pequena. Minha mãe se negara a votar no cabresto do fazendeiro, Joaquim Paulino da Silva.
O homem rico, dono do gado, dono da fazenda, veio a cavalo, interrompeu meu pai, na faina de fazer suas cercas. Pediu a casa de taipa. Pediu a terra. Engoliu de um sorvo irado, anos e anos de trabalho duro, de servidão, de valentia, de horas de conversas amenas, latifundiário e meieiro preparando juntos a terra para a plantação do milho.
A ventania no sertão é como um pássaro grande, batendo portas, retorcendo arbustos ressequidos, atirando para longe a poeira escura. Foi como um redemoinho, a ira de Joaquim, atirando meu pai com seus filhos, sua mulher e o voto insubordinado para longe da pequena casa agora vazia das suas crianças.
A vida do meu pai encerrou-se em 15 de maio de 1993. Oito dias antes, meu irmão, na uti do hospital, cantou-lhe um aboio, enquanto eu, perdida em lágrimas, segurava sua mão calosa e inerte.

Todo dia 1 de maio eu escrevo, tentando aplacar um pouco a saudade dele. Em vão, as palavras chegam, tisnadas de assombro, porque sentem que não são senão, uma quilha inútil, um vão que jamais abrirá novamente o caminho por onde eu possa correr, abrir porteiras, derrubar cercas, chegar de novo perto do meu pai.


terça-feira, 28 de abril de 2015

Dos mapas mentais da solidão às cartografias do envelhecimento

Belarmino Mariano Neto

No frontal dos teus olhos uma penumbra, um rasgo de luz entre os cacos de vidro cor de bronze se espalham ao final da tarde e o por do sol escorre pelos manguezais do rio Sanhauá, até atingirem o horizonte dos tabuleiros litorâneos na direção ocidental de mais um dia oco que se alonga para os sertões, onde o sol ainda castiga em suas faíscas de luzeiro.
Antiquários envelhecidos arquitetam o olho do tempo, revestindo suas dependências de enigmas como se as soleiras do portal fossem amalgamas para uma ordem ou missão dos templários. Os antiquários são territórios do vivido, das memórias, das lembranças, dos esquecimentos e da senhora que pede passagem para o grande mestre que a todos consome.

Na mente envelhecida, mapas mentais em garatujas desalinham rotas tortuosas de lembranças incompletas, sem legendas claras, nem pontos de partidas. Ilegíveis aos viajantes neófitos. São memórias de fogo, memórias de águas, memórias de magoas e feridas abertas por pontas de arame em farpas. Marca já saradas, que cicatrizaram aquela pele em rugas.
Posso ver no oculto emaranhado da mente, aquela mulher sentada na soleira da porta de entrada do velho casarão desabitado. Uma construção do começo do século XIX, com varandas semiabertas, sustentadas por dez grossas colunas e oito grandes janelas de madeira maciça pintadas com um verde envelhecido e que emolduram a parede da frente do casarão.

Os seus envelhecidos pés são ao mesmo tempo suaves e sulcados de rugas. Descalços tocam o piso do terraço, um piso de um mosaico quadriculado em tons branco e vermelho muito desgastado. A porta também de madeira maciça se oculta na lateral do abandono e entreaberta representa um umbral com tons esverdeados e camadas descascadas de um azul interno, indicando sobreposição de uma pintura há muito tempo encoberta pelo verde sem vigor, muito mais fuligem, mofo e poeira, que a própria tinta.
Ela é a guardiã do templo e senhora do tempo. Uma mulher branca e manchada de sardas guarda em si o véu da virgindade sem macula. Foram exatos noventa e sete anos vividos, com os quais demarca o ritual de passagem pelo portal para adentrar o casarão dos seus próprios sonhos. Guarda que segredos? Esconde que mistérios? O que ainda Aguarda?

  
Pela nudez transparente e fino tecido de suas vestes, notei em seu corpo, uma gigantesca e enrugada tatuagem que representa a cartografia do desejo e as rotas da solidão. As linhas, as curvas e o sinuoso entrecruzado das mesmas, espalham-se pelos seus ombros, abdômen e costa, representando sentidos de subterrâneos sem começo, sem meio, nem fim.
Ela se encontra perdida em entre pensamentos e se sente jovem, se sente mulher em flor de idade, querendo em sede e brasa se derreter por entre os dias, por entre as estreitas e fascinantes sendas da navalha que corta a calma a alma e alegria. Se percebe em meio a cortinas do passado, por entre vidraças do desconhecido, sem saber ao certo do que pensa, do que sente, do que vive em seu distante mundo de tenra idade.
 

Ela se sente um pássaro em plumas humanas em sua nudez vestida de relvas. As linhas da tatuagem cartografada em seu corpo escorre por todos os lados das suas coxas, pernas, ombros e braços. Em tons multicoloridos, como se fossem imagens pintadas em rena indiana, marcam lembranças vivas das primaveras. A finura das linhas tatuadas na sua pele, disputa espaço com o fino tecido do tempo, indicando sentidos conexos, como se fossem garatujas de um passado recente. Escritos legíveis que aguçam o sentido da visão em um emaranhado de flores que rodopiam os picos dos seios ostentosos em outros cachos que escorrem pelos cabelos e escondem a crina dos seus cabelos até os ombros. 
Como se retornasse ao embaralhado dos seus pensamentos, a sua mente cambaleia para o passado distante e olhos perdidos ao longe indicam sentidos desconexos, como se fossem garatujas de um passado longiniano. Escritos inelegíveis, configurações divergentes e sem pontos de partidas, confundem o sentido da visão. Dos bicos dos seus seios, escorrem ideias de montanhas sulcadas e desgastadas pela erosão dos olhares de outrora e na couraça da sua pele, desnudam sinuosidades enrugadas que lembram rios intermitentes com intensa lixiviação.
A mulher em sardas esconde em seu dorso símbolos e enigmas de um mapa desenhando e legendado por códigos desconhecidos. Talvez representando uma língua morta ou traçados feitos para confundir os aventureiros, encantando-os para sempre em um cego tatear de estrelas que já não existem mais. Observando o mapa de sua pele, percebi a existência de trilhas apontando para recônditos lugares e vazios abismáticos.
  Fonte: www.artenocorpo.com
Em um suave e lento movimentar das suas mãos, observei o traçado de uma vida de longa solidão em seu destino. Uma vida de nevasca eterna, de fina e invisível areia escorrendo por entre os seus dedos delicados. Enroscados pelos seus antebraços, vi a figura de dois dragões sobrevoando sua alma, sua calma e sua alegria. Nos seus braços, duas serpentes alimentam-se da espera e do imprevisível. E, entre as cobras e os dragões, uma sequência de desenhos tribais, como se representassem uma dança de imagens solares e lunares rodopiando pelo vazio enigmático do seu olhar.
Mas de repente é como se todas estas imagens sumissem de sua pele e do nada os mapas e tatuagens nunca estivessem marcados em seu corpo e tempos. A sua pele nua se revestia da sol, se revestia de velhice e juventude, como em um encontro astral inesplicável.
     
Em seu corpo, uma cartografia de desenhos, arranjos e relações encobertos por pesadas camadas do tempo. Um tempo esfíngico mistura carne e pedra, dando forma à envelhecida mulher sentada ao lado de si mesma. Naquele canto do jardim da velha casa. Ali, ela repousa o corpo na claridade solar e percebi que o casarão desaparecera dos seus pensamentos.
Mas o céu com sua abertura de luz e atmosfera nua lhe reaproxima dos cantos do terraço do casarão inclinando suas sombras sobre as paredes envelhecidas do espaço oco. Num jogo fotográfico de luz e sombra, nuvens cruzam o ilusório céu da tarde e, seguindo a rotação da Terra espalha sombras suaves pelo chão desgastado do terraço, marcado com invisíveis pisadas não se sabe de quem.
Por todo o seu corpo feminino, estão esculpidos os sulcos do tempo, manchas solares e cicatrizes de amores desfeitos, escombros de paredes descascadas em suas camadas de tintas. O tempo escorre profundas rugas pela sequidão exposta do seu corpo e nas entranhas de sua pele uma marca cicatrizada indica a cratera de uma grande queimadura que brota na altura do seu coração.

Fonte da imagem: http://nadja-cacarecos.blogspot.com.br/2013/08/casarao-do-parque-jambeiro.html

Como hera e fícus verdejante ela agarra-se as pedras e penetra pelos francos das paredes, assim, a mulher se torna o casarão que é habitado por ela própria. Sua carne se mistura com a pedra e o barro da antiga construção em desmoronamento, em uma cartografia de sentimentos e vazios envelhecidos. Seus olhos esverdeados e pesados marejam um olhar para a porta aberta lhe permite pedaços de sentidos de um olhar distante e vazio de presenças.
Sua face encontra-se tatuada em musgos e líquens e suas garras se ficam nas paredes entecendo novas colunas de vida em galhos que até o tempo se desespera diante do desafiante continuar contando estes mapas mentais de um desconhecido mundo em seiva de mulher. Com os últimos raios do sol, desce o anoitecer e ela levanta-se da velha soleira, entra no casarão destelhado e diante do escuro, leva consigo o que restava do agora, deixando a porta aberta para que o amanhã aconteça.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

(Resenha) "Geopolítica da água: Açude de Boqueirão/ PB e as disputas territoriais por água"


Resenha Geográfica:

Resenhado por: EDSON SEVERINO CAMPOS DA SILVA

Resenha do Artigo Científico de,
RIBEIRO, Rainer Rufino. Geopolítica da água: Açude de Boqueirão/ PB e as disputas territoriais por água. Guarabira – UEPB, 2011.

Neste trabalho o autor apresenta uma pesquisa que tem como objetivo geral analisar a complexidade geográfica a partir da categoria território e do elemento água na perspectiva geográfica de disputas, baseado em teorias de diferentes autores.
O artigo traz uma discussão teórica sobre a geopolítica da água, utilizando o Açude Presidente Epitácio Pessoa (Açude de Boqueirão) como objeto de pesquisa, devido à importância desse recurso hídrico para a população beneficiada, assim como, pela influência semiárida exercida em grandes extensões de terras paraibanas.
Numa região onde a escassez é a marca principal, a água vale mais que ouro. O Açude de Boqueirão tornou-se alvo de disputas pela água que representa um dos males do século XXI, e, que está bem próximo da realidade local, apesar do brasil possuir uma das maiores reservas de água do planeta.
O texto destaca a ideia de conflito como algo que deve ser analisado e discutido, para que sejam pensadas e criadas soluções que não apenas cessem tais conflitos, mas, que todo brasileiro tenha acesso a água em níveis quantitativos e qualitativos em igualdade. Para isso, o autor buscou um suporte territorial no semiárido paraibano, em terras do Cariri, especificamente, no Açude de Boqueirão.
Para Ribeiro (2011), essa tarefa tem se tornado cada vez mais difícil, com o crescimento do consumo, a poluição dos mananciais e a concentração populacional e da atividade econômica em áreas com pequena disponibilidade hídrica (p. 12).
O baixo potencial hídrico e a desertificação existente em áreas paraibanas estimulam os conflitos pela água devido as necessidades de uso. Mais de quinhentas mil pessoas dependem da água desse açude. A água é um elemento essencial para todas as formas de vida na terra. De acordo Ribeiro baseado nas ideias de Brito (1944), os conflitos sociais por causa da água são, até certa extensão inevitáveis, tendo em conta as múltiplas funções da água: é uma necessidade humana básica, a base das vidas, parte vital de ecossistemas essenciais, um símbolo cultural e uma mercadoria de extremo valor comercial (p.13).
A questão da escassez da água atinge não apenas a região Nordeste, mas também outras regiões bastantes desenvolvidas que exige uma grande demanda de água. Sendo assim, as grandes metrópoles são obrigadas a buscarem a água em outras bacias. Nesse sentido, essa questão atinge proporções globais.
No texto Ribeiro mostra através da ideia de Vianna que a ideia de conflito indica que um ou mais atores sociais estão em disputa por um objetivo: controle de um território, de uma população ou de um recurso natural, como a água (p.14).
A escassez da água incide em estratégias de poder, provocando conflitos caracterizados pela disputa de uso da água. O atual modelo de desenvolvimento também impulsiona a exploração desenfreada de recursos naturais não deixando oportunidade para a renovação dos mesmos.
“Dos conflitos pelo uso da água, aquele que opõe o abastecimento público a outros, quaisquer que sejam, é o caso mais comum” (p.17). Para suprir a demanda de água nas regiões de escassez apresenta-se a transposição do Rio São Francisco como fonte complementar de águas, para os rios intermitentes na região Nordeste. Esta seria uma alternativa que possivelmente cessaria ou diminuiriam os conflitas na região citada.
O eixo leste com capacidade máxima de 28 m³/ s, atingiria o Rio Paraíba, porém, apenas 10m³/s seria disponibilizado para o consumo humano, o canal poderá funcionar com a vasão máxima, transferindo o excedente hídrico para reservatórios existentes em bacias receptoras, a exemplo do Epitácio Pessoa – Boqueirão, localizado na bacia do Rio Paraíba/PB, como mostramos dados apresentados pelo autor.
O principal açude da bacia do Rio Paraíba é o Epitácio Pessoa (Boqueirão). A escassez hídrica destaca-se dentre os diversos problemas enfrentados por esta bacia, como o uso desordenado e com desperdícios, desmatamento da mata ciliar, contaminação por lixo etc., que contribuem para o aumento da escassez da água naquele território.
A questão da falta d’água é uma marca da região Nordeste, em especial nas zonas influenciadas pela semiaridez, com isso, os conflitos socioeconômicos em torno da água só tendem a aumentar. O açude de Boqueirão é de extrema importância geopolítica para o agreste paraibano, em especial para as microrregiões do cariri oriental e para a região de Campina Grande. O açude de Boqueirão encontra-se numa área próxima ao perímetro urbano, o que contribui e influencia na economia do lugar, baseada na agricultura.
O autor apresentou situações e instrumentos usados para minimizar o problema, como a intervenção do Ministério Público da Paraíba acionado pela Secretaria Extraordinária do Meio Ambiente, dos Recursos Hídricos e Minerais para proibir as práticas de irrigação, um dos principais causadores da escassez da água naquela região. A partir de então, iniciou-se uma serie de fiscalizações.   

Durante os períodos de estiagem existe um forte tensão local pelo acesso a água para a realização de diversas atividades além das comerciais. As estiagens prolongadas ocasionam os conflitos pelo uso da água gerando vários problemas de ordem social e econômica para toda região abastecida por este reservatório. Desse modo, o autor acredita que é preciso uma atuação efetiva e constante dos usuários nas discussões que envolvem a bacia, para alcançar soluções efetivas para pôr fim às situações de conflitos pelo uso da água.

Links de acesso ao trabalho na integra:
ou

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Da Discórdia ao Discordianismo

Fonte da imagem: http://www.recantodasletras.com.br/prosapoetica/4381738.

Texto: Belarmino Mariano Neto


Diante de instâncias paradoxais, contraditórias e complexas, temos as marcas da discórdia perpassando quase tudo o que os seres humanos produzem na sua perspectiva de espaço-tempo. A cultura humana é permeada por elementos contraditórios, por situações polêmicas e conflitantes. Mas a grande questão é sabermos qual a origem da discórdia humana?
Podemos começar pensando o discordianismo na perspectiva mitológica, isso para encontrarmos uma ideia de deidade ou divindade da discórdia. Essa divindade é de sexualidade feminina. Éris - Uma das divindades primordiais, filha de Nix (a Noite). 

Fonte da imagem: Éris a Deusa da Discórdia - www.fazfacil.com.br

Em outras versões, é mencionada como filha ou irmã de Ares, o deus da guerra. Acompanhava-o aos campos de batalha, disseminando ódio entre os combatentes. Nix era Filha de Caos, um espaço aberto, matéria rude e informe, à espera de ser organizada, princípio de todas as coisas. Nesse espaço surgiu a Terra (Gaia). Nix gerou uma infinidade de deuses como Nêmesis (a Vingança), Momo (o Sarcasmo), Tánatos (a Morte), Hypnos (o Sono), Éris (a Discórdia). Nix envolvia o Caos como uma sólida casca, dando-lhe o aspecto de um ovo. No interior desse ovo gigantesco originou-se o primeiro ser: Fanes (a Luz). Este ser, unindo-se a Nix, engendrou o Céu e o próprio pai dos deuses. Segundo outra corrente da cosmogonia órfica, Nix não formava uma casca. Era uma ave negra de enormes asas. Fecundada pelo vento, pôs um ovo de prata no seio da Escuridão. Desse ovo saiu Eros, o Amor Universal.



Fonte da imagem: pt.wikipedia.org - Nyx, deusa da noite (William-Adolphe Bouguereau - La Nuit (1883).

Assim temos uma poesia para Nyx - "Eu vôo pela Noite e encanto os céus. Tudo absolutamente tudo nasceu de Meu Útero Tudo me pertence. E Tudo volta a minha Escuridão". Se Éris é filha de Nyx e pode ser considerada como a divindade da discórdia, assim poderíamos até admitir a existência de um primitivismo religioso pautado na adoração de Éris. Não podemos afirmar que a deusa tivesse seus adoradores de plantão, mas é importante considerar que o próprio sentido da palavra reforçada pelo principio do caos, do conflito ou da guerra (Ares), como filho legítimo de Zeus e Hera, temos nesse caldo divino da cultura grega a essência para o discordianismo filosófico e teológico. Conta o mito que Ares revestido de couraça e capacete e armado de escudo, lança e espada, acompanhava-se de Deimos (o Medo) e Fobos (o Terror), seus filhos com Éris. Zeus era filho de Cronos com Réia e seu pai devora todos os filhos. Cronos - O mais jovem dos Titãs, filhos da Terra e do Céu. A pedido de sua mãe, mutilou o pai e ocupou seu lugar no trono do universo. Esposou sua irmã Réia e teve alguns daqueles que se tornariam os principais deuses olímpicos.

Fonte da imagem: uma tela de Goya - www.historianet.com.br

Assim como Éris, Nix gerou também a Morte que para os gregos era um gênio masculino alado que, entre os gregos, personificava a morte. Era filho de Nix (a Noite) e irmão gêmeo de Hipnos (o Sono). Entre os romanos a Morte era uma deusa, Mors, ou mais freqüentemente, uma pura abstração personificada. Se a morte pode ser irmã de Éris, divindade da discórdia, estamos diante da grande dicotomia da mística Grega e até certo ponto ocidental. Vida e morte elementos por essência discordantes mas complementares e que alimentam todos os princípios religiosos. A vida para a morte enquanto a possibilidade de uma outra vida.

Fonte da imagem: robertacarrilho-div.blogspot.com - Olivier Valsecchi

O Discordianismo é a 'base de todas as religiões'. Uma visão geográfica do Espaço Geográfico no qual podemos perceber o limite cultural de uma experiência religiosa, seus princípios e relações fechadas em relação aos outros experimentos culturais. O Discordianismo religioso acontece na zona de contato entre duas culturas ou mesmo na base de compreensão cultural de dois ou mais pensadores e propositores de linha de ligação (religare) entre o humano e a não explicação dos enigmas ou mistérios da natureza envolvente. Em especial no que tange a visão expansiva do que sai do alcance da mente humana. Quando há um ponto de divergência entre dois ou mais filósofos, místicos ou lideres de um grupo social básico para o desenho religioso nascente. 
Fonte da imagem: Mito da criação - rsguimaraes.wordpress.com

O que apresentamos se confirma em todas as grandes correntes religiosas ou filosóficas, sejam do ocidente ou do oriente. Mas quando observamos os guetos de formação de uma seita e dessa para um espaço de ampliação e até massificação dos contatos intergrupos o discordianismo vai se estabelecendo. A religião ganha sentido no processo de validação dos pares, mas e principalmente no processo arranjado pela discórdia de pontos de vistas, rituais e dogmas da religião oposta e/ou diferente da que se apresenta. 

O pensamento, o sentimento e a vontade são o trivium para o estabelecimento de uma religião. É na reflexão e na prática de contato entre estes três elementos que se constrói uma unidade religiosa. O mais interessante nesse processo é o fato de que na individualidade, sempre existem pontos discordantes de cada fiel em um todo religioso. Seja em relação a um rito, a um símbolo, a um perfil teórico da base teológica ou até mesmos dos representantes diretos do modelo no qual o individuo se insere.

Nesse sentido o discordianismo tende a ser o elemento chave para na sua ampliação ser gerada uma nova experiência de caráter religioso. Vejamos o caso do cristianismo em sua esfera primitiva com encaminhamentos dos essênios para uma ruptura de alguns valores e dogmas do judaísmo da antiguidade. Estes foram os pilares para uma nova mensagem de fé que demarcou o espaço geográfico do Oriente Médio na Antiguidade.

Com a adoção do cristianismo pelos romanos e seu reconhecimento oficial, são estabelecidos os concílios e todo um jogo de regras e disputas de poder na organização hierárquica da Igreja Católica Apostólica Romana. Nesse processo e com um viés espacial demarcado em Roma e em Constantinopla, tivemos elementos discordantes e até mesmo de isolamento cultural que terminaram por provocar uma forte dicotomia no cristianismo católico (ortodoxia e romanismo cristão). 

Fonte da imagem: www.lordofthecraft.net

É importante ressaltar que o discordianismo pode se estruturar a partir de muitos fatores, mas, o elemento cultural perpassado pelo pensamento, sentimento e vontade delimitados pelo indivíduo e ampliados para demais indivíduos de um grupo religioso, representa o "cimento" de um novo perfil religioso e conseqüentemente a possibilidade de alimentação do discordianismo em sua base. Nessa seqüência e com grandes transformações socioeconômicas, políticas e culturais vividas pela Europa no seu processo histórico de modernidade, fizeram com que o romanismo cristão (cristianismo apostólico romano) sofresse um violento processo discordante em sua base, isso provocou importantes desalinhos na unidade cristã da Europa. O perfil inicial do protestantismo tem suas bases no discordianismo do oficio religioso e hierárquico da estrutura de poder do Vaticano e conseqüentemente na cisão efetiva da base religiosa. Isso gerou cristianismos: luterano, anglicano, dominicano, etc. O principal comprovante da amalgama do discordianismo religioso.

Não podemos afirmar que o discordianismo sirva de base enquanto construção religiosa efetiva, mas enquanto busca de um desenho divino que se aproxime o máximo possível do desenho cultural que cada grupo apresenta em sua história. Esse é um processo de sofrimento religioso que se estabelece principalmente em grandes sistemas religiosos que tendem a impor seu modelo, ou que fecham algumas passagens do pensar e sentir dos seres que tentam seguir o modelo. Isso atravessa de cheio o princípio da vontade, atingindo a essência do humano que se constrói na liberdade individuada em si. O preso pensar, o preso sentir e o preso agir são os alimentadores do discordianismo religioso. 

A Religião que não perceber a importância da flexibilidade, tende a alimentar em seus fies uma divindade da discórdia. Esse Deus da discórdia pode até ser lido como uma figura do mal que atrapalha o fiel em seu caminho, mais em muitos caso, o Deus da discórdia acaba alimentando a criação de novas divindades e/ou a (re) dimensão da base religiosa existente. Quando os princípios religiosos de um grupo social se dão de forma politeísta, o discordianismo em essência já se encontra manifestado naqueles que tentam atrair alguém para sua seqüência ritual. Mas no caso do monoteísmo, o discordianismo religioso pode ser um processo lento e gradual que só estabelece rupturas bruscas quando elementos diversos da sociedade convergem para a quebra de valores que engendra a sociedade como um todo."

Belarmino Mariano Neto é professor da UEPB.
Contatos: belogeo@yahoo.com.br
A base mitológica desse artigo se encontra no site: 
http://www.filonet.pro.br/mitologia/eris.htm 
http://eventosmitologiagrega.blogspot.com.br/2010/08/mito-eris.html
https://discordianismo.wordpress.com/2010/12/23/o-mito-da-maca-da-discordia/
www.houseofnight.com.br
http://robertacarrilho-div.blogspot.com.br/2013/10/ensaio-criativo-mostra-pessoas-banhadas.htmlhttp://essencialismo.blogs.sapo.pt/
rsguimaraes.wordpress.com
 www.historianet.com.br
www.fazfacil.com.br
witchclubhouse.blogspot.com
www.lordofthecraft.net

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