Responsável pelo Observatório do Agreste

Minha foto
Guarabira, Nordeste/Paraíba, Brazil
Professor Dr. da UEPB/CH

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Agassiz Almeida: Linduarte Noronha, o pioneiro do Cinema Novo.

Por:      Danielle da Rocha Cruz
Professora da UFCG e pesquisadora do Centro de Referência dos Direitos Humanos do Agreste da Paraíba. Autora de várias obras jurídicas.

Lá pelos fins da década de 1950, quando juntos, Linduarte e eu, cursamos a Faculdade de Direito da Paraíba, num entardecer de um sábado, em João Pessoa, algo iria nortear ideologicamente a nossa visão do mundo: uma conferência do revolucionário educador Paulo Freire. A partir daquele encontro começamos a olhar e compreender a sociedade invisível, aquela que pulula nos subterrâneos dos estratos sociais e cujos gritos e dores são abafados.

Com Linduarte, eu convivi por longos anos, desde os bancos acadêmicos até as cátedras universitárias, quando fomos atingidos pelo Golpe Militar de 64.  Quantas vezes, e foram muitas, ele ia estudar na minha casa à rua das Trincheiras, em João Pessoa, onde eu morava com a família.   Já naquela época, ele era possuidor de uma forte convicção marxista.

Na avidez de conhecermos o mundo dos grandes pensadores, como Marcuse, Marx, Lênin, Gramsci, Lukàcs, Althusser, Paulo Freire, Adorno, Euclides da Cunha, nos fizemos ausentes de aulas na faculdade. Ecos das palavras indignadas de Voltaire, Victor Hugo, Castro Alves, Pablo Neruda e Garcia Lorca chegavam até nós.

Ao escrever esta matéria, contemplo numa distância de mais de meio século aquele personagem  com quem comunguei pensamentos e ideais que nos   embalaram na arte e na política.

Linduarte Noronha marcou um destino. Com  ingentes  esforços e desafiadora determinação, ele retratou  a multidão dos condenados da vida.

Que ruidosos momentos a nossa geração viveu!

Paremos por um instante diante  daquele vulto cuja vida nos legou uma história de insubmissão  aos poderosos e  soube construir uma arte criativa face aos oportunistas de todo o jaez. Documentou os desencontrados de uma  sociedade egoísta. Deixou-nos esta flama.   Tudo nele irradiava uma aura criadora, um não sei quê  de indefinido e místico no seu porte introspectivo.

No fundo das obras precursoras ou nas ações revolucionárias, lá onde elas plantam as suas raízes, encontramos sempre uma razão de rebeldia contra o status quo.

O que nos ligou, a mim e a Linduarte Noronha, foi um sentimento de inquietude, de paixão, a romper o que as forças dirigentes da sociedade queriam nos impor como cultura dominante.

Que época de apaixonada embriaguez! Queríamos empurrar o carrilhão da humanidade para novos tempos e desafiar uma arte encastelada numa estética  por meio da qual se visava apenas satisfazer o gozo de uma  literatice  balofa.

Onde se fez revolucionaria a obra deste cineasta do inconformismo? Rompeu com uma cultura atrelada aos balcões das bilheterias.

O Golpe Militar de 64 nos lançou numa opressiva incerteza, fazendo-nos cúmplices de comuns pensamentos.

Sob uma mesma visão ideológica, olhamos os excluídos do mundo. Ele, pelas lentes da  arte cênica, eu, pelo eco das palavras. Ele, trazendo para si, silenciosamente, a dor dos desamparados que retratava, eu,  desferindo em gritos a condenação aos espoliadores dos camponeses.  A Ditadura Militar nos  arrancou violentamente da universidade. O curta- metragem Aruanda, precursor do cinema novo, revolucionou a cinematografia no país. O  futuro de um Brasil brasileiro ,que abraçamos, tombou sob as botas do militarismo. Eu olhava com melancolia  a  raça negra da serra do Talhado,  projetada em Aruanda,  a terra da promissão, ele sabia ouvir  os gritos dos camponeses esmagados no eito da cana de açúcar.

Certa vez, mostrei a Linduarte um bilhete que Pedro Fazendeiro, morto e desaparecido pela Ditadura Militar, recebeu de um sicário do latifúndio:     Desligue-se das Ligas Camponesas ou você terá o mesmo destino de  João Pedro Teixeira. Ele me olhou e disse:  Que elite covarde esta do Brasil.

Tínhamos a impulsionar os nossos ideais  forças  vivas sob o pálio de uma  chama que  nos fazia  indignados  ante  as  injustiças. Assim, aconteça o que acontecer somos filhos daquele momento histórico da geração de 60.

Que personagem era aquele? Passos lentos, olhar introspectivo, voz mansa quase pedindo desculpas aos interlocutores, alma aberta  às grandes sensibilidades.

Quando lhe relatava, lá pelos fins da década de 1950, as minhas lutas contra o  implacável coronelismo enquistado na região de Cabaceiras e em outras desafiadoras contendas,sobretudo na  organização  das Ligas Camponesas  contra a opressão do latifúndio, ele me ouvia com  inebriez sacerdotal. Então, me perguntava sobre os quilombolas de Boa-Vista, Cabaceiras e Congo. Queria se informar das condições de vida destas comunidades negras.

Um sentimento comum de indignação nos unia.

Num certo dia do ano de 1957, Linduarte me falou emocionado de sua viagem à serra do Talhado, em Santa Luzia do Sabugi, onde conheceu o quilombo “Olho d’Água”, situado às bordas do planalto da Borborema, a cerca de 20 quilômetros da cidade,  e das oleiras, mulheres que trabalhavam artesanalmente  com peças de cerâmica . Tudo ali, para nós, se apresentava numa extraordinária visão, envolvendo  num espanto que nos fazia mergulhar no imponderável. Por horas e horas, Linduarte me relatava a saga da comunidade negra, que chegou  naquela serra tangida  pelas infames condições de vida nos engenhos de açúcar e nos latifúndios da zona da mata no Nordeste.

Após conhecermos a história daquela comunidade, isolada no meio da serra do Talhado, começamos a compreender a formação de dezenas e dezenas de quilombolas. Num dado momento, Linduarte meio trêmulo de emoção, pega-me  pelo braço e solta estas palavras: “Vou documentar  aquele cenário humano”.

Ali começavam a surgir os primeiros lampejos de Aruanda, a obra que abriu uma nova visão à cinematografia no Brasil.

A partir daquela hora, o criador de Aruanda  vestia a sua  criação de forte ideologia para os embates do mundo.     Parecia que toda a história da raça africana, desde os confins das terras escravizadas, penetrava em sua mente. Repetia obsessivamente esta idéia: Preciso retratar aquela comunidade, preciso.... preciso. Seus olhos embriagavam-se de luz, e um estado de êxtase o envolvia.

Não era o destino das individualidades que Linduarte contemplava. Não! Ele mergulhava na essência da própria condição humana. Buscava encontrar o ritmo da história dos agrupamentos humanos  a se debater  ante as injustiças   sociais.  Assim ele olhou o quilombo do Olho d’Água do Talhado.

Euclides da Cunha imortalizou a resistência de Canudos; Linduarte  Noronha retratou o grito surdo dos condenados do  Talhado.



NOTA



         Com a publicação desta matéria da lavra do escritor Agassiz Almeida, ex-deputado federal constituinte de 1988 e autor de obras consagradas no país, homenageamos Linduarte Noronha, o cineasta pioneiro do Cinema Novo, morto em 30 de janeiro de 2012.

         Egressos estes personagens da geração de 1960, Linduarte Noronha na arte cinematográfica e Agassiz Almeida nos embates contra os feudos do coronelismo e do latifúndio,  eles deixaram um legado que marcou a recente história do país com obras renovadoras e ações  reformistas



                                               Danielle da Rocha Cruz

                                  Professora da UFCG e pesquisadora do Centro de Referência dos  Direitos Humanos do Agreste da Paraíba.  Autora de várias obras jurídicas.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

A UEPB que me acolheu

Por Ana Cristina Santos é jornalista
Queridos, me peguei divagando sobre a experiência única que foi a UEPB em minha vida e escrevi esse texto tentando acalmar a vontade de estar travando mais essa batalha, agora no comitê em defesa da nossa universidade autônoma. Compartilho com vcs. Grande beijo. Aninha.
Luz para a terra e para os homens

Posso dizer, sem medo de exagero, que realmente descobri o mundo no dia em que pisei na UEPB. Era uma menina lá do fim do mundo que arriscou demais e deu sorte. Cheia de estigmas, de medo, de preconceitos enraizados. Esperando assustada numa fila de matrícula, coração aos pulos, vendo a hora que alguém diria: você se enganou, seu lugar não é aqui.
Nunca aconteceu. A uepb me acolheu, me descobriu, me incentivou. Entre uma aula e outra descobri a lauda e a democracia, o lead e a revolução. Pintei as paredes da faculdade, fiz pedágio para consertar o telhado, distribui panfletos e entendi que precisava mais.
A foto do Vlado* assassinado colada na parede do Centro Acadêmico, o filme do Lamarca, o gosto amargo na boca ao me dar conta das atrocidades cometidas pelo meu país, o sangue pulsando forte me dizendo: que jamais se repita!
A amizade, a solidariedade, a música e a alegria de fazer parte de um sonho de futuro também são lembranças quase palpáveis que guardo em mim. Na UEPB a moleca, negrinha, pobrezinha, feinha e incapaz se percebeu uma mulher, negra, cidadã, com consciência de classe, um horizonte de descobertas diante dos olhos e uma vontade avassaladora de transformar. 
A luta por uma Universidade Pública, Gratuita e de Qualidade nunca foi para uma utopia. Foi construção; passo-a-passo em reuniões intermináveis, em passeatas frustradas, nas grandes e pequenas manifestações, nos congressos estudantis, nas cirandas, nas palestras, greves, acampamentos e nas viagens intermináveis com mais coragem do que planos... 
Refazendo o DCE; Pro que der e vier; Matar essa história é crime; Muda UEPB! Tantos slogans, campanhas, choros, risadas, discursos, discussões... Era a gente se organizando para desorganizar. Tudo isso está tatuado em minha alma e numa história coletiva de luta e conquista. 
Um processo que não começou comigo e que não terminou em mim. As bandeiras históricas de acesso e permanência, de inclusão social, de derrubada dos muros de uma universidade cada vez maior, mais ampla e mais identificada com seu povo foram levadas por outros personagens, e eu tenho orgulho de, olhando os documentos de uma década atrás, dizer que a UEPB foi mais longe do que propúnhamos, do que imaginávamos no início dos anos 2000. E, que beleza,  continua avançando!
A política instituída a partir da conquista da autonomia abriu um horizonte de possibilidades inesgotáveis, levou a universidade para além das fronteiras dos presídios, libertou mentes e corações nos recantos mais isolados, foi combustível para um desenvolvimento técnico e intelectual jamais visto no estado da Paraíba. 
Aquele homem, aquela mulher, de mãos calejadas e aparência humilde que com seus impostos pagaram a minha faculdade hoje podem entrar em qualquer um dos seus campi com a intimidade de quem entra em sua casa. Dizem com orgulho: essa Universidade é minha, eu ajudo a construir!
Essa identidade do povo paraibano com sua universidade não se apaga, é soberana, não se submete ao equívoco de governo algum. Assim como não se apaga a esperança que se acendeu em meu peito ao ver a assinatura do diretor naquela ficha de matrícula. Era real. É real.
A UEPB é do povo paraibano. Lutaremos por ela até que se dissipem todas as trevas da ignorância e da mediocridade. Terrae Viroque Lumen.

Ana Cristina Santos é jornalista , e comunista, graças à UEPB e ao povo paraibano. Foi presidente e coordenadora-geral do DCE UEPB entre 2002 e 2004

A UEPB QUE ME ACOLHEU

Por:  Ana Cristina Santos (Jornalista)
Queridos, me peguei divagando sobre a experiência única que foi a UEPB em minha vida e escrevi esse texto tentando acalmar a vontade de estar travando mais essa batalha, agora no comitê em defesa da nossa universidade autônoma. Compartilho com vcs. Grande beijo. Aninha.
Luz para a terra e para os homens

Posso dizer, sem medo de exagero, que realmente descobri o mundo no dia em que pisei na UEPB. Era uma menina lá do fim do mundo que arriscou demais e deu sorte. Cheia de estigmas, de medo, de preconceitos enraizados. Esperando assustada numa fila de matrícula, coração aos pulos, vendo a hora que alguém diria: você se enganou, seu lugar não é aqui.
Nunca aconteceu. A uepb me acolheu, me descobriu, me incentivou. Entre uma aula e outra descobri a lauda e a democracia, o lead e a revolução. Pintei as paredes da faculdade, fiz pedágio para consertar o telhado, distribui panfletos e entendi que precisava mais.
A foto do Vlado* assassinado colada na parede do Centro Acadêmico, o filme do Lamarca, o gosto amargo na boca ao me dar conta das atrocidades cometidas pelo meu país, o sangue pulsando forte me dizendo: que jamais se repita!
A amizade, a solidariedade, a música e a alegria de fazer parte de um sonho de futuro também são lembranças quase palpáveis que guardo em mim. Na UEPB a moleca, negrinha, pobrezinha, feinha e incapaz se percebeu uma mulher, negra, cidadã, com consciência de classe, um horizonte de descobertas diante dos olhos e uma vontade avassaladora de transformar. 
A luta por uma Universidade Pública, Gratuita e de Qualidade nunca foi para uma utopia. Foi construção; passo-a-passo em reuniões intermináveis, em passeatas frustradas, nas grandes e pequenas manifestações, nos congressos estudantis, nas cirandas, nas palestras, greves, acampamentos e nas viagens intermináveis com mais coragem do que planos... 
Refazendo o DCE; Pro que der e vier; Matar essa história é crime; Muda UEPB! Tantos slogans, campanhas, choros, risadas, discursos, discussões... Era a gente se organizando para desorganizar. Tudo isso está tatuado em minha alma e numa história coletiva de luta e conquista. 
Um processo que não começou comigo e que não terminou em mim. As bandeiras históricas de acesso e permanência, de inclusão social, de derrubada dos muros de uma universidade cada vez maior, mais ampla e mais identificada com seu povo foram levadas por outros personagens, e eu tenho orgulho de, olhando os documentos de uma década atrás, dizer que a UEPB foi mais longe do que propúnhamos, do que imaginávamos no início dos anos 2000. E, que beleza,  continua avançando!
A política instituída a partir da conquista da autonomia abriu um horizonte de possibilidades inesgotáveis, levou a universidade para além das fronteiras dos presídios, libertou mentes e corações nos recantos mais isolados, foi combustível para um desenvolvimento técnico e intelectual jamais visto no estado da Paraíba. 
Aquele homem, aquela mulher, de mãos calejadas e aparência humilde que com seus impostos pagaram a minha faculdade hoje podem entrar em qualquer um dos seus campi com a intimidade de quem entra em sua casa. Dizem com orgulho: essa Universidade é minha, eu ajudo a construir!
Essa identidade do povo paraibano com sua universidade não se apaga, é soberana, não se submete ao equívoco de governo algum. Assim como não se apaga a esperança que se acendeu em meu peito ao ver a assinatura do diretor naquela ficha de matrícula. Era real. É real.
A UEPB é do povo paraibano. Lutaremos por ela até que se dissipem todas as trevas da ignorância e da mediocridade. Terrae Viroque Lumen.
Ana Cristina Santos é jornalista , e comunista, graças à UEPB e ao povo paraibano. Foi presidente e coordenadora-geral do DCE UEPB entre 2002 e 2004

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Política em novos moldes

Por> Bruna Borges, para a Página 22
Marina_Silva 300
Marina_Silva 300
Nas últimas eleições para presidência, a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva recebeu 20% dos votos mesmo pertencendo a um pequeno partido em comparação a seus concorrentes. Para o filósofo político da Universidade de São Paulo (USP) Renato Janine Ribeiro, este resultado é um indício de que a sociedade brasileira anseia por mudanças mesmo que parte dela discorde das ideias da líder verde.Marina, que se desligou do Partido Verde em julho deste ano, agora encabeça um grupo que se diz cansado da política praticada em Brasília e propõe sua reinvenção. Seus membros querem mais ética, transparência e participação da população nas decisões do poder com discussão horizontal. O grupo é chamado de Movimento Por Uma Nova Política. Eles se reúnem e discutem novas formas de fazer política, mas ainda há poucas pautas definidas.
“No começo as mudanças são apenas desvios, precisamos observar o que deve prosperar. Eu não quero que prospere o desvio dos jovens enfurecidos para consumir em Londres, nem que quando alguém chega ao poder as minorias sejam massacradas. Eu quero que prospere aquilo que eu acho que seja melhor para humanidade”, discursou a ex-ministra em um dos encontros do grupo em novembro. O movimento segue em discussão por mais definições de qual será sua identidade e seus meios de ação.
O movimento ao qual a senhora pertence propõe reinvenção do jogo de poder. Qual seu diagnóstico sobre a política brasileira?
A qualidade de nossa representação se degradou muito. Tivemos avanços históricos na questão social, mas tudo está ameaçado por uma política que está na Pré-história, cujo poder se acaba em si mesmo. Quem resumiu da melhor forma foi o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso que diz que “os partidos ficam coligando com todo mundo para ver quem vai liderar o atraso”. E os partidos acabam governando de forma fragmentada as partes do país que têm mais influência.
A política está em crise. Nós temos vivido em um mundo com múltiplas crises. Há uma econômica, uma social, uma ambiental, uma política e uma de valores. Parece que nós chegamos àquilo que na psicanálise se chama Princípio do Absurdo, que é quando se tem algo que extrapola seu próprio limite e começa a produzir o contrário a si mesmo. Entre essas crises as mais graves são a ambiental e a de valores, que está na base de todas as outras. O sistema de valores foi por um caminho de ética de conveniência que é letal para humanidade. As pessoas parecem que não conseguem perceber que em nome de lucros de apenas algumas décadas são comprometidos os recursos de milhares de anos. Assim, sacrificamos a economia do planeta e a própria condição humana. Se nós temos dois milhões de seres humanos que vivem com até dois dólares por dia é como sacrificar a dignidade da condição humana.
E a política é o meio de mediar os diferentes interesses e conflitos. Só que ela foi para um processo de acomodação, estabelecendo uma forma de defesa do establishment e não consegue perceber outras visões, processos e estruturas para si mesma. As costuras, as alianças e os discursos se mostram junto com as incoerências de defender uma coisa e depois falar ou fazer outra. É só ver agora, a presidente Dilma se comprometeu no 2º turno a não sancionar nenhum projeto que significasse anistia para desmatadores. E, no entanto, não moveu uma palha para que sua base no governo evitasse que as mudanças do Código Florestal não fossem aprovadas nas instâncias do governo. Ou seja, as pessoas, com a mesma facilidade com que fazem a promessa, desvencilham-se dela para assumir os verdadeiros interesses.
E qual o efeito disso na sociedade?
Essa visão antiga da política de manutenção do poder pelo poder e administração pelo sucesso está fazendo com que boa parte das pessoas se descolem disso e se juntem para questionar essa forma estagnada. E, assim, para se sentirem mais fortes, deve-se buscar uma nova agenda com novas prioridades. As pessoas que estão na borda não querem mais ser espectadoras da política e só receber aquilo que os políticos estabelecem que vão fazer para eles e não com eles. As pessoas agora querem ser protagonistas.
E por isso foi criado o Movimento Por Uma Nova Política?
O movimento está no começo. O movimento está neste estágio de convocação e debate para nos convencer e ser convencidos por outros olhares, outros grupos. E de fato realizar uma escuta interessada do que está sendo dito. Não é para pensar que vamos juntar essas forças políticas para gerar um partido para próxima eleição. Isso já é uma diferença. Qualquer força política que acaba de sair das urnas com quase 20 milhões de votos pensaria “o que devo fazer a partir disso?” Se eu pensasse que é só criar um partido para participar das eleições em 2012 e 2014 não seria novo, é uma ação da velha política.
Afinal, o que seria uma nova visão para política? Como diz Edgar Morin: “no início as mudanças são apenas pequenos desvios. E é preciso ficar atento para avaliar quais deles a gente quer que prospere.” Se o que estamos fazendo é a melhor ou a pior resposta, aprenderemos no caminho. No meu entendimento, [com o movimento] a política terá uma força muito grande de se alimentar de ideais e sonhos e da leitura dos processos históricos vivenciados.
Mas a descrença de que a política possa ser feita com ética aumentou. Como convencer as pessoas a participarem?
É importante traduzir tudo isto na força do exemplo. A liderança pelo exemplo será cada vez mais demandada para expor o que pensa e age, só assim poderá ser identificado se aquilo que se diz é aquilo que se vive. Cada vez menos as pessoas vão levar a idéia “faça o que eu digo, mas não faça o que faço”. Um dos grandes desafios que nós temos é melhorar a qualidade de nossa representação. Também é preciso fazer um esforço enorme para aperfeiçoar o sistema educacional e cultural da população.
O movimento defende a discussão horizontal. Como deliberar desta forma com o mínimo de hierarquia?
A dificuldade de pensar algo que não tem fórmulas existe e é muito grande. Mas é aí que consiste a maior riqueza do movimento. Eu não tenho nenhuma ansiedade tóxica que nós vamos dar a resposta a priori. Vamos encontrar a resposta no processo. E ter uma organização que esteja estruturada e ao mesmo tempo se basear no sistema horizontal quando não se faz as coisas para as pessoas, mas com as pessoas. É um desafio. Mas quem foi que disse que os desafios não são constitutivos das alternativas?
Eu acho que a riqueza é exatamente do ponto de vista da linguagem, estrutura e visão em contraposição as dos partidos que são verticalizadas com a ideia de centralismo democrático. O problema é que essas instâncias se burocratizaram. Viraram empresas do poder pelo poder e quem está no comando dessas empresas partidárias, não abre espaço para oxigenação dos núcleos vivos da sociedade. É por isso que gostaríamos de experimentar a ideia das candidaturas avulsas que já existem em outros países. Também podemos experimentar alguma forma mais oxigenada de competição com os próprios partidos políticos para ver se eles também se oxigenam, porque eles não têm concorrentes.
E qual o papel das tecnologias para esses agentes políticos que estão fora do governo?
Graças à internet o que está acontecendo é um estágio muito particular e sui generisda democracia, que eu estou chamando democracia prospectiva. Antes as pessoas só tinham os partidos, o governo, as ONGs e os sindicatos para prospectar os aplicativos da democracia. Com o advento da internet e as possibilidades de se fazer circular suas opiniões, ideias e conhecimentos, surgem novos aplicativos para democracia no mundo todo.
Um exemplo disso é o que acontece no Chile. Lá os jovens estão prospectando novos modelos para discutir o que está sendo imposto no sistema de ensino. Também os jovens da Espanha que não querem viver sem a esperança de emprego. E talvez um dos aplicativos mais interessantes e dos mais antigos é esse das pessoas se juntarem e se sentirem mais fortes. Eu acho que o caminho é de nos tornarmos cada vez mais colaborativos. Estamos juntos no processo mesmo com diferenças, mas reunidos baseados em princípios.
É possível prever um pouco como será essa forma de Nova Política?
Uma fórmula da Nova Política, isso não se tem. Aliás, a ideia de não ter fórmulas já é nova. E nada é totalmente novo. Nós vamos examinar nossas experiências e cumulativamente estabelecer novas conquistas.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Marlene Alves é Cidadã Campinense

Texto de Simão Almeida
Não tem quem tire!
Posted on 24 24UTC novembro 24UTC 2011 


Campina Grande assistiu a um Ato Político extraordinário: A concessão do Título de Cidadã Campinense à Reitora da UEPB (Universidade Estadual da Paraíba), nossa assumida e declarada camarada Marlene Alves.
As dependências da Câmara de Vereadores nunca tinham visto tanta gente nos seus sete anos de mandato, afirmou o Presidente da casa, Vereador Nelson Gomes Filho.  O auditório – em outras casas legislativas chamam de galeria – com capacidade para aproximadamente 300 pessoas estava completamente lotado nas cadeiras e nos espaços, que as pessoas ocupavam de pé. Uma sala lateral acolhia mais de cinquenta pessoas que a todo tempo se revezavam, entrando e saindo.


Todas as pessoas esperavam ansiosas o início da sessão, via-se no tom baixo das conversas que explodiram em aplausos – por três vezes de pé – à fala da homenageada.  Nesses trinta anos de sua reorganização, o PCdoB da Paraíba jamais protagonizou um ato político de tamanha envergadura!
Porém, não foi apenas a quantidade. A representatividade política e social foi outro fator exponencial.  A maioria dos Vereadores estava presente; O Bispo de Campina Grande Dom Jaime Vieira Rocha lá esteve e fez questão de falar na sessão; o representante do Prefeito de Campina Grande Veneziano Vital; a mãe do senador Cássio Cunha Lima, Dona Glorinha; o reitor da Universidade Federal de Campina Grande, Thompson Mariz; representante da  Guarnição Militar; os ex-Secretários de Educação do Estado, Neroaldo Pontes e Sales Gaudêncio; o presidente estadual do PCdoB Cristiano Zenaide e uma comissão de dirigentes partidários; representantes de vários partidos políticos; e os militantes do PCdoB de Campina Grande também compareceram contagiando a todos e todas com seu entusiasmo.


O discurso de Marlene foi uma peça! Fez as homenagens iniciais e o ponto de partida foi o camarada Benjamim Pereira, uma espécie de decano do PCdoB na UEPB. Lembrou a infância em Itaporanga e a saga da adolescente que arribou do Sertão para a cidade, para poder continuar os estudos, para ser alguém na vida, lá pelos idos de 1979.
Falou da verdadeira epopeia quando à frente da Associação de Docentes teve até que – literalmente – correr atrás de governador para fazer chegar e valer as reivindicações dos professores e professoras seus colegas. Foi comedida. Não entrou nos detalhes de narrar o que talvez tenha sido a “via crucis” sua e da comunidade acadêmica da UEPB, mas que, com certeza, foi o elo para a mais significativa e histórica conquista da UEPB: sua autonomia financeira, consagrada em lei do Estado da Paraíba.


E não deixou por menos, como algumas vezes alguns esquecem. Proclamou alto e bom som, palavra por palavra, letra por letra, a importância do seu aprendizado na escola do P-a-r-t-i-d-o   C-o-m-u-n-i-s-t-a   d-o   B-r-a-s-i-l.
Encerrou com a mensagem de seu irmão mais velho – aquele que a gente escolhe como pai, quando este se vai, como a irmã mais velha vira nossa mãe. Alertou que talvez não contivesse as lágrimas. Balbuciou, mas as conteve. O que não conseguiram muitas pessoas no auditório. Ofereceram-lhe lenços de papel, mas ela não usou!


Marlene é assim. Falando ao auditório faz com a mesma simplicidade como se estivesse conversando com as pessoas. Mesmo abordando temas e assuntos sérios e até ríspidos, não esconde seu sorriso que parece que acorda com ela e nunca dorme. Ela consegue levar à prática da forma mais sincera, o lema de Che Guevara: “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamais”.
Na saída uma jovem disse-me ao ouvido: Essa Marlene é danada. Essa mulher vai ser prefeita de Campina e não tem quem tire!


________________________
Simão Almeida é engenheiro eletricista, formado pela Universidade Federal da Paraíba. Foi líder juvenil no Centro Estudantal Campinense. Por sua militância política precisou se exilar da Paraíba e assumiu nova identidade no Estado de Goiás, “voltando a ser Simão de Almeida Neto” somente depois da abertura política. Sindicalista, foi presidente da Associação dos Servidores da UFPB, onde aposentou-se como técnico-administrativo. Ajudou na reorganização do Partido na Paraíba, foi seu Presidente durante vários anos e Deputado Estadual pelo PCdoB entre 1991 e 1995. Atualmente é Secretario Estadual de Organização.


Comentários de Eli Brandão:


Caro Simão,
parabéns pela sua muito competente, lúcida e oportuna fala. Nela se revela a virtude da síntese que com menos palavras expande ao máximo os sentidos daquele grandioso evento de justíssima homenagem e acolhimento oficial da mais nova cidadã campinense, Marlene alves.
Em sua brevidade discursiva sobre a mais do que merecida honraria conferida a atual Reitora da UEPB, você seleciona aspectos simbólicos daquele histórico e marcante dia de festividade e esperança, bem como ressalta fatos, retirados do discurso da Magnífica, referentes à trajetória dessa grande liderança forjada na luta política e acadêmica, alimentada pelo sonho de uma grande Universidade e testada pela competência administrativa, ousadia, visão humanista, responsabilidade social, zelo pelo patrimônio público e rigor na ética.
Quando você se refere ao sorriso de Marlene, não há como não lembrar de um grande lutador pela causa social:

“Pouca coisa é necessária para transformar inteiramente uma vida: amor no coração e sorriso nos lábios.”
(Martin Luther King)

Ressalto, ainda, que, muito mais do um sorriso “fabricado”, comum a certas pessoas públicas, o riso de Marlene é revolucionário, pois contestando a realidade, às vezes, antagônica, insiste na “pureza da resposta das crianças, que a vida [pode ser] é bonita”. Quem conhece Marlene sabe que o seu sorriso é mesmo expressão da alegria de quem tem pureza de corção, sentimento bem tecido pelas palavras  de um dos maiores líderes da humanidade:

"Felicidade é quando o que você pensa, o que você diz e o que você faz estão em harmonia" (Mahatma Ghandi)

Quando o solo é fértil,
a semente é boa
e há agricultores dispostos
a plantar e regar,
a colheita é certa.

Vamos em frente!

Eli Brandão


Visitem o site e comentem as notícias.
http://campina65.wordpress.com/
-- 
Fraternalmente,


Eli Brandão

MDA disponibiliza 474 mil reais para Secretaria de Educação do Estado

O Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) disponibilizará recursos do PROINF (Programa de Infra-Estrutura e Serviços Territoriais) para que as secretarias estaduais de educação possam equipar melhor as cozinhas das escolas. O estado da Paraíba será contemplado com R$473,98 mil reais.
Os recursos serão destinados para compra de equipamentos como geladeira, freezer, fogão, panela e liquidificador para atender as escolas da rede pública estadual, localizadas nos Territórios Rurais. A prioridade para ter acesso ao recurso é dada para as escolas que já adquirem produtos da agricultura familiar, depois as escolas localizadas nos municípios que fazem parte dos territórios do Plano Brasil Sem Miséria, e em seguida as demais escolas dos Territórios Rurais.

O SAGRADO E O PROFANO DAS FESTAS DE PADROEIROS/AS NO TERRITÓRIO DA ARQUIDIOCESE DE GUARABIRA-PB


Érica Gomes da Costa Mariano (UEPB/CH – Aluna da Especialização em Geografia e Território) ericagcosta@yahoo.com.br
Belarmino Mariano Neto (Prof. Dr. UEPB/CH) belogeo@yahoo.com.br


                                                 Foto: Altar da Igreja de Pilões/PB, Érica Gomes, 2010
 RESUMO

A pesquisa em Geografia Cultural aponta para importantes caminhos de valorização da cultura e da identidade local a partir de valores e tradições construídas e percebidas pela sociedade em seu processo histórico. O objetivo com esta pesquisa é analisar a constituição territorial da arquidiocese de Guarabira/PB a partir das tradicionais festas de padroeiros/as, em que se emaranham o profano e o sagrado. A escolha por este estudo partiu do rico e secular patrimônio religioso da região, representado por uma forte influência do catolicismo, territorializado por fortes rituais de fé nos santos e/ou santas escolhidos/as como padroeiros locais. Ano após ano as procissões e festas fortalecem a cultura e a identidade que enlaçam as comunidades locais na perspectiva tanto do sagrado, quanto do profano.

Palavras-Chave: Sagrado, Católico, Profano