terça-feira, 28 de abril de 2015

Dos mapas mentais da solidão às cartografias do envelhecimento

Belarmino Mariano Neto

No frontal dos teus olhos uma penumbra, um rasgo de luz entre os cacos de vidro cor de bronze se espalham ao final da tarde e o por do sol escorre pelos manguezais do rio Sanhauá, até atingirem o horizonte dos tabuleiros litorâneos na direção ocidental de mais um dia oco que se alonga para os sertões, onde o sol ainda castiga em suas faíscas de luzeiro.
Antiquários envelhecidos arquitetam o olho do tempo, revestindo suas dependências de enigmas como se as soleiras do portal fossem amalgamas para uma ordem ou missão dos templários. Os antiquários são territórios do vivido, das memórias, das lembranças, dos esquecimentos e da senhora que pede passagem para o grande mestre que a todos consome.

Na mente envelhecida, mapas mentais em garatujas desalinham rotas tortuosas de lembranças incompletas, sem legendas claras, nem pontos de partidas. Ilegíveis aos viajantes neófitos. São memórias de fogo, memórias de águas, memórias de magoas e feridas abertas por pontas de arame em farpas. Marca já saradas, que cicatrizaram aquela pele em rugas.
Posso ver no oculto emaranhado da mente, aquela mulher sentada na soleira da porta de entrada do velho casarão desabitado. Uma construção do começo do século XIX, com varandas semiabertas, sustentadas por dez grossas colunas e oito grandes janelas de madeira maciça pintadas com um verde envelhecido e que emolduram a parede da frente do casarão.

Os seus envelhecidos pés são ao mesmo tempo suaves e sulcados de rugas. Descalços tocam o piso do terraço, um piso de um mosaico quadriculado em tons branco e vermelho muito desgastado. A porta também de madeira maciça se oculta na lateral do abandono e entreaberta representa um umbral com tons esverdeados e camadas descascadas de um azul interno, indicando sobreposição de uma pintura há muito tempo encoberta pelo verde sem vigor, muito mais fuligem, mofo e poeira, que a própria tinta.
Ela é a guardiã do templo e senhora do tempo. Uma mulher branca e manchada de sardas guarda em si o véu da virgindade sem macula. Foram exatos noventa e sete anos vividos, com os quais demarca o ritual de passagem pelo portal para adentrar o casarão dos seus próprios sonhos. Guarda que segredos? Esconde que mistérios? O que ainda Aguarda?

  
Pela nudez transparente e fino tecido de suas vestes, notei em seu corpo, uma gigantesca e enrugada tatuagem que representa a cartografia do desejo e as rotas da solidão. As linhas, as curvas e o sinuoso entrecruzado das mesmas, espalham-se pelos seus ombros, abdômen e costa, representando sentidos de subterrâneos sem começo, sem meio, nem fim.
Ela se encontra perdida em entre pensamentos e se sente jovem, se sente mulher em flor de idade, querendo em sede e brasa se derreter por entre os dias, por entre as estreitas e fascinantes sendas da navalha que corta a calma a alma e alegria. Se percebe em meio a cortinas do passado, por entre vidraças do desconhecido, sem saber ao certo do que pensa, do que sente, do que vive em seu distante mundo de tenra idade.
 

Ela se sente um pássaro em plumas humanas em sua nudez vestida de relvas. As linhas da tatuagem cartografada em seu corpo escorre por todos os lados das suas coxas, pernas, ombros e braços. Em tons multicoloridos, como se fossem imagens pintadas em rena indiana, marcam lembranças vivas das primaveras. A finura das linhas tatuadas na sua pele, disputa espaço com o fino tecido do tempo, indicando sentidos conexos, como se fossem garatujas de um passado recente. Escritos legíveis que aguçam o sentido da visão em um emaranhado de flores que rodopiam os picos dos seios ostentosos em outros cachos que escorrem pelos cabelos e escondem a crina dos seus cabelos até os ombros. 
Como se retornasse ao embaralhado dos seus pensamentos, a sua mente cambaleia para o passado distante e olhos perdidos ao longe indicam sentidos desconexos, como se fossem garatujas de um passado longiniano. Escritos inelegíveis, configurações divergentes e sem pontos de partidas, confundem o sentido da visão. Dos bicos dos seus seios, escorrem ideias de montanhas sulcadas e desgastadas pela erosão dos olhares de outrora e na couraça da sua pele, desnudam sinuosidades enrugadas que lembram rios intermitentes com intensa lixiviação.
A mulher em sardas esconde em seu dorso símbolos e enigmas de um mapa desenhando e legendado por códigos desconhecidos. Talvez representando uma língua morta ou traçados feitos para confundir os aventureiros, encantando-os para sempre em um cego tatear de estrelas que já não existem mais. Observando o mapa de sua pele, percebi a existência de trilhas apontando para recônditos lugares e vazios abismáticos.
  Fonte: www.artenocorpo.com
Em um suave e lento movimentar das suas mãos, observei o traçado de uma vida de longa solidão em seu destino. Uma vida de nevasca eterna, de fina e invisível areia escorrendo por entre os seus dedos delicados. Enroscados pelos seus antebraços, vi a figura de dois dragões sobrevoando sua alma, sua calma e sua alegria. Nos seus braços, duas serpentes alimentam-se da espera e do imprevisível. E, entre as cobras e os dragões, uma sequência de desenhos tribais, como se representassem uma dança de imagens solares e lunares rodopiando pelo vazio enigmático do seu olhar.
Mas de repente é como se todas estas imagens sumissem de sua pele e do nada os mapas e tatuagens nunca estivessem marcados em seu corpo e tempos. A sua pele nua se revestia da sol, se revestia de velhice e juventude, como em um encontro astral inesplicável.
     
Em seu corpo, uma cartografia de desenhos, arranjos e relações encobertos por pesadas camadas do tempo. Um tempo esfíngico mistura carne e pedra, dando forma à envelhecida mulher sentada ao lado de si mesma. Naquele canto do jardim da velha casa. Ali, ela repousa o corpo na claridade solar e percebi que o casarão desaparecera dos seus pensamentos.
Mas o céu com sua abertura de luz e atmosfera nua lhe reaproxima dos cantos do terraço do casarão inclinando suas sombras sobre as paredes envelhecidas do espaço oco. Num jogo fotográfico de luz e sombra, nuvens cruzam o ilusório céu da tarde e, seguindo a rotação da Terra espalha sombras suaves pelo chão desgastado do terraço, marcado com invisíveis pisadas não se sabe de quem.
Por todo o seu corpo feminino, estão esculpidos os sulcos do tempo, manchas solares e cicatrizes de amores desfeitos, escombros de paredes descascadas em suas camadas de tintas. O tempo escorre profundas rugas pela sequidão exposta do seu corpo e nas entranhas de sua pele uma marca cicatrizada indica a cratera de uma grande queimadura que brota na altura do seu coração.

Fonte da imagem: http://nadja-cacarecos.blogspot.com.br/2013/08/casarao-do-parque-jambeiro.html

Como hera e fícus verdejante ela agarra-se as pedras e penetra pelos francos das paredes, assim, a mulher se torna o casarão que é habitado por ela própria. Sua carne se mistura com a pedra e o barro da antiga construção em desmoronamento, em uma cartografia de sentimentos e vazios envelhecidos. Seus olhos esverdeados e pesados marejam um olhar para a porta aberta lhe permite pedaços de sentidos de um olhar distante e vazio de presenças.
Sua face encontra-se tatuada em musgos e líquens e suas garras se ficam nas paredes entecendo novas colunas de vida em galhos que até o tempo se desespera diante do desafiante continuar contando estes mapas mentais de um desconhecido mundo em seiva de mulher. Com os últimos raios do sol, desce o anoitecer e ela levanta-se da velha soleira, entra no casarão destelhado e diante do escuro, leva consigo o que restava do agora, deixando a porta aberta para que o amanhã aconteça.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

(Resenha) "Geopolítica da água: Açude de Boqueirão/ PB e as disputas territoriais por água"


Resenha Geográfica:

Resenhado por: EDSON SEVERINO CAMPOS DA SILVA

Resenha do Artigo Científico de,
RIBEIRO, Rainer Rufino. Geopolítica da água: Açude de Boqueirão/ PB e as disputas territoriais por água. Guarabira – UEPB, 2011.

Neste trabalho o autor apresenta uma pesquisa que tem como objetivo geral analisar a complexidade geográfica a partir da categoria território e do elemento água na perspectiva geográfica de disputas, baseado em teorias de diferentes autores.
O artigo traz uma discussão teórica sobre a geopolítica da água, utilizando o Açude Presidente Epitácio Pessoa (Açude de Boqueirão) como objeto de pesquisa, devido à importância desse recurso hídrico para a população beneficiada, assim como, pela influência semiárida exercida em grandes extensões de terras paraibanas.
Numa região onde a escassez é a marca principal, a água vale mais que ouro. O Açude de Boqueirão tornou-se alvo de disputas pela água que representa um dos males do século XXI, e, que está bem próximo da realidade local, apesar do brasil possuir uma das maiores reservas de água do planeta.
O texto destaca a ideia de conflito como algo que deve ser analisado e discutido, para que sejam pensadas e criadas soluções que não apenas cessem tais conflitos, mas, que todo brasileiro tenha acesso a água em níveis quantitativos e qualitativos em igualdade. Para isso, o autor buscou um suporte territorial no semiárido paraibano, em terras do Cariri, especificamente, no Açude de Boqueirão.
Para Ribeiro (2011), essa tarefa tem se tornado cada vez mais difícil, com o crescimento do consumo, a poluição dos mananciais e a concentração populacional e da atividade econômica em áreas com pequena disponibilidade hídrica (p. 12).
O baixo potencial hídrico e a desertificação existente em áreas paraibanas estimulam os conflitos pela água devido as necessidades de uso. Mais de quinhentas mil pessoas dependem da água desse açude. A água é um elemento essencial para todas as formas de vida na terra. De acordo Ribeiro baseado nas ideias de Brito (1944), os conflitos sociais por causa da água são, até certa extensão inevitáveis, tendo em conta as múltiplas funções da água: é uma necessidade humana básica, a base das vidas, parte vital de ecossistemas essenciais, um símbolo cultural e uma mercadoria de extremo valor comercial (p.13).
A questão da escassez da água atinge não apenas a região Nordeste, mas também outras regiões bastantes desenvolvidas que exige uma grande demanda de água. Sendo assim, as grandes metrópoles são obrigadas a buscarem a água em outras bacias. Nesse sentido, essa questão atinge proporções globais.
No texto Ribeiro mostra através da ideia de Vianna que a ideia de conflito indica que um ou mais atores sociais estão em disputa por um objetivo: controle de um território, de uma população ou de um recurso natural, como a água (p.14).
A escassez da água incide em estratégias de poder, provocando conflitos caracterizados pela disputa de uso da água. O atual modelo de desenvolvimento também impulsiona a exploração desenfreada de recursos naturais não deixando oportunidade para a renovação dos mesmos.
“Dos conflitos pelo uso da água, aquele que opõe o abastecimento público a outros, quaisquer que sejam, é o caso mais comum” (p.17). Para suprir a demanda de água nas regiões de escassez apresenta-se a transposição do Rio São Francisco como fonte complementar de águas, para os rios intermitentes na região Nordeste. Esta seria uma alternativa que possivelmente cessaria ou diminuiriam os conflitas na região citada.
O eixo leste com capacidade máxima de 28 m³/ s, atingiria o Rio Paraíba, porém, apenas 10m³/s seria disponibilizado para o consumo humano, o canal poderá funcionar com a vasão máxima, transferindo o excedente hídrico para reservatórios existentes em bacias receptoras, a exemplo do Epitácio Pessoa – Boqueirão, localizado na bacia do Rio Paraíba/PB, como mostramos dados apresentados pelo autor.
O principal açude da bacia do Rio Paraíba é o Epitácio Pessoa (Boqueirão). A escassez hídrica destaca-se dentre os diversos problemas enfrentados por esta bacia, como o uso desordenado e com desperdícios, desmatamento da mata ciliar, contaminação por lixo etc., que contribuem para o aumento da escassez da água naquele território.
A questão da falta d’água é uma marca da região Nordeste, em especial nas zonas influenciadas pela semiaridez, com isso, os conflitos socioeconômicos em torno da água só tendem a aumentar. O açude de Boqueirão é de extrema importância geopolítica para o agreste paraibano, em especial para as microrregiões do cariri oriental e para a região de Campina Grande. O açude de Boqueirão encontra-se numa área próxima ao perímetro urbano, o que contribui e influencia na economia do lugar, baseada na agricultura.
O autor apresentou situações e instrumentos usados para minimizar o problema, como a intervenção do Ministério Público da Paraíba acionado pela Secretaria Extraordinária do Meio Ambiente, dos Recursos Hídricos e Minerais para proibir as práticas de irrigação, um dos principais causadores da escassez da água naquela região. A partir de então, iniciou-se uma serie de fiscalizações.   

Durante os períodos de estiagem existe um forte tensão local pelo acesso a água para a realização de diversas atividades além das comerciais. As estiagens prolongadas ocasionam os conflitos pelo uso da água gerando vários problemas de ordem social e econômica para toda região abastecida por este reservatório. Desse modo, o autor acredita que é preciso uma atuação efetiva e constante dos usuários nas discussões que envolvem a bacia, para alcançar soluções efetivas para pôr fim às situações de conflitos pelo uso da água.

Links de acesso ao trabalho na integra:
ou

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Da Discórdia ao Discordianismo

Fonte da imagem: http://www.recantodasletras.com.br/prosapoetica/4381738.

Texto: Belarmino Mariano Neto


Diante de instâncias paradoxais, contraditórias e complexas, temos as marcas da discórdia perpassando quase tudo o que os seres humanos produzem na sua perspectiva de espaço-tempo. A cultura humana é permeada por elementos contraditórios, por situações polêmicas e conflitantes. Mas a grande questão é sabermos qual a origem da discórdia humana?
Podemos começar pensando o discordianismo na perspectiva mitológica, isso para encontrarmos uma ideia de deidade ou divindade da discórdia. Essa divindade é de sexualidade feminina. Éris - Uma das divindades primordiais, filha de Nix (a Noite). 

Fonte da imagem: Éris a Deusa da Discórdia - www.fazfacil.com.br

Em outras versões, é mencionada como filha ou irmã de Ares, o deus da guerra. Acompanhava-o aos campos de batalha, disseminando ódio entre os combatentes. Nix era Filha de Caos, um espaço aberto, matéria rude e informe, à espera de ser organizada, princípio de todas as coisas. Nesse espaço surgiu a Terra (Gaia). Nix gerou uma infinidade de deuses como Nêmesis (a Vingança), Momo (o Sarcasmo), Tánatos (a Morte), Hypnos (o Sono), Éris (a Discórdia). Nix envolvia o Caos como uma sólida casca, dando-lhe o aspecto de um ovo. No interior desse ovo gigantesco originou-se o primeiro ser: Fanes (a Luz). Este ser, unindo-se a Nix, engendrou o Céu e o próprio pai dos deuses. Segundo outra corrente da cosmogonia órfica, Nix não formava uma casca. Era uma ave negra de enormes asas. Fecundada pelo vento, pôs um ovo de prata no seio da Escuridão. Desse ovo saiu Eros, o Amor Universal.



Fonte da imagem: pt.wikipedia.org - Nyx, deusa da noite (William-Adolphe Bouguereau - La Nuit (1883).

Assim temos uma poesia para Nyx - "Eu vôo pela Noite e encanto os céus. Tudo absolutamente tudo nasceu de Meu Útero Tudo me pertence. E Tudo volta a minha Escuridão". Se Éris é filha de Nyx e pode ser considerada como a divindade da discórdia, assim poderíamos até admitir a existência de um primitivismo religioso pautado na adoração de Éris. Não podemos afirmar que a deusa tivesse seus adoradores de plantão, mas é importante considerar que o próprio sentido da palavra reforçada pelo principio do caos, do conflito ou da guerra (Ares), como filho legítimo de Zeus e Hera, temos nesse caldo divino da cultura grega a essência para o discordianismo filosófico e teológico. Conta o mito que Ares revestido de couraça e capacete e armado de escudo, lança e espada, acompanhava-se de Deimos (o Medo) e Fobos (o Terror), seus filhos com Éris. Zeus era filho de Cronos com Réia e seu pai devora todos os filhos. Cronos - O mais jovem dos Titãs, filhos da Terra e do Céu. A pedido de sua mãe, mutilou o pai e ocupou seu lugar no trono do universo. Esposou sua irmã Réia e teve alguns daqueles que se tornariam os principais deuses olímpicos.

Fonte da imagem: uma tela de Goya - www.historianet.com.br

Assim como Éris, Nix gerou também a Morte que para os gregos era um gênio masculino alado que, entre os gregos, personificava a morte. Era filho de Nix (a Noite) e irmão gêmeo de Hipnos (o Sono). Entre os romanos a Morte era uma deusa, Mors, ou mais freqüentemente, uma pura abstração personificada. Se a morte pode ser irmã de Éris, divindade da discórdia, estamos diante da grande dicotomia da mística Grega e até certo ponto ocidental. Vida e morte elementos por essência discordantes mas complementares e que alimentam todos os princípios religiosos. A vida para a morte enquanto a possibilidade de uma outra vida.

Fonte da imagem: robertacarrilho-div.blogspot.com - Olivier Valsecchi

O Discordianismo é a 'base de todas as religiões'. Uma visão geográfica do Espaço Geográfico no qual podemos perceber o limite cultural de uma experiência religiosa, seus princípios e relações fechadas em relação aos outros experimentos culturais. O Discordianismo religioso acontece na zona de contato entre duas culturas ou mesmo na base de compreensão cultural de dois ou mais pensadores e propositores de linha de ligação (religare) entre o humano e a não explicação dos enigmas ou mistérios da natureza envolvente. Em especial no que tange a visão expansiva do que sai do alcance da mente humana. Quando há um ponto de divergência entre dois ou mais filósofos, místicos ou lideres de um grupo social básico para o desenho religioso nascente. 
Fonte da imagem: Mito da criação - rsguimaraes.wordpress.com

O que apresentamos se confirma em todas as grandes correntes religiosas ou filosóficas, sejam do ocidente ou do oriente. Mas quando observamos os guetos de formação de uma seita e dessa para um espaço de ampliação e até massificação dos contatos intergrupos o discordianismo vai se estabelecendo. A religião ganha sentido no processo de validação dos pares, mas e principalmente no processo arranjado pela discórdia de pontos de vistas, rituais e dogmas da religião oposta e/ou diferente da que se apresenta. 

O pensamento, o sentimento e a vontade são o trivium para o estabelecimento de uma religião. É na reflexão e na prática de contato entre estes três elementos que se constrói uma unidade religiosa. O mais interessante nesse processo é o fato de que na individualidade, sempre existem pontos discordantes de cada fiel em um todo religioso. Seja em relação a um rito, a um símbolo, a um perfil teórico da base teológica ou até mesmos dos representantes diretos do modelo no qual o individuo se insere.

Nesse sentido o discordianismo tende a ser o elemento chave para na sua ampliação ser gerada uma nova experiência de caráter religioso. Vejamos o caso do cristianismo em sua esfera primitiva com encaminhamentos dos essênios para uma ruptura de alguns valores e dogmas do judaísmo da antiguidade. Estes foram os pilares para uma nova mensagem de fé que demarcou o espaço geográfico do Oriente Médio na Antiguidade.

Com a adoção do cristianismo pelos romanos e seu reconhecimento oficial, são estabelecidos os concílios e todo um jogo de regras e disputas de poder na organização hierárquica da Igreja Católica Apostólica Romana. Nesse processo e com um viés espacial demarcado em Roma e em Constantinopla, tivemos elementos discordantes e até mesmo de isolamento cultural que terminaram por provocar uma forte dicotomia no cristianismo católico (ortodoxia e romanismo cristão). 

Fonte da imagem: www.lordofthecraft.net

É importante ressaltar que o discordianismo pode se estruturar a partir de muitos fatores, mas, o elemento cultural perpassado pelo pensamento, sentimento e vontade delimitados pelo indivíduo e ampliados para demais indivíduos de um grupo religioso, representa o "cimento" de um novo perfil religioso e conseqüentemente a possibilidade de alimentação do discordianismo em sua base. Nessa seqüência e com grandes transformações socioeconômicas, políticas e culturais vividas pela Europa no seu processo histórico de modernidade, fizeram com que o romanismo cristão (cristianismo apostólico romano) sofresse um violento processo discordante em sua base, isso provocou importantes desalinhos na unidade cristã da Europa. O perfil inicial do protestantismo tem suas bases no discordianismo do oficio religioso e hierárquico da estrutura de poder do Vaticano e conseqüentemente na cisão efetiva da base religiosa. Isso gerou cristianismos: luterano, anglicano, dominicano, etc. O principal comprovante da amalgama do discordianismo religioso.

Não podemos afirmar que o discordianismo sirva de base enquanto construção religiosa efetiva, mas enquanto busca de um desenho divino que se aproxime o máximo possível do desenho cultural que cada grupo apresenta em sua história. Esse é um processo de sofrimento religioso que se estabelece principalmente em grandes sistemas religiosos que tendem a impor seu modelo, ou que fecham algumas passagens do pensar e sentir dos seres que tentam seguir o modelo. Isso atravessa de cheio o princípio da vontade, atingindo a essência do humano que se constrói na liberdade individuada em si. O preso pensar, o preso sentir e o preso agir são os alimentadores do discordianismo religioso. 

A Religião que não perceber a importância da flexibilidade, tende a alimentar em seus fies uma divindade da discórdia. Esse Deus da discórdia pode até ser lido como uma figura do mal que atrapalha o fiel em seu caminho, mais em muitos caso, o Deus da discórdia acaba alimentando a criação de novas divindades e/ou a (re) dimensão da base religiosa existente. Quando os princípios religiosos de um grupo social se dão de forma politeísta, o discordianismo em essência já se encontra manifestado naqueles que tentam atrair alguém para sua seqüência ritual. Mas no caso do monoteísmo, o discordianismo religioso pode ser um processo lento e gradual que só estabelece rupturas bruscas quando elementos diversos da sociedade convergem para a quebra de valores que engendra a sociedade como um todo."

Belarmino Mariano Neto é professor da UEPB.
Contatos: belogeo@yahoo.com.br
A base mitológica desse artigo se encontra no site: 
http://www.filonet.pro.br/mitologia/eris.htm 
http://eventosmitologiagrega.blogspot.com.br/2010/08/mito-eris.html
https://discordianismo.wordpress.com/2010/12/23/o-mito-da-maca-da-discordia/
www.houseofnight.com.br
http://robertacarrilho-div.blogspot.com.br/2013/10/ensaio-criativo-mostra-pessoas-banhadas.htmlhttp://essencialismo.blogs.sapo.pt/
rsguimaraes.wordpress.com
 www.historianet.com.br
www.fazfacil.com.br
witchclubhouse.blogspot.com
www.lordofthecraft.net

sábado, 11 de abril de 2015

A Morte Espetacular


Por Belarmino Mariano Neto

Quando ocupei o útero de gaia ainda não era homem, mas apenas sonho.
Gaia Gerou do sêmen solar a luz da vida que germina em suas entranhas fecundas. Primeiro um pó de luz se espalhando pelos recantos e imaginários olhos de mulher, que chora, grita, e sorrindo cria nas profundezas do ser os cristais para o novo e desprendido movimento do nascer galáctico. O filho de uma nova idade, fluído de uma aromática essência de mulher que chorando se corta por dentro e sangra um avermelhado e violento momento matriarcal.

"Eu vi a morte, (...) com manto negro, rubro e amarelo.
Vi o inocente olhar, puro e perverso, e os dentes de coral da desumana.
Eu vi o estrago, o bote, o ardor cruel, os peitos fascinantes e esquisitos.
Na mão direita a cobra cascavel, e na esquerda a coral, rubi maldito.
Na fronte uma coroa e o gavião, nas espáduas as asas deslumbrantes que ruflando nas pedras do sertão, pairavam sobre urtigas causticantes, caule de prata, espinhos estrelados e os cachos do meu sangue iluminado.
 (...) Mas eu enfrentarei o sol divino, o olhar sagrado em que a pantera
arde. Saberei por que a teia do destino não houve quem cortasse ou desatasse.
(...) Ela virá a mulher aflando as asas, com os dentes de cristal feitos de brasas e há de sagrar-me a vista o gavião. Mas sei também que só assim verei a coroa da chama e Deus meu rei assentado em seu trono do Sertão." (Ariano Suassuna, Poesia Viva, 1998, CD:14 e 15).


Estes fragmentos de sonetos, carregados de signos, enigmas e imagens únicas
são os elementos da morte, percebidos por Ariano Suassuna. Neste imaginário, as figuras da morte, vestida com adereços de elementos da natureza sertaneja, nos faz viajar pelas palavras para na morte a sublimação da carne, onde o sol é um testemunho vivo de tal sede. Assim, símbolos da natureza semi-árida são ressaltados como poderosos e sagrados, no ponto do divino centralizar sua força nestas terras. Em outras partes do soneto, Suassuna ressalta a morte como um toque inapelável do divino, maciez, vida e obscuro toque de um Deus no homem.
O lugar e seus elementos como o gavião, a cascavel, a coral, a vida e a morte como figura feminina, que em suas palavras ganham um profundo significado. O destino, outro elemento muito forte na cultura nordestina, que em sua “triste partida” pode estar traçado, e diante da morte é preferível vagar pelas terras alheias, na espera de um dia voltar. Pois o destino traçado em suas mãos vai além de seus poderes terrenais.
Morte espetacular, em todos os seus elementos de arte. A morte possui a arte de matar. A morte mata o tempo e morrer é muito natural. Todo tempo é de morte, é de morrer. O ato de morrer parece o fim da vida, animal ou vegetal, mesmo que Anúbis e sua cara de chacal, pese a possibilidade de vida eterna na morte.



     Fonte: www.sporcle.com 435 × 595

Pode ser uma entidade imaginária, crânio humano sobre ossos e cinzas.
Morte agônica, súbita, neurocerebral e irreversível. A morte cósmica de uma estrela, grande e natural morte. Morte matada não natural. Morrida, natural.
Por doença, violenta, rápida, imprevista. Desastre, homicídio, suicídio.
Chorada, cantada, lastimada, irremediável.


A morte de um amor ou de um rancor. Cores incolores pouco vivas, pálidas,
mortas, brancas, pretas almas. Um espetáculo em fractais do nada. Milhares de pessoas todos os dias e noites.
A cor incolor da morte tecida em luz e trevas, ausenta e apresenta-se sai dos esconderijos e em seu clandestino silêncio, representa a contemplação nua dos deuses com seus toques mágicos de mulheres em seda, morim e cetim. Tintas e cores tecidas no multicolorido matar incolor. Um espetáculo aos vivos. Bandeiras sobre os caixões, fogo das paixões cremam em lágrimas, enquanto as flores murcham e as moscas acompanham o cortejo fúnebre.
Era um anjinho, menos de um ano. Cedo de mais para seus oitenta e cinco anos de vida lúcida e pública. Apenas um ano e o câncer se espalhou por toda sua vida acumulada em rugas.
Um espetáculo de cores que para o trânsito e muda o sentido das conversas. Breve, curto, longo sentir. Apenas um tremor de terra, quase tudo pelos ares. Via satélite, aos vivos. Um espetáculo de imagens em escombros. Quase tudo fora do lugar. Um resgate pelo cochilo da morte. É o que é da morte em todos os lugares, um complemento ao ponto final. Um espetacular cálculo estatístico que preocupa os órgãos de saúde.
As covas são valas rasas e pequenas para os milhares de mortos infantis por
desnutrição transcontinental. Um espetáculo, assistido em propagandas de
iogurtes, PROMOÇÕES de supermercados ou recordes de produção nas safras de grãos.
Um espetáculo em imagens para a hora do almoço e do jantar. Uma morte que fica bonita e ganha vida própria. Colorido, trilha sonora, visitas ilustres e cenas de choro e lenços. Populares e ilustres tecem curtos trechos de filosofia vã
(vida/morte, ser/existir, desistir). A tristeza se reveste de pompa, os óculos pretos e modernos contrastam com as faces rubras de peles bem tratadas.


A morte ganha todas as cenas, gera audiência, redimensiona a memória/imagem de passados que já estavam mortos. Os filtros das câmaras criam um ar acinzentado e mórbido. Flores quase mortas avivam os entornos do espetáculo mortal. Uma princesa, um velocista, um bandido, um índio Galdino, um mega star, um caminhão de sem terras no click de Sebastião Salgado ou mesmo um simples popular do corpo de bombeiros, que arriscava a vida para salvar vidas. Todos filhos da morte.
Tons e sons de morte sobrevoam o local do cortejo. É uma pessoa ilustre, um chefe de Estado, era integro honesto e bravo. Álbuns de família são focados pela panorâmica das câmaras. Uma desatinada busca e alucinada espera. Cortante e bruto alimento do pensar, desconstrução de destruição na construção de uma miragem. Filhos do estupro ou abortados pelo medo, homens. Violação patriarcal do divino, violência matriarcal em estar vivo. Morte calada que rebusca nas cinzas a poeira cósmica da noite, que escondo o sono e que não permite a embriagues dos sonhos.


Um espetáculo mortal, monumental. Milhares foram soterrados pela truculência da natureza, em um simples tremor de terras. Cenas mundiais repetidas mais de uma vez pelos diversos canais, via satélite, aos vivos.
A tragédia é africana e européia. Combina morte/ rivalidade, alimento/ fome. Um espetáculo mortal e louco de vacas inocentemente sacrificadas aos milhares. Tragédia euro-africana de vacas e homens. Quantas vidas para cada morte. Uma morte, uma vida.


Uma cena espetacular que desencadeia todos os pensamentos
que a lucidez consegue roubar da mente em uma loucura. Um viajar imaginário do ser e penetrar da seda fina do subatômico do momento do sábio nadar e no
demasiado sendeiro do escuro da luz nada encontrar. É grande a noite se resumida a uma madrugada da morte. Parece uma nevasca eterna. São tantos os espaços da morte que até o vazio se desespera.


É um espetáculo a certeza da morte. Como garrafas de vinho vazias representa os devaneios humanos, a morte das uvas e o nascimento dos sonhos que embebidos pelo doce/amargo, seco/suave traz na sua idade o sabor de uma vida presa, enfrascadora de energias que em estado líquido, tinto, branco ou rose, pode derramar-se sobre o corpo, a alma, a calma e a alegria. Por libertar-se, ser vinho, rio correndo pelo pensar e passar dos que se tornam vinhos em suas fantasias fermentadas. Te vê do alto com um voar de homem-pássaro, tua contradição dilacera todos os sentidos de um apocalíptico alfa do gradativo vitral nadesco a se apagar. Sem luz perdi de ver o brilho dos teus olhos, perdi de ver de vez o que talvez não veja jamais.

Fonte do texto:
Extraído na integra - http://www.cchla.ufpb.br/caos/numero4/04marianoneto.pdf.
republicado com imagens no blog: http://essencialismo.blogs.sapo.pt/morte-espetacular-7283
Fontes das Imagens
https://www.google.com.br/search?q=imagens+da+morte+e+mitos&espv=2&biw=1280&bih=656&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ei=96qPVJntKs6uogSP-IKICg&ved=0CBwQsAQ

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Geografia Cultural e Teorias Liberais do individualismo


Por: Belarmino Mariano Neto

Este artigo se coloca na perspectiva de entender o processo sociocultural de construção geográfica do indivíduo liberal. Para tanto, não posso partir apenas de um pensar pessoal, nem partir do zero. É importante partir de correntes de pensamentos historicamente experimentadas, não apenas enquanto suporte do já escrito, mas na perspectiva crítica e criativa para poder me deparar com a realidade contemporânea do individualismo vivido nas diferentes esferas do cotidiano, servindo como parâmetro para novas reflexões e uma melhor compreensão do objeto de estudo em foco.
A Geografia Cultural é uma corrente de pensamento da Geografia com a qual me identifico, por permitir um maior relacionamento e diálogos com outras ciências sociais como a História, Antropologia, Sociologia, Filosofia e Psicologia. Além do mais, esta escola de pensamento geográfico possibilita leituras diversas na perspectiva tanto do sociocultural, quanto do socioambiental como experimentos de práticas culturais em diferentes ângulos. A exemplo dos estudos sobre: "espaço e religião; espaço e cultura popular; espaço e simbolismo; paisagem e cultura; percepção ambiental e cultural; espaço e simbolismo..."(CORRÊA, 1995, p.03-11).
A construção do indivíduo liberal a luz de ideias desenvolvidas a partir século XVII, será analisada a partir dos cientistas sociais como: Macpherson, Dupuy e Magalhães, pensadores à cerca do indivíduo liberal e da sociedade moderna ocidental.
Na Perspectiva da Geografia Cultural chamo a atenção para pensadores como Corrêa, Rosendahl e Cosgrove. Isso não significa uma exclusão de outros pensadores, mais apenas uma adequação aos limites espaciais do artigo.
A leitura dos autores acima foi no sentido de uma exposição geral, em relação ao pensamento teórico buscando um "fio de intercessão" ou sequência dos fatos que serão levantados ao longo do texto e que servem como um primeiro referencial a cerca do indivíduo liberal ou do debate sobre sociedade e indivíduo, muito presente na Sociologia, Antropologia e que até certo ponto, não vem servindo de referência para geógrafos.
Enquanto diretriz metodológica foi escolhida a análise textual e temática dos diferentes autores no sentido de abordar no texto, uma visão panorâmica e direcionamento desta para nosso foco temático central - A construção do indivíduo liberal. Como sendo justificada por estes autores.
A intenção é na medida do possível, eliminar as ambiguidades e os pontos passíveis de dúvidas. Como a temática geral abrange uma temporalidade (século XVII ao século XX) muito ampla, estarei desenvolvendo uma estrutura a partir de fatos pontuais de maior destaque na história do pensamento liberal e seus desdobramentos.

A Teoria Política do Individualismo Possessivo (de Hobbes a Locke).
In MACPHERSON.



Caminhar confundido a tanta heterogeneidade em constante movimento é uma experiência saudável e peculiar. Tudo parece mergulhado NUMA grande corrente, onde cada um procura o seu próprio objetivo. No meio de tantas pessoas e tamanha excitação, sinto-me cheio de paz, sozinho, pela primeira vez. Quanto mais alto o burburinho das ruas, mais quieto eu me torno (Goethe. In. SENNETT, 1994, p.228).


As raízes da Teoria Liberal-democrática europeia no século XVII foram historicamente marcadas por significativas contradições no plano econômico, social, cultural e político.
Os elementos da vida urbana como atividades artesanais, manufaturas e mercantis criaram um forte intercâmbio comercial europeu que se estendeu para outras partes do mundo. O surgimento e desenvolvimento da burguesia mercantil, crescimento do número de trabalhadores pobres mais livres, a decadência agrária da aristocracia rural e da nobreza e o fortalecimento dos ideais protestantes, críticas ao poder econômico e político da igreja católica foram fundamentais para a busca de teorias que dessem conta dessa nova realidade (CHAUÍ, 2000, p.398).
Até que ponto os teóricos do século XVII, conseguiram explicar estas novas experiências conflitantes? Será dizer que o indivíduo começa a definir sua existência a partir dessas novas condições sociais?
O individualismo oriundo do século XVII continha a dificuldade central, residindo esta na sua qualidade possessiva. Sua qualidade possessiva se encontra na concepção do indivíduo como sendo essencialmente o proprietário de sua própria pessoa e de suas próprias capacidades, nada devendo à sociedade por elas. O indivíduo não era visto nem como um todo moral, nem como parte de um todo social mais amplo, mas como proprietário de si mesmo (...) achava-se que o indivíduo é livre na medida em que é proprietário de sua pessoa e de suas capacidades. A essência humana é ser livre da dependência das vontades alheias, e a liberdade existe no exercício da posse (MACPHERSON, 1979, p.15).
Macpherson (1979) elege Hobbes e Locke como referência para discutir a teoria política do individualismo possessivo. Três elementos importantes para entender a concepção de Hobbes e Locke: o Estado de Natureza, o Contrato Social e o Estado Civil. Estes conceitos, relacionados aos indivíduos que formam a sociedade e que aceitam submeter-se ao poder político das leis.                               
Para Hobbes, (2001), no Estado de natureza, os indivíduos vivem em luta constante, guerra de todos contra todos. Nesse estado reina o medo. "Para protegerem-se uns dos outros, os indivíduos, se armam, ocupam territórios, mesmo assim o que predomina é a lei do mais forte e a falta de garantias". A natureza humana é marcada pela competição, desconfiança, poder e gloria. A força da astúcia (domínio). Estes são impulsionados pelo princípio de posse, ocupação, invasão e destruição uns dos outros. O Estado de natureza anterior ao estabelecimento da sociedade civil, um "estado de guerra". Assim ele justifica a necessidade do Estado de natureza que leva em consideração o homem social civilizado, baseado no poder do soberano.
Enquanto pensador da Geografia Cultural, posso considerar estes argumentos como representativos de um determinismo de ordem ambiental ‘a natureza do homem’, algo parecido com uma história estanque da política no espaço, sem considerar, no entanto que diversos comportamentos humanos, apontaram para outra matriz de relações homens/homens e homens/natureza enquanto construção cultural. Esta linhagem permite uma construção simbólica para além da ideia de poder. Um exemplo é a própria difusão de técnicas, atitudes, ideias e valores que vão além do egoísmo e da submissão ao poder político soberano.
A grande diversidade cultural manifestada em diferentes espaços e tempos permite uma leitura dinâmica de experiências vividas individualmente ou coletivamente, enquanto práticas dominantes; práticas alternativas de grupos ou indivíduos não dominantes e práticas de minorias excluídas aos olhos dos grupos dominantes, mas com importante valor simbólico e de significados (CORRÊA, In.: COSGROVE, 1995, p.6-7).


A Luta pela sobrevivência, a busca por comida, agasalho e energia foram e ainda são uma constante em todas as culturas do mundo, este tópico pode induzir a uma ideia de egoísmo enquanto marca da natureza do humano. Uma construção natural e cultural dos grupos humanos enquanto competidores. Mas, em contrapartida, existe uma prática muito comum em todas as culturas que é no momento da fartura, a festa, a diversão, sempre regada com muita comida, bebida e alegria solidária. Este não é um comportamento apenas dos momentos de abundância, mas também das fases de dificuldade dos grupos ou indivíduos. Estes agem de forma altruísta, solidária e ou benevolente.
Mattelart (2000, p. 169-74) considera Kropotin e Reclus, dois importantes geógrafos do pensamento libertário, como defensores de uma rede igualitária na era neotécnica. Eles argumentam que os seres humanos agem muito mais em função da ajuda mútua espontânea, que a simples competição de todos contra todos, levantada por Hobbes e reforçadas por Darwin na ideia de competição e luta pela vida. Reclus em sua grande obra geográfica destaca em diferentes momentos que a maior força de uma sociedade é a fraternidade universal na construção humana, simpatia e respeito que são demonstrados em atos de solidariedade.
Fonte: www.gopixpic.com 
Não estou querendo desde já, eliminar a grande tese da cultura política e até sociobiológica da origem e evolução do homem, enquanto organização de indivíduos competidores que se agrupam para o exercício das disputas por recursos naturais, geralmente respeitando a força e astúcia de um sobre os outros. Estes são apenas alguns elementos de contraposição ao diálogo que ora venho desenvolvendo, sem perder de vista o fio de interconexão com o tema central.
O poder soberano necessário poderia passar a existir conforme dois modos: pela conquista e sujeição dos habitantes por um indivíduo ou um grupo soberano (soberania por aquisição), ou pelo acordo mutuo entre indivíduos para a transferência de todos os seus poderes naturais a um indivíduo ou grupo (soberania por instituição). Não fazia diferença saber como a soberania era estabelecida, desde que fosse reconhecida por todos os cidadãos (MACPHERSON, 1979, p.31).
O pensamento teórico e filosófico de Hobbes, (2001) é visto como pressuposto para a ideia de construção do indivíduo liberal. Em sua principal obra: Leviatã (1611) apresenta todo um conjunto de argumentações a cerca do Estado soberano e da sociedade civil, como modelo político. Para ele "o poder soberano é uma necessidade natural dos indivíduos – corpus de proteção".
No pensamento de Hobbes, marcado pela citação de Macpherson encontra a necessidade de superação do estado de natureza para a sociedade civil, poder político das leis e do contrato social, em que os indivíduos renunciam a liberdade natural em nome do soberano.
Um importante exemplo desse pensamento é a expansão dos interesses dos indivíduos burgueses e contraposição ao controle do Estado absolutista. As conturbações políticas, sociais e econômicas, chocavam os interesses da realeza/nobreza com os anseios dos mercadores. As contradições podiam ser marcadas em relação ao espaço urbano, ao espaço rural e suas produções. Os mercadores, artesões e corporações de manufaturas; permeadas pelo trabalho assalariado marcavam essas novas relações (CHAUÍ, 2000, p.399).
Para Hobbes (2001) o indivíduo constitui uma sociedade civil que necessita de um estado regulado por um soberano que impõe segurança e respeito a cada indivíduo. Este soberano é colocado como uma necessidade natural – "Estado de natureza, garantindo o comprimento das leis e o estabelecimento dos contratos social" (Ibid., 84.) Sem esse estado de natureza, não existiria a sociedade racional civilizada, pois os indivíduos se posicionariam em constante luta de uns contra os outros.


O Estado de natureza da sociedade civil baseia-se na lei, nos contratos e respeito ao soberano, por medo dos outros indivíduos. (...) os homens civilizados estabelecem harmonias em relação aos negócios, ofícios, amizade de mercado, facções, ciúmes, risos e senso de ridículo. (...) toda a sociedade é para o lucro, para a glória e para a dominação. (...) uma sociedade de indivíduos que pensam, opinam, raciocinam, esperam e temem. Tudo isso em relação ao outro. (MACPHERSON, 1979, p.34-37).
Os principais aspectos apresentados podem estar na fisiologia e psicologia do indivíduo. Estabelecido pelo apetite, desejo, aversão, experiência e julgamento em continua mutação. Homens e paixões. Desejos, poder, riqueza, conhecimento e honra. Valores comparativos e atos voluntários e virtuosos. Neste caso, o autor usa todos os indicadores observados em sua vida social de choques e contrastes (burguesia, aristocracia, nobreza, realeza, assalariados, etc.).
É importante destacar que a Geografia Cultural que tento relacionar com as demais ciências sociais, considera ao longo do século XX, importantes argumentos centrados na ideia de cultura caracterizada por componentes materiais, sociais, intelectuais e simbólicos. (CORRÊA, 1995, p. 03).
O mercado competitivo é estabelecido a partir do poder de COMPRA e de venda. Os indivíduos disputam o poder, mais poder como proteção do atual nível de poder ou aceitação do poder. Uma natural luta pelo poder ilimitado pela busca da propriedade e do poder. Temos então uma sociedade competitiva que precisa do soberano como modelo de controle social e contra a violência individual (MACPHERSON, 1979, p.57).
Essa construção pode ser observada em alguns modelos sociais por ele apresentadas:
A sociedade de mercado possessivo - uma economia de mercado e poder. O estado de natureza soberana como estrutura legal e mediação dos contratos e poderes. Diferente da sociedade de costumes "status" – baseada nos costumes/tradições/comunidades dominantes. Existindo uma ausência de mercado, a terra, o trabalho e a produção são alvos de disputas entre rivais de outros grupos. Já a sociedade de mercado simples – o mercado não é de trabalho, mas de bens. Existe uma produção e distribuição de bens e serviços pautados no trabalho, na liberdade e nas recompensas sem garantias (MACPHERSON, 1979, p. 58).
Na descrição destes modelos propostos por Hobbes, (2001) em sua teoria política do estado natural da sociedade civilizada de mercado possessivo os indivíduos vão sendo diluídos no tecido social e em suas contradições.


Na sociedade de mercado competitivo moderno, as regras de poder e controle social apontam para um aprofundamento das disputas do mercado. A Guerra como força de coerção e o estabelecimento de novas regras em ralação aos indivíduos, o mercado e o estado marcam o aprofundamento dos embates.
O liberalismo precisará de elementos que garantam aos indivíduos da burguesia um conjunto de teorias que deem suporte aos seus direitos políticos e econômicos, reconhecidos e garantidos.
Duas questões são levantadas neste momento para a construção do indivíduo liberal: a primeira consiste na busca de garantias para o poder político burguês e a segunda consiste em garantir a propriedade como direito natural.
John Locke, no final do século XVII e inicio do século XVIII, apresentará uma formulação bastante coerente sobre a definição de direito natural a propriedade. Este pensador será analisado Macpherson, como um importante divisor teórico para a ideia de construção do indivíduo liberal, sedimentado do domínio do espaço e pautado em identidades culturais reconhecidas pela sociedade como direito natural do indivíduo:
A propriedade é um direito natural individual e o governo como garantidor das posses dos indivíduos. Direito como vida, liberdade, razão, riquezas (terras e bens). O direito natural com a apropriação pelo uso, trabalho e produção. (MACPHERSON, 1979, p. 209).
Toda a argumentação descrita é baseada nos princípios do cristianismo. O mundo foi criado por Deus para o homem reinar e mesmo ‘expulso do Paraíso’, o homem continuou com o direito de com o seu suor e trabalho tirar da terra o seu pão. Para Locke (In. Macpherson, 1979), este é o legitimo e natural direito á propriedade privada como fruto do trabalho. Consequentemente, a lógica da propriedade privada dos meios de produção, como direito natural aos que dominam este espaço, justifica a garantia liberal da apropriação.
A burguesia tinha as bases para através do Estado Liberal, garantir o direito natural à propriedade, pois o Estado existe a partir do contrato social. Para o pensamento burguês liberal, quem não consegue com o seu trabalho retirar da terra suas posses, é um parasita, pobre, que não consegue a propriedade privada condição natural. Estes pobres são obrigados a trabalhar para os outros por um salário para que possam garantir sua propriedade, ou sobrevivência cotidiana.
Qual será a função do poder ou Estado soberano? Garantir a propriedade privada, por meio das leis ou da força? A teoria liberal defende que o estado proteja, mas não interfira na propriedade privada. Os proprietários como interessados na preservação ou ampliação de suas posses, são capazes de estabelecerem regras e normas de funcionamento do Estado garante o funcionamento da sociedade civil. Assim, a propriedade é o ato de posse que cada indivíduo busca enquanto prática do próprio corpo (vida), liberdade e bens conseguidos pela sua própria ação direta (trabalho).

A contradição pode ser a exata medida da ideia de indivíduo proprietário de si, fazendo o que quiser do seu corpo, vida e trabalho. (ARANHA & MARTINS, 1992, p. 249).
Trabalho assalariado como estado de natureza com salário baseado no livre contrato. Alienação do trabalho como mercadoria vendida livremente. Esta será a base moral positiva para definição da sociedade capitalista. Considera que os operários mesmo sendo proprietários de sua força de trabalho (energia), não dispõem do direito político, pois estes direitos já estão inclusos no direito dos seus patrões. (MACPHERSON, 1979, p.210).
Estes argumentos lançados por Locke (In. Macpherson, 1979), justificam o ‘individualismo possessivo’ e a ideia de democracia liberal pautada na liberdade do ser humano em qualquer relação com o outro. O indivíduo como proprietário de si, pode alienar sua capacidade de trabalho, pois a sociedade de mercado possessivo estabelece amplas relações mercantis, enquanto que a sociedade política é um artifício humano, para proteção da propriedade do indivíduo perante a sociedade civil. Nesse modelo o poder é estabelecido pela coerção da classe dominante e o sufrágio democrático como ideia de liberdade da sociedade de mercado possessivo coercitivo (Ibid., p. 214)
O pensamento de Locke em suas teorias consegue sedimentar as bases para implantação da sociedade liberal e a garantia dos direitos individuais. O direito e o poder não se encontravam nos privilégios da tradição ou herança ou concessão divina, mas no contrato expresso pela livre manifestação da vontade dos indivíduos. O direito natural à propriedade privada e a questão do conhecimento como resultado da experiência, da percepção e da sensibilidade humana, supera as suposições de que os homens possuíam ideias inatas.
Trazer este debate para o universo da Geografia Cultural é reconhecer a importância da vida individual em convergência ou divergência com o grupo, um elemento fundador de uma dimensão espacial da cultural, sobretudo no que diz respeito ao princípio de poder cultural no espaço produzido e vivido pelo liberalismo ocidental.
Macpherson (1979) levanta três importantes categorias como ideia de democracia liberal e individualismo pluralista participativo como experiências teóricas dos Estados Democráticos Liberais do Ocidente. Ele observa que este arranjo teórico vem desde o século XVII com Hobbes e Benthan que viam "o indivíduo como sendo essencialmente um maximizador e consumidor de utilidades (utilitarismo)". Enquanto que os pensadores neoidealistas Stuart e Green consideravam "os indivíduos em pleno exercício de suas faculdades e potencialidades" (Ibid. p. 261)
O mais importante desse capítulo é uma classificação dos tipos de pluralismo em relação ao indivíduo e a participação nas diferentes esferas socioeconômicas e políticas: Pluralismo religioso – puritanismo do século XVII e capitalismo; Pluralismo humanista e neoidealista – indivíduos insatisfeitos com os limites do desenvolvimento individual impostos pela sociedade de mercado competitivo; Pluralismo do produtor – o anarcosindicalismo francês e socialismo corporativo inglês. Homem produtor governado por suas associações e ausência de forças estatais na condução dos interesses coletivos e individuais; Pluralismo anarquista – completa defesa da autogestão pluralista comunitária. Defendem a substituição do estado por comunidades autônomas; Pluralismo pragmático – A ciência e a tecnologia a serviço do desenvolvimento humano; Pluralismo liberal contemporâneo e ou americano – Apresenta aspectos contraditórios da sociedade de consumo e capitalismo maduro. Um pluralismo político e econômico em que os quadros políticos são empresários enquanto que os eleitores são os consumidores; Pluralismo libertário conservador – Ver o homem como consumidor e os grupos de interesse do indivíduo com o poder de pressionar o jogo do mercado em seu favor.
Estes diversos argumentos dão uma tônica forte ao debate sobre a construção cultural do indivíduo liberal, que a Geografia poderá resgatar para seu universo de reflexão, pois pensar o espaço a partir da ideia de indivíduo e de cultural é uma preocupação que deve ser remetida para a Geografia enquanto uma ciência da social.

Geografia Cultural, Democracia e individualismo

Muitos são os estudos culturais contemporâneos realizados pela geografia ao longo de sua trajetória, sejam apoiados nas teoria social, espacial ou cultural. No entanto, a ideia de Cultura Política, enquanto categoria do universo geográfico, não aparece com tanta freqüência nos textos e contextos do pensamento geográfico. Mas, apostando num caráter holístico, resolvi pensar neste diálogo da Geografia Cultural com outros autores da Ciência Social a partir da ideia de indivíduo e democracia.


Pensar nos Estados Unidos da América (USA), enquanto um espaço de exercício da democracia liberal, foi uma das preocupações do cientista social americano Alex de Tocqueville (ARON, 2000, p. 207). Enfoque este com preocupações relativas a democracia, a liberdade e ao individualismo egoísta culturalmente experimentado pela sociedade Norte AMERICANA.
Trago para esta reflexão uma leitura bastante plural de (MAGALHÃES, 2000, p.141-164), em seu artigo sobre democracia individualista, no qual, ele consegue fazer argumentações teóricas e críticas em relação ao pensamento de Aléxis Tocqueville em relação à história da democracia moderna, em especial a experiência de democracia individualista nos Estados Unidos.
Sua experiência parte da ideia liberal em relação à liberdade, à democracia burguesa e ao individualismo das sociedades modernas.
Existe uma preocupação em relação à revolução democrática, democracia individualista americana, indiferença em relação aos interesses públicos, exercício de uma tirania com o consentimento popular.
Para evitar tais situações, Tocqueville aponta para um "educar a democracia". Sua maior preocupação é a possibilidade que a tirania tem para se vestir de democracia e preencher os espaços deixados entre os interesses e práticas da democracia direta e pelos interesses públicos, substituídos pela democracia indireta e interesses privados individuais.
O Artigo de Magalhães apresenta um conceito mais apurado de democracia e liberdade. Esse conceito se contrapõe ao reducionismo da democracia liberal, exposto por Tocqueville. A democracia como luta de sujeitos impregnados de sua cultura contra a ‘lógica dominadora dos sistemas’. (...) A democracia enquanto um crescente poder social sobre a personalidade e a cultura – democracia como método e exercício de poder. (Touraine, APUD. MAGALHÃES, 2000, p.155).
Considerando a experiência da democracia na perspectiva política de construção espacial de uma cultura social sedimentada nos sujeitos, enquanto indivíduos de poder temos que pensar a relação liberal com a democracia e liberdade de forma crítica. Assim:
“O capitalismo em seu estágio neoliberal projeta o desmantelamento das organizações trabalhistas e busca uma economia totalmente atrelada aos ditames da liberdade de mercado”. A democracia direta é basicamente substituída pela democracia econômica representativa, em que as políticas públicas são desvalorizadas em favor dos interesses das corporações privadas (MAGALHÃES, 2000, p.155).

Fonte: resistir.info

Tocqueville parece ser um dos primeiros teóricos a analisar o individualismo levando em consideração uma realidade empírica, a sociedade AMERICANA do século XIX, ambiente onde o liberalismo político e econômico ganhou maior força, até porque a jovem nação estava aberta para experiências. Assim, os Estados Unidos da América experienciaram a primeira e completa república federativa liberal-democrática burguesa.
A sociedade americana tende a justificar a legitimidade do indivíduo liberal. Considerando que o estado capitalista, constitucional e democrático tenha se desenvolvido ao longo do século XIX e inicio do século XX, mesmo nas suas diferenciações políticas de legitimação do poder (monárquico parlamentarista, republicano, federativo e até ditatorial). O ideal de sociedade burguesa como fato social, estabelecido na adoção de interpretações tanto ideológicas quanto sociológicas; abordagens que conferem a originalidade do liberalismo.
Dupuy (1988, p.77) elege as duas principais obras de Adam Smith como fundamentais na construção da ciência econômica, demonstrando que a análise científica pode ir além da vontade manifestada nos indivíduos.
Primeiramente relaciona a modernidade individualista segundo duas visões: o indivíduo isolado, agindo por si só, autonomamente; e o indivíduo concorrente, que disputa, sem perspectiva de objetivos comuns ou projetos coletivos. Uma ação de gozo ou prazer, desvinculada do outro, ou o tendo apenas enquanto concorrente (DUPUY, 1988, p.79)
Estas argumentações convergem para a doutrina econômica do liberalismo e para as teorias de Adam Smith, versando sobre filosofia econômica e a economia política, no fazer de uma sociedade de indivíduos em sua ordem.
De forma superficial poderia dizer que mesmo existindo uma representação de individualismo, inveja e egoísmo que fragmentam o sujeito moderno. O modelo ou ordem econômico liberal consegue com a sua lógica de agregação produtiva ligar os sujeitos aparentemente individualizados.

 

Dupuy (1988, p.80) surpreende-se com a possibilidade de astúcia da razão ou astúcia da história. No individualismo metodológico os mitos da solidão sublime, romântico e mesmo místicos convergem para a sutileza dos mecanismos e estruturas sociais com indivíduos passivos, sem astúcia coletiva num processo sem sujeitos comuns.
Mesmo havendo algumas contradições argumentativas em relação as diferentes faces do liberalismo e do próprio individualismo, Dupuy (1988) considera como artifício do individualismo liberal três aspectos distintos:
O primeiro trata o indivíduo a partir de uma vontade, consciência de si, razão, força e poder, não predicativo do indivíduo da econômica política, reduzido ao princípio da realidade; O segundo aspecto é a passagem da razão para o estado de sentimento ou ordem sensorial, diferindo da ciência ou economia política; O terceiro aspecto trata do individualismo metodológico, contraditório e baseado na dedução do indivíduo social de matriz ou tradição complexa (DUPUY, 1988, p. 81 e 82).
 O autor apresenta os fundamentos dessa tradição individualista e da ideia de progresso do indivíduo nesse homem econômico, estabelecido pelo individualismo, egoísta e autônomo, satisfeito e sem querer problemas ou conflitos. Soberano de si mesmo e despreocupado com a vida em sociedade, desvinculado do indivíduo do contrato social.
O eixo central de suas análises está em um constante diálogo com as obras de Adam Smith (1776) - Tratados sobre Teoria dos Sentimentos Morais (TSM) e a Riqueza das Nações (RN), são apresentados como bases do conhecimento sobre o domínio da disciplina econômica.
A ordem dos domínios da moral, simpatia e atividade econômica. Estabelecendo uma emancipação da religião, da política e da moral tradicional. Estas obras negam a experiência dos domínios, ou teoria do conflito, apontando para a metáfora da "mão invisível", em que: "(...) Existindo equilíbrio econômico, haverá sobras e caridade espontânea".
(...) A simpatia passa a ser um processo diferente do egoísmo. Quando o indivíduo se coloca ele mesmo no lugar do outro, torna-se sensível e identificado, sofrendo um contágio positivo. (...) os princípios para a teoria da moral, os julgamentos morais de aprovação ou reprovação e o prazer da simpatia recíproca enquanto ideia de sentimento agregado. (...) Este é um dos principais prazeres da existência (SMITH,  1976, p. 90 a 97). Nesse acordo de sentimento agradável, Smith chega ao ideário da simpatia ativa. Os atores sociais passam a representar no teatro social tais sentimentos e valores para uma sociedade equilibrada.
Dupuy (1988) considera a existência de um paradoxo nessa relação em que ator/espectador está em constante cena, simpatizando ou não com o cotidiano e experiências da vida em sociedade. Assim:
Os indivíduos são levados à lógica da imitação (mimética), cópia ou lógica de uma produção, sem saber nem querer. (...) Uma espécie de loucura ignorante do universo do mercado, da incerteza radical e suas probabilidades, interesses e forças obscuras do mercado. (...) O indivíduo como imitação dos outros. Imitação de formas arbitrárias em relação ao indivíduo e da sociedade (DUPUY, 1988, p.100 a 102).
Dupuy (1988), não convencido do ideário Smithiano, destaca que o julgamento individual perde seu valor perante o resto do mundo em relação ao comportamento da média ou da maioria. O mercado financeiro estabelece uma busca desenfreada pelos dividendos na lógica dos preços de mercado.
Destacaria o atual estágio do individualista e monopolista, com a sequente destruição da diversidade cultural, quebra das leis teoricamente naturais da economia de mercado. Outro exemplo, é a oligopolização das corporações capitalistas. Será que o indivíduo perde a astúcia da razão em meio ao novo estágio de centralidade do capital.


Argumentos de DUPUY (1988) em relação aos comportamentos do mercado atual:

Uma psicologia louca dos indivíduos em suas corporações. Ganhador será aquele mais louco, que tiver a coragem de INVESTIR o máximo na sua loucura. Este é o individualismo do sujeito mercantil. (...) Nesta loucura psicológica do mercado, os indivíduos imitam todos os outros. A imitação da imitação enquanto potencialidade. Um sistema de atores em que todos se imitam na loucura do objeto mais inesperado. (...) O jogo especulativo em que cada um rouba dos outros, convencidos da vantagem (DUPUY, 1988, p. 101 a 105).


Para o autor, esse é um comportamento como razão individual a serviço da loucura individualista. A razão do mercado em títulos líquidos, suprimindo as instituições e ao longo do tempo desestruturando todo o mundo do capital físico ou (produtivo) real, em que a racionalidade fica presa nas regras e julgo do mercado.
Estas argumentações são percebidas com muita clareza no neoliberalismo contemporâneo. O indivíduo imerso na complexidade social.
Estas são talvez as grandes linhas da filosofia social, política e moral. Com experiências no campo do individualismo, anarquia, estado e utopia, argumentando em linhas gerais sobre lei, legislação e liberdade, e principalmente demonstrando a preocupação com a questão do indivíduo e a teoria de justiça social.
Em meio a essa fogueira de ideias Dupuy (1988), argumenta que o indivíduo deve encontrar sua autonomia frente às contradições impostas quotidianamente, buscando um censo de justiça racional partilhada com seus semelhantes. Defende também uma teoria econômica racional não apenas em relação ao indivíduo, mas ao grupo que ele pertence. Uma ideia de individualismo radical, estabelecido a partir do total respeito dado a uma pessoa humana.
Uma hierarquia encabrestada em que o homem é subordinado a totalidade social manipulada. A complexidade do estado justo, repartição justa para o indivíduo. A cada um segundo seus méritos e capacidade, aceitação de justiça, liberdade enquanto estado de legalidade, ou justiça processual pura (DUPUY, 1988, p. 112).
No atual estágio, uma representação cada vez mais distante da teoria do conflito de classes e muito mais próxima dos indivíduos e seus interesses privados. Essa lógica de representação em que o governo se limita em atender as satisfações e direitos individuais restringe o espaço ao corpus individual, O espaço enquanto cultura produzida coletivamente perde sentido enquanto fragmentação e estilhaços de cada individualidade.
Um jogo em que os indivíduos estabelecem a concorrência e rivalidade. Os indivíduos reagem segundo uma aceitação do modelo social como um jogo de concorrência e luta para vencer o outro e ser o melhor, o mais capaz. Um vencedor e bem sucedido individualista incluído ao grupo que reconhece esse princípio da forma consensual. (DUPUY, 1988, p. 112).
Fonte: www.uni-vos.com 

O individualismo metodológico pode ser considerado um caminho de análise satisfatório da realidade social, pois o indivíduo e a propriedade privada são bases na construção teórica do liberalismo, raiz de categorias como o contrato social, democracia liberal e do liberalismo político que representam os interesses individuais como sendo sociais.
Dizer que todas estas argumentações em relação à construção do indivíduo liberal já tenham consolidado tal experiência pode representar uma ideia frágil. As novas e vivas experiências nas relações entre os interesses do indivíduo e os interesses sociais devem ser pensadas pela Geografia Cultural na perspectiva do espaço. A compreensão de que o plano teórico do individualismo foi alimentado como ideia de plena liberdade da sociedade ocidental, pode ser um ideário da liberdade e do indivíduo em relação às instituições e a própria sociedade.
O próprio conceito de liberdade foi ao longo do tempo dissociado da categoria igualdade e as contradições existentes no seio da vida social vinculada a restrita liberdade do indivíduo. O individualismo consolida um ideário em que o interesse do indivíduo é a medida de todas as coisas e que a sociedade deve se moldar aos interesses deste. Parece até que não existe a necessidade de luta por este ou aquele modelo social, pois a sociedade de certa forma retira do indivíduo o exercício de sua liberdade e o seu próprio projeto de interesse individual.
No atual estágio de desenvolvimento tecnológico e científico (mecatrônica, microeletrônica, inteligência artificial e cibernética), o universo de homens livres e vazios de capital e de trabalho é muito forte. Indivíduos descartáveis perambulando pelas avenidas das grandes metrópoles sem um lugar definido e, capturados pelo capital, vivem suas contradições.
Considerando à liberdade individual como singularidade humana. A questão é: O indivíduo liberal será capaz de no atual estágio de desenvolvimento, gerar um equilíbrio entre os interesses individuais e coletivos? Ou prevalecerá a instauração de um "reinado da soberania individual ou Associação de Egoístas"?
O "Estado Soberano" construído ao longo da história consolidou o indivíduo liberal possessivo discutido e analisado por Macpherson ao longo da sua teoria política do individualismo possessivo. Mas a questão da propriedade como sendo apenas de alguns indivíduos, gera uma sociedade de desigualdades conflitantes e de exclusão societária.

Os sentimentos e práticas de solidariedade, cooperação, mutualismo e reciprocidade enquanto fortalecedores do indivíduo e eliminadores do egoísmo individualista não conseguiram sustentação na sociedade liberal. Mesmo assim, o ideário coletivista e societário, continua sendo pensado em diferentes esferas da sociedade liberal.
Para finalizar este artigo considera a seguinte questão: A propriedade como domínio do coletivo e posse do indivíduo para que este desempenhe livremente as suas potencialidades de produtor independente e coletivamente associado, ainda poderá ser um princípio possível de resgate para a sociedade liberal democrática?

Bibliografia
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