segunda-feira, 25 de junho de 2012

Geografia Cultural do Culto a pobreza: encontros com a Cidadania Incompleta.




 Foto de Belarmino Mariano - João Pessoa/PB - 2007

Texto de:
Belarmino Mariano Neto.

"Miséria é miséria em qualquer quanto. Riquezas são diferentes. A fome está em toda parte. (...) Índio, mulato, preto, branco. (...) A morte não causa mais espanto (...) Cores, raças, castas. Riquezas são diferentes." (Arnaldo Antunes/Sérgio Brito/Paulo Miklos, Titãs, BMG/Ariola, São Paulo, 1992)


Este trabalho objetiva relacionar idéias sobre a cultura da pobreza e a pobreza propriamente dita. Neste sentido, usaremos os escritos de Lewis (1969), A Cultura da Pobreza. E Mueller (1997) em um artigo que trata da Degradação da Pobreza no Brasil. Além de variados exemplos pertinentes ao tema, para substanciar nossa visão de pobreza enquanto uma condição social com viés físico ou material, e culturais. Sendo representados nos dias atuais como parâmetros para uma cidadania incompleta.

Antes de enveredarmos pelos conceitos de Cultura da Pobreza, propostos por Lewis, ou pela degradação da pobreza de Muelle, enfatizaremos alguns cultuadores da pobreza como padres, poetas e pintores. Isto é, aqueles que vivem da cultura da pobreza e que geralmente não vivem na pobreza ou em sua cultura.

Os padres por fazerem seus votos de pobreza em uma visão do Cristo Primitivo, defensor de um reino em que os pobres seriam os bem aventurados. Pois para o cristianismo, seria "mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, de que um rico entrar no reino do céu". Os Franciscanos são um excelente exemplo dos cultuadores da pobreza.

Os poetas quando falam dos moribundos que perambulam pelas calçadas da vida, ou quando se alimentam com os restos podres da cidade. Ou quando escrevem sobre camas de papelão nos quartos de calçadas das grandes lojas de departamento que embalam os sonhos de cola dos meninos e meninas de rua.

Os pintores que povoam suas telas com uma geografia dos miseráveis, expressões de desconcerto do olhar, crianças barrigudas e casebres de taipa enquadrados e fixos, seguem expostos pelas ruas avenidas dos mais recônditos lugares.

O jans saído das fábricas e oficinas carregados de graça e fuligem em corpos operários, ganhou as ruas e passarelas da moda mundial. A cultura da pobreza lida pelo rústico e pela simplicidade do não ter, do despossuir tonificou esse modelo ou desenho social que serve de protesto e consumo, nos deixando confundidos, entre a cena, o cenário e a poesia do mercado concreto em seus diversos papeis.

O sonho de casamentos e amores impossíveis entre protagonistas ricos e pobres são os motivos de vasta literatura em que as tramas são construídas em dramas, tragédias e comédias. Aparecendo enquadrados pelos sonhos dos pobres encarcerados em seu real e pela "fome dos meninos que têm fome". E que geralmente, só se realizam nos melodramas das telenovelas "globais."

Lewis (1969), conceitua a Cultura da pobreza como sendo tanto uma adaptação quanto uma reação dos pobres a sua posição marginal numa sociedade estratificada em classes, altamente individualista, capitalista. Representa um esforço para enfrentar os sentimentos de desesperança e desespero que se desenvolvem quando verificam a impossibilidade de alcançar êxito de acordo com os valores e objetivos da sociedade envolvente.

Nesse contexto, temos como estrutura lógica da cultura da pobreza um modo de vida de parte da sociedade, na qual, suas características se materializam em diferentes momentos históricos, emergindo com maior força na sociedade moderna, em que, a idéia de pobreza e a natureza da pobreza toma maior corpo físico.

Tanto do ponto de vista de indivíduos, como de famílias, passando por regiões e países. A cultura da pobreza assume perfil espacial ou territorial, determinada pelas condições de classe, valores e atitudes que os pobres, assumido, tanto individualmente quanto coletivamente. Essa pobreza enquanto privação e dificuldades materiais vai se transformando em um modo de vida a ser transmitido pela sociedade e pela família.

Podemos pensar na origem da cultura da pobreza e não conseguimos data-la, mas a lógica aponta para os primeiros passos da história de exclusão, escravidão e submissão de povos ao longo das civilizações.

Na atualidade, podemos pensar nos Astecas do Novo México e nos negros de algum morro do Rio de Janeiro e lhes colocar tão distantes e tão próximos, pois ambos estão inseridos no contexto histórico da Cultura da pobreza. Pois foram submetidos aos choques culturais do início da modernidade. Um tempo tão presente que em menos de quinhentos anos globalizou a pobreza e condicionou homens, mulheres e crianças a condição subumana de alienação material e intelectual.

A quebra dos modelos tradicionais de organização social, pautados na comunhão, na solidariedade e no coletivismo, são condições favoráveis a instituição da cultura da pobreza. Isso, todos podemos ver em função dos ritmos acelerados de modernização. Quando essa quebra se processa, temos o florescer da cultura da pobreza como uma subcultura da sociedade.

O mudo social desajustado, cria relações de dominação do homem pelo homem. Estes são os pré requisitos mínimos para uma forte carga política e ideológica das experiências humanas. Temos então, as condições de segregação, violência, fome, subdesenvolvimento e exploração como molas propulsoras da cultura da pobreza. Na qual, os pobres vão em meio a sua realidade, incutindo geração após geração, um forte sentimento de marginalidade, de desamparo, de dependência, de inferioridade, de infortúnio e falta de aspirações.

No contexto Brasileiro, temos uma acentuada presença da cultura da pobreza, engendrada pelo modelo de desenvolvimento adotado neste país. Para entendermos a cultura da pobreza e sua materialização no Brasil, teremos como suporte o texto de Mueller (1997), que ao tratar da degradação da pobreza, especialmente nas cinco últimas décadas, faz uma crítica ao estilo de desenvolvimento adotado e como a ecologia econômica pode apontar soluções para as questões socioambientais em relação as camadas pobres da sociedade brasileira.

O autor ao identificar o modelo de desenvolvimento adotado no Brasil, como sendo desigual, ele busca em alguns indicadores socioambientais os argumentos que justificam a degradação dos pobres.

Os maiores problemas da pobreza no Brasil da atualidade, estão na concentração urbana dos pobres, na degradação sanitária, na desigual distribuição

O Brasil a partir dos anos cinqüenta, começou a viver um surto de modernização (industrialização, urbanização e crescimento econômico). Na verdade, esse modelo foi limitado e concentrado em áreas do Centro - Sul do país, gerando uma concentração urbana da pobreza.

A partir dos anos 70 a modernização da sociedade atinge o campo. Esse momento será marcado pelos CAI’s (complexos agro-industriais). Identificado como modernização conservadora da agricultura, onde máquinas, ferramentas e produtos da indústria são produzidos para ampliar a produção agrícola. Modernização conservadora, pois não alterou a estrutura fundiária do país, que pela falta de uma reforma agrária nacional, favoreceu um forte deslocamentos de pessoas pobres do campo para os grandes e médios centros urbanos do país.

A migração rural - urbana em nosso país, gerou diferentes instalações da pobreza nos grandes centros urbanos, onde a submoradia, as deficiências sanitárias e os prejuízos ambientas são alguns dos aspectos da cultura da pobreza no Brasil.

Este estilo de desenvolvimento desigual, gerou uma urbanização da pobreza, com grades aglomerados populacionais, onde os bolsões de miseráveis são territorialmente expressivos. Pobres espremidos em áreas de riscos que na maioria das vezes são ilegais perante o poder público, não assistindo estas áreas de uma infra estrutura básica (água encanada, instalações sanitárias, eletrificação, saúde, educação, etc.).

Os assentamentos de pobres, são áreas ambientalmente frágeis e fora do zoneamento urbano. Em função das mínimas condições de instalação, com: elevados riscos de desabamento, sujeitas as enchentes, sem estrutura sanitária, pequenos espaços para famílias numerosas e as vezes agregadas, com acústica desapropriada para os altos ruídos, sem condições para se contrapor as variações de temperatura e vulnerável a sujeira, aos ratos, baratas e diversos tipos de doenças infecto-contagiosas.

Este é uma quadro pintado pela realidade dos grandes centros urbanos do país. Áreas como a Grande São Paulo e Rio de Janeiro, Salvador, Recife e todas as outras grandes e médias cidades brasileiras. São comuns as favelas, mocambos e palafitas em áreas de encostas, morros, no limites de movimentadas rodovias ou em baixo das redes de alta tensão elétrica.

As estimativas de 1960, feitas pelo IBGE, indicavam aproximadamente 16 milhões de pobres no Brasil. Em 1998, este número já estava na casa dos 45 milhões de pobres, amontoados em especial nos grandes centros urbanos.

A falta de assistência pública de serviços básicos é lamentável. Em muitos casos não existe água encanada e a colete de lixo nem sempre é feita, além da falta de instalações sanitárias, geram um acumulo de lixo, dejetos humanos e consumo de águas contaminadas que são os principais indicadores de doenças infecto-contagiosas.

A pobreza em nosso país é geral. Nas três últimas décadas acentuou-se mais ainda em função da grande concentração de renda e das disparidades regionais.

O crescimento econômico do Brasil, não veio acompanhado das melhorias sociais para a população de baixa renda, ficando excluída do consumo, de saúde, educação, moradia, qualificação, lazer, etc. Este modelo de desenvolvimento, concentrador e excludente, gerou disparidades regionais ainda maiores. Temos as regiões Nordeste e Norte como áreas marcadas fortemente pela pobreza de sua população.

Nessa cultura da pobreza, temos uma forte cobrança dos deveres e obrigações dos pobres, que vão desde a obrigatoriedade do voto para os analfabetos até ocupação em alguma atividade (produção), mas a estes mesmos pobres, são negados os direitos e garantias mínimas. É isto que identificamos como a cidadania incompleta, como raiz de sustentação da cultura e da degradação da pobreza, tanto a nível global, como a nível nacional, regional e local.

Notas:

LEWIS, Oscar. La Vida: a Puerto Rican Family in the Culture of Poverty: San Juan & New York, London (Panther Books), 1969. Tradução de F. Moonem.

2. MUELLER, Charles C. Problemas Ambientais de um Estilo de Desenvolvimento: A Degradação da Pobreza no Brasil. UnB/ Brasília: Ambiente e Sociedade - Ano I - nº 1 - 2º semestre de 1997.

3 Cf. Adriana Calcanhoto, Esquadros. Senhas. São Paulo: BMG/Ariola, 1996.




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sexta-feira, 22 de junho de 2012

RIO+20: DA FARSA ECOLÓGICA AS UTOPIAS DELETADAS.

                                        Foto: Érica Gomes da Costa Mariano, Vale do Pajeú/PE, 2007.

Texto de: Belarmino Mariano Neto (belogeo@yahoo.com.br)
 

“A noção de que o homem deve dominar a natureza vem diretamente da dominação do homem pelo homem” (BOOKCHIN, 1992, p.17).


Em 1992, o Anarquista pernambucano Roberto Freire fez uma dura crítica ao modo de produção capitalista dizendo que se tratava de uma Farsa ecológica o que aconteceu na Rio-92, pois se discursava sobre a ideia de desenvolvimento sustentável. No fundo a ideia aparente que prevaleceu a partir da Rio-92, com a Agenda 21, parecia uma tentativa internacional em barrar as agressões que o sistema capitalista efetuava contra o patrimônio natural e contra as pessoas, que em grande parte do planeta viviam e ainda vivem abaixo da linha da pobreza.

A Rio+20 é uma versão muito piorada o que ocorreu em 1992 na Cúpula do Rio de Janeiro, articulada pelas Nações Unidas (ONU) para o meio ambiente e para a sociedade. Mas na verdade, foram encobertas as intenções que esse sistema em sua fase de crise aguda reserva para o resto de natureza e humanidade. O modo de produção capitalista não se sustenta ecologicamente e agoniza crises sem precedentes em sua curta história de pouco mais que quinhentos anos. Seguir esse sistema é apostar na destruição socioambiental presente e futura.

Parafraseando Freira (1992) a farsa ecológica se repetiu na rio+20. Venceu a tese dos capitalistas degradadores e os representantes de governos e de Estados, advogou em defesa dessa tese antiecológica, inclusive o governo brasileiro, pois sabendo desse encontro, tratou de permitir que o novo código florestal entrasse em pauta no Congresso Nacional, para regularizar os crimes ambientais passados e recentes, bem como autorizar o avanço das serras em área ambientais do país.

A humanidade ficou mais pobre essa semana e não lhes resta mais quase nada de esperança no que tange as questões socioambientais presentes e futuras. A rio+20 enterrou em grande parte os passos dados a 20 ou 30 anos de preocupações com o meio ambiente. De fato os movimentos sociais não foram ouvidos, não conseguiram incluir nesse novo documento, as verdadeiras preocupações em relação as crises socioambientais existentes hoje e que se agravarão nesses 20 anos que seguem.

Este ainda é o nosso saldo: agressões ao meio ambiente - poluição atmosférica, poluição dos mares, poluição dos rios, poluição dos alimentos, desmatamento, extinção de espécies da fauna e da flora são quase todas permitidas pelos estados modernos e praticadas direta ou indiretamente por empresas capitalistas, que obedecendo às normas do mercado, buscam o maior lucro, custe o que custar para a natureza e para os seres humanos.

 A ecologia política, como movimento dos trabalhadores de inspiração marxista, baseia-se numa crítica – e numa análise, numa compreensão teórica – da “ordem das coisas existentes”. Mais especificamente, Marx e os verdes enfocam um setor muito preciso do mundo real: a relação humanidade-natureza e, ainda mais precisamente, as relações entre as pessoas que se aplicam à natureza, ou o que os marxistas chamam de “forças produtivas” (LEPIETZ, 2003, p.9-10).

O que destaco nesse arranjo teórico é uma nítida aproximação estabelecida entre o pensamento marxista de critica ao modo de produção e exploração capitalista e que a ecologia política incorpora em um novo discurso crítico que inclui agora as questões de ordem socioambiental.

Os diferentes estágios da humanidade são os diferenciais sociais em diferentes espaços. A produção do espaço geográfico é extremamente contraditória e afronta diretamente a natureza em todos os sentidos. “A noção de que o homem deve dominar a natureza vem diretamente da dominação do homem pelo homem” (BOOKCHIN, 1992, p.17).

            Para Mariano Neto (2001, p.62), esta sociedade baseada no produzir por produzir, no lucrar em detrimento da natureza e do humano é vista como mercadoria de uns poucos, o reino natural é uma mera manufatura para o desenfreado mundo comercial e da concorrência. Essa sociedade gerou a globalização que de fato é uma submundialização, pois os impactos sobre as condições socioambientais estão levando a humanidade para atrasos sem precedentes na história.

a questão da pobreza humana no ambiente e mais particularmente sua estrutura social, com mudanças recentes em nível de padrão técnico e as condições de vida, trabalho, moradia na periferia das cidades marcam um ambiente de profundas contradições. Estes argumentos estão todos focados pela ecologia política, pois quando se pensa tanto em termos de uma ecologia cultural, quanto em termos de uma economia política, depara-se com as contradições estabelecidas ao longo do histórico e contraditório sistema capitalista.

Na contramão da rio+20 capitalista, a sociedade precisa reagir de maneira organizada. Nesse sentido, anarquistas e comunistas, mulheres, negros, índios, jovens, religiosos, universitários, partidos políticos de matriz ecológica e anticapitalista, ONG´s sérias, entre outros, precisam focar na defesa de uma sociedade ecológica como afirma Bookchin (1992).

                Existe um novo discurso expresso em uma metanarrativa do mundo, da sociedade e do ambiente em que o meio ambiente e a sociedade começam a ser entendidos a partir de categorias concretas da história. Nesse sentido, novos arranjos e desenhos da existência humana se expressam nas concrectudes do mundo. Autores como Faladori (2001), que trata a questão da sustentabilidade a partir dos limites do desenvolvimento e das crises ambientais do presente; Duarte (1986), que faz uma leitura de Karl Marx em relação à natureza em O Capital; Lipietz (2003), que estabelece um paralelo entre a ecologia política e o futuro do marxismo; Boeira (2002), por considerar a ecologia política enquanto um campo transdisciplinar; Alimonda (2001), que apresenta vários apontamentos sobre a ecologia política na América Latina de tradição marxista; Bookchin (2003), que apresenta uma preocupação básica em relação a ecologia social; Santos (2001), por fazer uma profunda crítica ao atual modo de vida capitalista e ao processo de globalização.

            Com certeza, todos estes pensadores são críticos desse modelo cupular de encontro para tratar de um tema que interessa a toda a humanidade e concordam com uma coisa, não existem milagres, nem salvação do meio ambiente e da humanidade nesse sistema de perversidade contra o patrimônio natural e contra a humanidade. A ecologia política e o materialismo estão teoricamente preocupados em compreender a realidade social em dinâmicas materializadas, mas em se tratando de natureza a máxima vale também, pois o homem é primeiramente natureza.

El libro de Paul Burkett es uma respuesta exhaustiva a estas interpre-trações. Mediante uma prolija exposición de la relación entre el pensamiento marxista y la problemática ambiental llega a três conclusões. Primero, que el método de Marx, el materialismo histórico, contiene uma teoria de la coevolución sociedad-naturaleza que al contrario de desmerecer el papel da la naturaleza em la evolución de la sociedad, permite entende sus interrelaciones. Segundo, que la aplicación de dicho método al sistema capitalista plasmado em su principal obra El Capital y em outras secundárias, explica por que y como el sistema capitalista lleva intrínseca la tendência a considerar a la naturaleza sólo como mercancía  que puede generar lucros privados, y no como una riqueza em sí y parte Del bienestar de la sociedad humana. Y terceiro, que la superación Del sistema capitalista por uma sociedade de productores associados - objetivo de toda la actividad política e intectual de Marx (BURKETT, 1999, apud: FALADORI, 2001, p. 135)

É importante dizer que a sociedade capitalista levou ao extremo as contradições historicamente estabelecidas na relação sociedade e natureza, tanto em relação à proporcionalidade material (quantitativa e qualitativa) necessária para reprodução da sociedade, quanto na ideia de valores e acumulação capitalista que podem ser identificadas como responsáveis por profundas transformações sócio-espaciais refletidas enquanto crises ecológicas do presente. A sociedade envolvida e as dinâmicas do meio ambiente que hoje são representadas por profundas alterações socioambientais, demonstram uma nítida combinação de atividades em situações conflitantes. No atual estágio de desenvolvimento científico, tecnológico e informacional, os problemas de ordem ecológica, econômica e social apontam para desequilíbrios naturais e conflitos sociais nunca vistos pela humanidade.

Para lá sociedad humana - según Marx - la riqueza es resultado de ‘a process in which both man and nature participate’.[1] Pero no sólo la naturaleza externa forma parte de la riqueza humana; el próprio trabajo actúa como mediación es, también, naturaleza. Com estas anotaciones Burkett ya rebate muchas de las críticas vulgares al marxismo. Y, lo que es más importante, muestra cómo la separación de la sociedad respecto de su naturaleza externa no es um hecho dado sino um resultado histórico. Lo que requiera explicación es precisamente la separación Del trabajador de sus condiciones natureles de vida, forma que adquire su máxima expresión com el capitalismo (BURKETT, 1999. Apud: FALADORI, 2001, p.136).

Para tanto é preciso uma profunda compreensão da história socioeconômica política, cultural e técnica estabelecidas, levando em conta os processos de apropriação da natureza em seus diferentes estágios e níveis. Esta é a principal preocupação do que considero enquanto ecologia política, pois entendo que os ecossistemas naturais, sistemas agrícolas e sistemas urbanos são focos de diferentes estudos. Nesse sentido existe uma convergência epistemológica das ciências sociais e naturais que aponta na direção das questões ambientais, não apenas enquanto campo da biologia, ecologia ou geografia. Pois “o ambiente não é a ecologia, mas a complexidade do mundo” (LEFF, 2001, p.139).
 


A Ecologia não trata apenas das questões ligadas ao verde ou às espécies em extinção. A Ecologia significa um novo paradigma, quer dizer, uma nova forma de organizar o conjunto de relações dos seres humanos entre si, com a natureza e com o seu sentido neste universo. A Ecologia inaugura uma nova aliança com a criação, aliança de veneração e de fraternidade. Não fomos criados para estarmos sobre a natureza como quem domina, mas para estarmos junto com ela como quem convive como irmãos e irmãs. Descobrimos assim nossas raízes cósmicas e nossa cidadania terrenal (BOFF, 1995, p. 06).


            Mesmo com a rio+20 fracassada, não podemos cruzar os braços diante desse modelo socioeconômico degradador. Temos sim que apostar em uma sociedade ecológica e isso passa obrigatoriamente pela destruição desse modo consumista e degradador da natureza e da humanidade.

Guarabira, 22 de junho de 2012

Referências



ALIMONDA, Hector. Uma herencia em Comala (Apuntes sobre Ecologia Política Latinoamericana y la tradición marxista). In. Ambiente & sociedade. Campinas/SP: NEPAM/UNICAMP, 2001.

BOFF, Leonardo. ECOLOGIA Grito da Terra, Grito dos Pobres. São Paulo: Ática, 1995

BOOKCHIN, Murray. Por uma Ecologia Social. Rio de Janeiro: Utopia, nº 4, 1992.

BOEIRA, Sérgio Luís. Ecologia Política: Guerreiro Ramos e Fritjof Capra. In. Ambiente e Sociedade. Campinas/SP: NEPAM/UNICAMP, 2002.

BURKETT, Paul. Marx and Nature. A red and green perspective. In: FALADORI, Guillermo. Ambiente & Sociedade. Campinas/SP: NEPAM/UNICAMP, 2001.

DUARTE, Rodrigo A. de Paiva. Marx e a Natureza em O Capital. São Paulo, Edições Loyola, 1986.

FALADORI, Guillermo. Sustentabilidad Ambiental y Contradiccines Sociales. In. Ambiente & Socieade. Campinas/SP: NEPAM/UNICAMP, 1999.

FALADORI, Guillermo. Limites do Desenvolvimento Sustentável. Campinas/SP: Editora da Unicamp, 2001.

FREIRE, Roberto. A Farsa Ecológica. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1992.

LEFF, Henrique. Epistemologia Ambiental. São Paulo: Cortez, 2001.

LIPIETZ, Alain. A Ecologia Política e o Futuro do Marxismo. In. Sociedade & Ambiente. Campinas/SP: NEPAM/UNICAMP, 2003.

MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política; Livro primeiro: O processo de produção do capital. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1985.

MARX, Karl. Manuscritos Econômicos e Filosóficos. São Paulo: Martin Claret, 2001.

MARIANO NETO, Belarmino. Ecologia e Imaginário – Memória cultural, natureza e submundialização. João Pessoa: Editora da UFPB, 2001.






[1] Traduzindo: “um processo no qual homem e natureza participam”.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Feita de nuvem



                                          
Belarmino Mariano Neto (belogeo@yahoo.com.br)


Desde muito tempo que todas as noites ela aparecia na vidraça do casarão azul. Sempre às 23 horas e 59 minutos. Seus olhos de coloração azulada, simplesmente ficavam acessos e diante daquele ambiente de pouca luz que escorria pela rua, seu olhar de cristal avermelhado lembrava chamas de velas. Era um ambiente sombrio e pouco movimentado no qual a lâmpada do poste flertava com a copa das castanheiras e da sua vidraça ela espiava a vida passando lá fora. Noite após noite, ano após ano aquela cena se repetia como em um ritual de incertezas e esperas constantes. O casarão azul era uma construção do fim do século XIX e ganhara esse nome devido aos azulejos portugueses que formavam uma espécie de céu em um mosaico de nuvens com tons suaves.
No primeiro andar do casarão existia uma grande janela arqueada em meia lua e, pintada de branco, ostentava uma vidraça em formatos quadrados, retangulares e triangulares. Ela encostava-se na janela entre aberta olhando para a rua quase deserta. Entre os tons verde, azul, amarelo e roxo dos vidros percebia-se um lustre antigo em forma de pendulo escorrendo cristais de luz permanentemente acesa.
Como no movimento de um caleidoscópio ela aparecia na fresta da janela de vidros multicoloridos que contrastavam com a penumbra da noite. Seu olhar para rua capturava cenas e entre a pouca luminosidade, pedestres apressados, gatos, cães e ciclistas passavam sem perceber aquela presença feminina. Nem ela se percebia, até que no dia dois de novembro do ano dois mil, a zero hora, ela saiu daquela posição e virando-se para a sala, viu o próprio corpo enforcado na linha central do casarão de escombros. Na sua projeção percebeu que estava holograficamente capturada pelas vidraças de um gigantesco e multicolorido Shopping Center e fascinada com aquele novo universo passou a passear livremente pelas vitrines das lojas. Os seguranças da noite perceberam com estranheza que um calor feminino arrepiava-os todas as noites, até que um velho freqüentador do local lhes contou o episódio do casarão e da moça.


quinta-feira, 7 de junho de 2012

Cartografias do envelhecimento

                                         Fonte: imagem adaptada de artenocorpo.com


Belarmino Mariano Neto 

Antiquários envelhecidos arquitetam o olho do tempo, revestindo suas dependências de enigmas como se as soleiras do portal fossem amalgamas para uma ordem ou missão dos templários. Os antiquários são territórios do vivido, das memórias, das lembranças, dos esquecimentos e da senhora que pede passagem para o grande mestre que a todos consome. 
Posso ver aquela mulher sentada na soleira da porta de entrada do velho casarão aparentemente desabitado. Uma construção do começo do século passado, com varandas semi-abertas, sustentadas por oito grossas colunas e quatro grandes janelas de madeira maciça pintadas com um verde envelhecido e que emolduram a parede da frente do casarão. 
Os seus pés descalços tocam o piso do terraço, piso de um mosaico quadriculado em tons branco e vermelho muito desgastado. A porta também de madeira maciça e entreaberta representa um umbral com tons esverdeados e camadas descascadas de um azul interno, indicando sobreposição de uma pintura há muito tempo encoberta pelo verde sem vigor, muito mais fuligem, mofo e poeira, que a própria tinta. 
Ela é a guardiã do templo e senhora do tempo. Uma mulher branca e manchada de sardas guarda em si o véu da virgindade sem maculas. Aparenta uns noventa e sete anos vividos, com os quais demarca o ritual de passagem pelo portal para adentrar o casarão dos seus próprios sonhos. 
Pelo transparente e fino tecido de suas vestes, notei em seu corpo, uma gigantesca e enrugada tatuagem que representa a cartografia do desejo e as rotas da solidão. As linhas, as curvas e o sinuoso entrecruzado das mesmas, espalham-se pelos seus ombros, abdômen e costa, representando sentidos de subterrâneos sem começo, sem meio, nem fim. 
As linhas da tatuagem cartografada em seu corpo, escorrem por todos os lados das suas coxas e pernas. Em tons de azul envelhecido, a finura das linhas tatuadas na sua pele, disputa espaço com o fino tecido do tempo, indicando sentidos desconexos, como se fossem garatujas de um passado distante. Escritos inelegíveis, configurações divergentes e sem pontos de partidas, confundem o sentido da visão. 
Dos bicos dos seus seios, escorrem idéias de montanhas sulcadas e desgastadas pela erosão dos olhares masculinos e na couraça da sua pele, desnudam sinuosidades enrugadas que lembram rios intermitentes com intensa lixiviação. 
A mulher em sardas, esconde em seu dorso símbolos e enigmas de um mapa desenhando e legendado por códigos desconhecidos. Talvez representando uma língua morta ou traçados feitos para confundir os aventureiros, encantando-os para sempre em um cego tatear de estrelas que já não existem mais. Observando o mapa de sua pele, percebi a existência de trilhas apontando para recônditos lugares e vazios abismáticos. 
Em um suave e lento movimentar das suas mãos, observei o traçado de uma vida de longa solidão em seu destino. Uma vida de nevasca eterna, de fina e invisível areia escorrendo por entre os seus dedos delicados. Enroscados pelos seus antebraços, vi a figura de dois dragões sobrevoando sua alma, sua calma e sua alegria. Nos seus braços, duas serpentes alimentam-se da espera e do imprevisível. E, entre as cobras e os dragões, uma seqüência de desenhos tribais, como se representassem uma dança de imagens solares e lunares rodopiando pelo vazio enigmático do seu olhar. 
Em seu corpo, uma cartografia de desenhos, arranjos e relações encobertos por pesadas camadas do tempo. Um tempo esfíngico mistura carne e pedra, dando forma à envelhecida mulher sentada na soleira daquele lugar. Naquele canto da casa, na porta de entrada. Ali, ela repousa o corpo na forra do portal e pelo clarão da manhã percebi que o casarão encontra-se totalmente destelhado, sem linhas, caibros e ripas. 
O Céu com sua abertura de luz e atmosfera nua tocam os cantos do terraço do casarão e algumas colunas, inclinam suas sobras sobre as paredes envelhecidas do espaço oco. Num jogo fotográfico de luz e sombra, nuvens cinza cruzam o ilusório céu azul e, seguindo a rotação da Terra espalha sombras suaves pelo mosaico desgastado do terraço, marcado com invisíveis pisadas não se sabe de quem. 
Por todo o seu corpo feminino, estão esculpidos os sulcos do tempo, manchas solares e cicatrizes de amores desfeitos, escombros de paredes descascadas em suas dezenas de camadas de tintas. O tempo escorre profundas rugas pela sequidão diária do seu corpo e nas entranhas de sua pele uma marca cicatrizada indica a cratera de uma grande queimadura que brota na altura do seu coração. 
Esta mulher é o casarão habitado por ela própria. Sua carne se mistura com a pedra e o barro da construção, em uma cartografia de sentimentos e vazios que dão sentido a vida envelhecida. Seus olhos esverdeados e pesados marejam um olhar em sua face nua e o verde apagado da porta entreaberta lhe permite pedaços de sentidos de um olhar distante e vazio de presenças. 
Com os últimos raios do sol, desce o anoitecer e ela levanta-se da velha soleira, entra no casarão destelhado e fecha a porta na própria face, levando consigo o que restava do tempo. Sem luz, o brilho esverdeado dos seus olhos, perdeu de vê de vez o que talvez não veja nunca mais. 

LACTEUS OCCASUS

Belarmino Mariano Neto, belogeo@yahoo.com.br
Na sociedade em ruínas, a qualidade de vida foi substituída pela quantidade e mais de sete bilhões de seres humanos disputam espaço de poder no qual a crueldade é vista com naturalidade por quase todos. Existe uma gigantesca corporação de carnívoros que aprisiona, abate e comercializa a carne dos vegetarianos em rituais de manutenção da espécie humana.
Fruto dessa tirania e carnificina, os filhos da espécie vegetariana são gerados por inseminação artificial e ao nascer, separados de suas mães e aprisionados em pequenos cubículos, perdem o completo contato materno. O direito ao aleitamento direto do peito é cruelmente negado e estes filhos, violentamente separados das suas mães são amamentados artificialmente com o leite de outras lactantes para que haja uma quebra dos vínculos afetivos e emocionais e o sentimento de maternidade seja totalmente destruído.
Os filhos são criados distantes do contato com a luz natural e em celas extremamente apertadas, num ambiente com baixíssima luminosidade, pouca aeração e redutores de ruídos. Uma rigorosa dieta apenas de leite, acrescida de hormônios de crescimento, antibióticos e vacinas é medicada para que não adoeçam e cresçam mais rápido que o natural.
Existe um metódico e artificial controle na definição sexual dos nascidos e as filhas seguem o mesmo destino das mães que vivem acorrentadas pelo pescoço e em idade adulta, serão usurpadas dos seus direitos naturais maternos de criar os filhos. Elas são obrigadas pela cruel corporação carnivora dos mercadores de cadáveres a gerar filhos para alimentar o sistema dominante.
O leite não pode ser consumido diretamente pelos filhos apartados e fica comprimido nos peitos enrijecidos das lactantes. Para ser extraído, acionam um equipamento eletromagnético de alta resolução que suga o leite para ser servido na dieta dos filhos nascidos de outras mães. Este mecanismo de extração do leite é violento, cruel e desumano, provocando profunda dor, gemidos e momentânea paralisia neurológica das mães acorrentadas em seus pequenos espaços de confinamento.
O recém-nascido é aprisionado individualmente pelos pés, braços e pescoço e passa quase todo o tempo paralisado de qualquer movimento. Para mantê-lo constantemente acordado e se alimentando, os carrascos aplicam choques elétricos em suas nádegas. A dieta estabelecida não permite a adição de água nem de sólidos e como é basicamente do leite, torna-se rica em cálcio e extremamente pobre em ferro, atrelado à completa ausência de luz natural, deixa estes seres vivos completamente anêmicos.
O corpo destes animais é obeso e de musculatura frágil. Com um miserável e curto tempo de vida que se resume há quatro meses, sem a oportunidade de ver um pôr-do-sol, estes filhotes são abatidos ainda bezerros e transformados em vitela, “carne bovina branca” servida nos mais caros e requintados restaurantes espalhados pelo mundo.
Aos anarquistas do FARPA - Coletivo Anarquista que luta por uma alimentação sem crueldade...
Escrito a partir do filme documentário: A carne é fraca produzido pelo Instituto Nina Rosa<www.institutoninarosa.org.br>

PODERES ESPECIAIS

 
Belarmino Mariano Neto (belogeo@yahoo.com.br )
Para Vitor Hanael de Sousa Mariano, 20 de Janeiro de 2007.
Vítor Hanael estava com apenas oito anos de idade e como as crianças curiosas disse que gostaria de ter muitos poderes. Como pai zeloso e sem lhe perguntar que tipos de poderes, fui logo interferindo e lhe apontando uma chuvarada de poderes que ele possuía.
Disse-lhe que podia: falar, andar, correr, chorar, amar, odiar, pensar, brincar, tocar, cheirar, ver, pegar, refletir, imaginar, sonhar, arquitetar, planejar e assim, fui lhe mostrando que os poderes que ele possuía eram tantos que tinha dificuldade para contar.
Mas Vítor disse que isso não era o poder que ele estava querendo. Ele queria mesmo era poder lançar fogo pelas mãos, voar como as águias, passar por entre as paredes do tempo e viver em outros mundos. Naquele momento, percebi que meu filho estava vendo muita televisão e isso vinha lhe fascinando, lhe desconectando da realidade.
Percebi também que ficara sem argumentos, pois o que ele tinha de mais natural para poder acessar o mundo do qual era parte, não considerava enquanto poder. Parecia algo natural de mais para que se conformasse com o tinha nas mãos, nos pés e no cérebro. Ele na verdade estava diante do grande sonho da humanidade em adquirir poderes especiais e em seu tempo de TV, internet e jogos eletrônicos, os poderes naturais eram insignificantes, diante das possibilidades atribuídas aos super-heróis de plantão.
Estava me sentindo ridículo diante de uma televisão cheia de poderes artificiais que mais pareciam sobrenaturais, interferindo para sempre na formação do único filho que havia gerado. Percebi naquele momento que trazia o poder da criação em minha gênese. Havia arquitetado em pleno gozo de minhas faculdades naturais um filho em toda a sua natureza. Mas o grande problema da humanidade em possuir poderes sobrenaturais motivado pelas imagens do mundo midiático, agora instigava meu filhote. Poderes que foram e ainda são perseguidos pelos místicos, filósofos e teólogos, agora cintilavam em Vítor e nesse momento me veio á idéia de dizer que ele possuía poderes paranormais.
Lembrei que gostava de brincar com ele quando tinha apenas três anos de idade. A brincadeira parecia absurda, mas inventara um personagem engraçado que chamava de “o menino invisível”. Inventara uma voz e quando estávamos brincando o menino invisível entrava nas histórias e eles conversavam horas.
No início da criação desse personagem, Vítor tinha certo medo desse desconhecido menino invisível, mas com o tempo, foi se acostumando e sempre dialogava com aquela criancinha imaginária. O menino invisível tinha a sua mesma idade e as mesmas características físicas. Possuía os mesmos brinquedos e também tinha seus pais invisíveis. Juntos inventávamos cenários perfeitos e ele adora ouvir aquelas histórias de um mundo em que não podiam ver aqueles personagens imaginários.
A partir daquela brincadeira de quatro anos atrás, disse para ele que poder conversar com o invisível era algo sobrenatural. Começamos a lembrar dos outros personagens que também misturávamos as brincadeiras de vozes e histórias. Lembramos do “Velho Quiabo”, um velho maluco que adorava contar histórias do seu tempo de moço. Vítor adorava conversar com o velho invisível que saia da minha boca e expressões faciais. Com aquela velha voz de poeira, misturada com trovoada e palavreados de um analfabeto que inventa palavras.
Vítor lembrou de “H” uma criancinha invisível que tinha menos de um ano e que ainda não sabia nem falar, nem andar direito. Vítor tentava ensinar “H” a falar corretamente. Ríamos deitados em uma rede, com aqueles sons de vozes que ganhavam vida e significado.
Então disse para Vítor que só os paranormais ouviam as vozes do além, do invisível e do desconhecido. Disse que ele poderia ter esse poder e nos seus pré-sentimentos poderia dialogar com o mundo dos sonhos e dos sons. Se ele treinasse mais, iria aumentar seu poder paranormal. Assim ele poderia treinar também a sua clarividência e a sua telepatia.
Vítor ficou fascinado com esta conversa disse-me que quando parava de conversar com ele, que estava brincando sozinho, o menino invisível sempre vinha brincar e teve uma vez que ele chegou a ver seu vulto em um relance de imagens muito suaves em meio a uma fumaça invisível.
Sem perceber, vi que estava tratando com anormalidade de um tema sem fronteiras, pois uma criança com apenas oito anos não seria capaz de entender sobre o sentido sensitivo e sobrenatural da vida. Mas lembrei em seguida que meu pai havia contado que chorou no ventre da mãe e isso lhe dava poderes para prever os acontecimentos e desvendar o mundo dos sonhos.
Lembrei que minha mãe tinha muito cuidado com as crianças, pois dizia que elas ainda estavam com suas moleiras abertas e que era perigoso levar pancadas na cabeça e a moleira também estava aberta para entrada de forças que elas não dominavam. Isso tudo me levou ao mundo da infância, quando não entendia as forças do mundo.
Lembrei dos fogos acesos em fim de tarde e das trovoadas assustadoras e também da grande lua que clareava o céu do sertão. Lembrei que adorava ficar rodando no meio do terreiro, até cair bêbado de tanto rodar. Via um mundo girando, girando, girando como em um carrossel de me mesmo. Via um mundo de nuvens esvoaçantes, de cercas de arame farpado que se misturavam com cercas de pés de aveloz. Rodava tanto que caia no chão de terra batida, via o céu tocando em minha alma, via coisas acontecendo em minha cabeça como se fosse um transe primitivo de memórias ancestrais.


publicado por olharesgeograficos às 02:38