domingo, 13 de março de 2016

A bicicleta e a luta das mulheres por direitos iguais

Extraído na integra: http://www.mobikers.com.br/comportamento/cultura/a-bicicleta-e-a-luta-das-mulheres-por-direitos-iguais/
Apesar do avanço bonito de se ver, a luta das mulheres por direitos iguais ainda não terminou. Mas você sabia que para chegar aonde chegamos, teve muita pedalada no meio do caminho? É isso mesmo! Ao longo da história, a bicicleta teve papel fundamental para ajudar as mulheres a quebrarem as correntes em busca de uma liberdade mais plena.
luta-das-mulheres-01
Bicicleta feminina de 1891.
Em meados do século XIX, as bicicletas chegaram aos Estados Unidos e, claro, viraram febre nacional. Homens e mulheres começaram a pedalar de um lado ao outro naquilo que, na época, ganhou apelidos como “cavalinho de aço”. Mais que um novo meio de transporte, a bicicleta aparecia como uma oportunidade para ir além, não só em distâncias, como também em ideias.
Com exceção das trabalhadoras operárias, se você fosse mulher naqueles tempos, provavelmente passaria boa parte da vida dentro da sua casa. As tarefas domésticas dominavam o tempo e, mesmo em momentos de lazer, ou você visitava outra casa ou recebia a visita na sua. Mas mudanças estavam começando, e sobre duas rodas.
luta-das-mulheres-04
Foto: Reprodução / Documentário Victorian Cycles-Wheels of Change de Jim Kellett.
Montadas em bicicletas, as mulheres acharam uma maneira rápida e fácil de explorar a cidade. Era a chance de ver e ser vista.
A norte-americana Susan Brownell Anthony, uma das feministas mais importantes da história das reformas sociais, viveu entre 1820 e 1906 e percebeu a importância da bike para espalhar e defender seus ideais.
“Vou dizer o que eu penso sobre as bicicletas. Eu acho que elas fizeram mais pela emancipação das mulheres do que qualquer outra coisa do mundo” – Susan Brownell Anthony
luta-das-mulheres-05
A citação faz parte do livro “Wheels of Change: How Women Rode the Bicycle to Freedom” (Rodas da Mudança: Como As Mulheres Subiram nas Bicicletas pela Liberdade, em tradução aproximada) escrito por Sue Macy e publicado em 2011. Vale a leitura!
luta-das-mulheres-06
Alice Hawkins em 1907.
Outra figura histórica que fez bom proveito das magrelas não só para as revoluções das rodas, como também da sociedade, foi Alice Hawkins. No início do século XX a Inglaterra ainda não permitia o voto feminino, mas a luta pelo sufrágio era intensa. Para levar seus ideais mais longe, Alice pedalou por toda a região de Leicester. A bicicleta deixou de ser uma ferramenta para ser um símbolo de resistência e transformação.
Além da chance de sair de casa, sentir o vento no rosto e deixar a cabeça mais arejada para pensar em ideias que antes não haviam ganhado espaço, a bicicleta teve papel importante na mudança da moda feminina. Acostumadas com roupas volumosas, as mulheres frequentemente enganchavam suas fartas saias nos raios das bikes. Era a hora de diminuir a quantidade de panos.
Hoje as mulheres fazem praticamente tudo o que bem entendem, pedalam como e por onde querem, e muito graças à grandes mulheres do passados. Pioneiras. Revolucionárias. Respect.
luta-das-mulheres-02
Jovem inglesa com roupa para ciclismo em 1889. Fonte: http://1890swriters.blogspot.com.br/2014/06/1890s-womens-fashion.html
luta-das-mulheres-03
Mulheres com suas bicicletas nos anos 40.

Foto em destaque: Reprodução / Livro Wheels of Change, de Sue Macy

domingo, 6 de março de 2016

Xique-Xique: uma gigantesca caixa biológica de água em forma de vida...

Fonte da imagem: https://www.facebook.com/rangeljuniorpb


Por Belarmino Mariano

Hoje encontrei na capa do companheiro Rangel Jr., essa imagem de um gigantesco  pé de xique-xique (Pilocereus gounellei), uma cactácea hiper-xerófila, muito comum nas regiões semiáridas do Nordeste Brasileiro. Mas não é comum que elas atinjam esse tamanho e essa geometria tão perfeita, até porque seus galhos são comumente utilizados pelo agricultores do Sertão Nordestino para servir de ração para os animais.

Em minha pesquisa sobre Ecologia e Imaginário, no Cariri paraibano, tive a oportunidade de fazer observações empíricas sobre essa espécie e de ouvir delongadas explicações dos agricultores sobre a sua importância como ração e até como estratégia de coleta de água em período de prolongada estiagem. O Sr. Vicente, já falecido, chegou a fazer demonstração de como extrair água e até comer uma polpa branca que se esconde entre a casca e os espinhos do xique-xique.

A dimensão física do pé de xique-xique exposto na imagem nos lembra uma gigantesca caixa biológica de água em forma de vida. Isso mesmo, um quantitativo significativo de água estrategicamente acumulada em seus galhos. Como as espécies hiper-xerófilas substituem as folhagens por espinhos, elas acumulam água em seus galhos para os prolongados períodos de seca. Sua casca na verdade é como um película e no interior do seu corpo existe uma espécie gelatinosa de visgo que impede que a planta transpire grande quantidade de líquido. Assim a planta vai evapotranspirando muito pouco, retendo o líquido precioso. No Cariri paraibano, em períodos de grande estiagem, o xique-xique é uma das poucas especieis que permanece verde todo o tempo.

Fonte: http://belezadacaatinga.blogspot.com.br/2011/03/xique-xique-pilocereus-gounellei.html

quarta-feira, 2 de março de 2016

Crepúsculo amanhecido

Fonte da imagem: www.brasil247.com

Por: Joana Belarmino de Sousa (Jornalista e professora da UFPB)
(Ao meu irmão Belo Mariano, mais um doutor entre nós)

publicado originalmente em, 21 de outubro de 2006

Caro Amigo Marconi,

O capítulo da Agroecologia do agreste e brejo paraibano já tem mais umas duzentas páginas escritas. A defesa pode-se dizer, foi quente. Primeiro, por causa dos quase quarenta graus, num auditório cheio de gente, onde o ar condicionado não funcionava, segundo, porque os doutores da França e da Bélgica incomodaram-se com a largueza do meu conceito de território, uma elaboração construída entre os diques da geografia e da sociologia, onde eu pude envolver, entretanto, pequenos lugares individuais, como porteiras, recantos para conversar acocorados, plantas ressequidas a nos contarem, nas suas dobraduras de folhas, histórias de tempos verdes, esperanças de verdes tempos. 
A história completa dessa defesa, eu te conto quando a gente se encontrar. A razão dessa carta é para partilhar contigo outra experiência. Lembra-te das noites em que saíamos pelas ruas de campinas, a procurar lugares de silêncio, onde pudéssemos falar da filosofia essencialista, onde pudéssemos proclamar concepções absurdas sobre territórios naturais onde tudo se registrava, desde um peido a um pensamento filosófico? Pois eu acho que visitei ontem um desses territórios, planície natural com sua árvore frondosa, onde encontrei meu pai, ainda um rapazote, e vimos juntos um eclipse.

Vais acreditar? Vimos o eclipse de 37, numa espécie de crepúsculo amanhecido, imprimindo no tapete colorido das folhas o jogo caleidoscópico da sombra e da luz. Vimos a coroa do sol e nos escondemos na zona de sombra, quando a lua praticamente encobriu o astro rei. Como foi isso? Eu te conto. Aconteceu dois dias depois da defesa. Tarde calma, nada para fazer, leveza e nostalgia. Peguei a moto e fui passear ali pela ponta dos seixas. Namoro com o sol das quatro da tarde, visão do mar, na sua calma e bela azulidade. Depois me deu aquela vontade maníaca de abraçar uma árvore. Recostei-me a um coqueiro, de olhos semi-cerrados, e fiquei escutando o mundo, os sons das vozes distantes, a música das palhas a fazer dueto com a brisa marinha. Te juro que naquele momento não estava pensando em nada de essencialismo. E, de repente, sem nenhum aviso, senti uma espécie de beliscão, no meu corpo inteiro. Senti como se o chão me escapasse dos pés, e no segundo seguinte já não havia o mar, nem coqueiros, mas eu me via de pé, no pátio dos fundos de uma casa de taipa, com roupas muito surradas, chinelo de couro, de tiras largas, e um relho na mão.

Ouvi quando a porta da cozinha bateu, e vi, aproximar-se, um jovem de pouco mais de vinte anos, cabelo liso, cortado rente, sorriso aberto na boca de dentes levemente entramelados. E me disse, como se desse continuidade a uma conversa interrompida: “Não vamos tanger os bois agora. Quero ver o eclipse. É uma coisa medonha, o eclipse, tu vai ver”. Caminhamos para o terreiro da frente, circundando a pequena casa.

O sol, alto no céu, parecia desmentir qualquer possibilidade de encontro com a lua. Meu amigo chutava as pedrinhas do chão e fitava o horizonte além, com seu olhar bovino. “Lai vem a lua,” dizia ele meio ofegante. “Lai vem a lua tapar o sol”. E vi no seu rosto um misto de medo e reverência. De repente lembrou-se de algo e correu para dentro. Voltou logo, e me entregou uma agulha daquelas grossas, de costurar couro. “a gente vai reparar pelo buraco da agulha. Pra não cegar.”

E ia me contar uma longa história sobre eclipse e cegueira, mas parou de falar no meio da frase inicial, quando o céu começou de repente a escurecer. Escutei assombrado os sons de um dia anoitecido de repente, enquanto um frio cortante me fustigava a pele dos braços. Galinhas cacarejantes à procura do poleiro, gado mugindo, como a pedir cercado, e lá dentro, uma voz arrastada de mulher, a dizer uma espécie de prece repetitiva: “Santa baiba são Geromo, santa baiba são Geromo, Jesuis Maria José”. “Espia”, me disse o rapaz, e, pelo buraco da agulha, vimos a coroa do sol, quando a lua o encobriu totalmente. Depois acompanhei sua vista e vi, no chão, o jogo de sombra e luz refletindo-se no tapete natural dos grãos de areia, das pedrinhas e folhas.

E de repente me veio a ideia de olhar o olho daquele jovem. Desviei o fundo da agulha da coroa do sol e tentei focar o seu rosto. E então soube que se tratava do meu pai, num tempo em que de meu pai não se tratava. Quis contar-lhe emocionado o segredo do nosso futuro, e então a agulha caiu-me das mãos, e me vi novamente recostado no coqueiro da Ponta dos Seixas, com os olhos cegos pela chuva quente das minhas lágrimas.