terça-feira, 25 de janeiro de 2011

AS OCUPAÇÕES DESORDENADAS E A TRANSFORMAÇÃO TERRITORIAL NO BAIRRO DO NORDESTE I - GUARABIRA-PB


AS OCUPAÇÕES DESORDENADAS E A TRANSFORMAÇÃO TERRITORIAL NO BAIRRO DO NORDESTE I - GUARABIRA-PB

Autora: MÔNICA ALVES BEZERRA

Orientador: Profº. Dr. Belarmino Mariano Neto - DGH/UEPB

Banca Examinadora: Profª. Esp. Cléoma Maria Toscano Henriques - DGH/UEPB

Profª. Ms. Regina Celly Nogueira - DGH/UEPB

RESUMO

A presente pesquisa baseia-se na fundamentação teórica relacionada ao conceito de território. Baseando-se na categoria de análise Território, tomou-se como alicerce a linha de pesquisa Poder Local e Organização do Espaço, amparando-se na Geografia Urbana. Este trabalho monográfico aborda o problema das ocupações desordenadas e sua interferência na transformação do território e o modo como os mesmos são enfrentados pela sociedade, bem como as possíveis alternativas, que possam contribuir para superá-los. Para tanto, bairro do Nordeste I, localizado na cidade de Guarabira-PB, foi colocado como objeto de estudo para o desenvolvimento desta pesquisa. Portanto, o objetivo é analisar as principais causas que levam a ocorrência deste tipo de ocupação desordenada, como também as consequências que surgem em virtude desta problemática, bem, como estudar a questão do planejamento urbano no tocante a sua importância e atuação no correto processo de construção do território do Nordeste I. Como procedimentos metodológicos foram utilizados, discussões baseadas em autores, pesquisa de campo, realizando entrevistas aos moradores com o objetivo de conhecer os problemas que os afligem. Realizaram-se consultas a entidades a exemplo do IBGE, pesquisou-se também em órgãos como FUNASA e o Poder Público Municipal, além dos registros fotográficos. A partir do entendimento do fenômeno estudado e observando as práticas desenvolvidas no Bairro, pode-se entender que as transformações territoriais ocorridas no Nordeste I, é resultado de um complexo que abrange os problemas sociais, econômicos e políticos que estão interligados ao modelo construtivo do território, juntamente com o tipo de ação desenvolvida ou omissa do poder público. Para concluir destacou-se o dever do poder público municipal na prática, tanto de medidas de planejamento, quanto a questão das políticas públicas para que venha atender as reais necessidades dos moradores, afim de que possa proporcionar a transformação sócio-territorial, através do acesso a dignidade e a cidadania, sobretudo, para a população de baixa renda a exemplo do Nordeste I.

Palavras-Chave: Ocupações, transformação do espaço, problemas sociais.

SOUSA E SANTA CRUZ – PB: INTERDEPENDÊNCIA ECONÔMICA, SOCIAL E CULTURAL.

SOUSA E SANTA CRUZ – PB: INTERDEPENDÊNCIA ECONÔMICA, SOCIAL E CULTURAL.


Autora: Daniele Ferreira Alves

(Orientador) Prof. Dr. Belarmino Mariano Neto (UEPB/CH/DHG)

Examinador - Prof. Ms. Carlos Antônio Belarmino Alves (UEPB/CH/DHG)

Examinador - Prof. Esp. Antônio Sérgio Ribeiro de Souza (UEPB/CH/DHG)

RESUMO

O presente trabalho teve como objetivo realizar estudo de análise sobre a situação de interdependência econômica, social e cultural entre os municípios de Sousa (polarizador da microrregião), e Santa Cruz, município polarizado por este, integrando o quadro de seus oito municípios periféricos. Para tanto, foram realizadas pesquisas teórico-bibliográficas e documentárias, coleta de dados, entrevistas e pesquisas no local. A metodologia consistiu em pesquisa empírica, registro de imagens e entrevistas semi-estruturadas. A pesquisa abordou a condição de interdependência entre Sousa e Santa Cruz, dando ênfase à questão centro/periferia em seus aspectos e relações sócio-urbanas, existentes e provenientes dessa hierarquia. A base teórica para o estudo centrou-se na linha de pesquisa sobre região e regionalização, bem como o espaço-tempo para contextualização histórica do ambiente de pesquisa. Os resultados apontam para um intenso processo de interdependência entre os dois municípios, onde não só a cidade polo tem influência sobre seu centro local subordinado, como também depende dos fluxos sociais e econômicos advindos deste pequeno centro, sendo, portanto, reflexo e produto dessas relações.


Palavras-chave: Região, Cidades e Interdependência.

GEOGRAFIA E TERRITÓRIO: TRAMAS DA COMPLEXIDADE NO TECIDO MUNICIPAL DE RIO TINTO-PB
















GEOGRAFIA E TERRITÓRIO: TRAMAS DA COMPLEXIDADE NO TECIDO MUNICIPAL DE RIO TINTO-PB

Érica Gomes da Costa Mariano (Autora) -Geografia – Dep. de Geografia e História/CH/UEPB

Profº. Dr. Belarmino Mariano Neto (Orientador) -Doutor em Sociologia -Departamento de Geografia e História/CH/UEPB

Profº. Dr. Francisco Fábio Dantas da Costa (Examinador) - Doutor em Geografia - Departamento de Geografia e História/CH/UEPB

Profª. Esp. Cléoma Maria Toscano Henriques (Examinadora) - Especialista em Analise Ambiental-Departamento de Geografia e História/CH/UEPB

RESUMO:

A Pesquisa apresenta como objetivo geral analisar a complexidade geográfica existente nas diversas sobreposições territoriais na estrutura municipal, considerando o município de Rio Tinto enquanto estudo de caso, e que servirá como modelo para novas abordagens metodológicas em relação aos diferentes arranjos territoriais do Estado da Paraíba. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatístico (IBGE, 2007), o município de Rio Tinto, localizado na Mesorregião da Mata Paraibana e na Microrregião do Litoral Norte. Apresenta uma área territorial de 466 Km² e uma população estimada em mais de 23 mil habitantes. A teoria de sobreposição territorial veio metodologicamente, através da pesquisa empírica e da observação participante, a partir de uma prévia sondagem feita a respeito das possibilidades de pesquisas, pois no município de Rio Tinto, existem pelo menos seis situações geográficas para análise, focada na abordagem territorial, que se considerou a priori enquanto tramas do tecido territorial municipal que se sobrepõe em vários momentos: 1) Tramas territoriais indígenas – Áreas de delimitação, problemas fundiários, conflitos agrários, impactos ambientais; 2) Tramas territoriais do latifúndio canavieiro – Terras de usinas e destilarias, terras de produtores de cana-de-açúcar, áreas de canaviais, áreas de conflito com indígenas, áreas de plantadores arrendatários para as usinas; 3) Tramas territoriais da fábrica de tecidos Rio Tinto; 4) Tramas territoriais de preservação e conservação ambiental - Área de Preservação Permanente da Barra do Mamanguape; Reserva Biológica dos Guaribas, Estação Ecológica Mata do rio Vermelho, várzea do Vale do Mamanguape; 5) Tramas territoriais dos assentamentos de reforma agrária e dos pequenos proprietários rurais e atividade ceramista – extensão das áreas, tipo de propriedade, tipo de produção, conflitos agrários e; 6) Tramas territoriais do município de Rio Tinto, pensando o território enquanto poder que agrega ou desagrega interesses sociais, políticos, econômicos e culturais, tendo o município enquanto menor unidade político-administrativa e jurídica dos estados da federação brasileira. A pesquisa responde estas questões e aponta para a complexidade da sobreposição territorial.

Palavras-Chave: Geografia. Território. Complexidade

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

“A Geografia em tecidos mitológicos”


Por Belarmino Mariano Neto (belogeo@yahoo.com.br)

A palavra é possuidora de muitas forças forjadas nos recônditos de nossa mente, elas expressam pensamentos, expressam sentimentos e, expressam vontades. Este trivium é minha maneira de viver e ver o mundo do qual sou participante.

Todas as palavras são de um potencial sacro fantástico. Elas são imantadas de significados e interesses tão divinos que podem ser encontradas no mitológico mundo de Hesíodo em “os trabalhos e os dias” e esclareço a escolha deste filosofo grego, pois nele encontramos o mito de “Prometeu e Pandora” que começa dizendo: “oculto retêm os deuses o vital para os homens; senão comodamente em um só dia trabalharias para teres por um ano, podendo em ócio ficar; acima da fumaça logo o leme alojarias; trabalhos de bois e incansáveis mulas se perderiam” (HESÍODO, 2006, p.23).

A escolha do fragmento de idéias gregas, tão primitivas e civilizadas encosta nos nossos dias de trabalho e de ócio. Mas voltemos a Prometeu, pois lhe coube a dádiva de criação do homem, essa mistura de água, terra, ar e ocultos materiais divinos que lhes permitiram direcionar a face aos céus, se imaginando também um pouquinho deuses.

Vejam que estamos pensando em coisas essenciais que poderiam ser aqui representadas como elementos da natureza. Mas parece que na lógica da discórdia e na separação dos materiais, “o olho e o cérebro” (MEYER, 2002), preferem o cérebro matéria, memória expressa em neurônios e percepção visual da terra, do lugar ou do peso do firmamento.

Nesse momento, gostaria de invocar a mulher, pois “Pandora” parece ser o presente de grego, dádiva de Júpiter ao pobre Prometeu. Ela é um castigo de Júpiter e que atingirá de cheio a criação divina em forma de homem. Gostaria muito de colocar o irmão de Prometeu nessa parte da história que lhes conto, pois foi exatamente Epimeteu, quem recebeu Pandora enquanto um presente, do qual Prometeu suspeitava e desconfiava. Pandora trazia em sua caixa, muitos e irados problemas para os homens e estes problemas escaparam antes que Pandora houvesse fechado a sua caixa, restando apenas um cantinho de esperança no fundo das coisas.

Vejam que estamos vivendo mais uma vez à sórdida história das tragédias humanas e colocadas enquanto antecipação de fatos e fantasias tão divinas e tão humanas, com os quais nos tornamos homens mortais. Assim, as coisas estão caminhando em nosso mundinho. O uso in-devido das palavras, fortalecem contradições e expõem as entranhas de tradicionais forças que vivem em subterrâneas camadas do nosso cérebro. Hoje estava me perguntando: Pensamento, memória e o consciente são mesmo de que matéria? Pelo que mesmo estamos lutando em nossos dias? Em que darão estas brigas de Titãs?

É nesse sentido que invoco Hesíodo em “os trabalhos e os dias”, pois pelo que me consta, existem muito melindro e vaidade entre as divindades do olímpico. Por isso os homens e mulheres que não são deuses, mesmo tendo sido projetados com o mesmo material e designe das divindades, precisam trabalhar, mesmo que muitos prefiram o ócio e confusões divinas.

Por outro lado, “O Prometeu acorrentado” acha que Pandora trás em sua caixa todos os tipos de males, uma narrativa em que o ódio, a inveja e tudo mais, recairão sobre o homem e seu lugar. Vejo que as nossas relações estão até certo ponto, presas ao mito de Prometeu e Pandora.

Gosto da idéia de ser uma mortal e de ver meus dias consumidos pela vida, pela imprevisibilidade, assim me sinto tão divino quanto às crianças que brincam despreocupas do amanhã, mas sei das minhas correntes e assumo a condição “prométeica” de ter que trabalhar os dias, de planejar meus sonhos e de fazer acontecer.

Claro que o cérebro, processa necessidade imediata, reação instintiva e o frio na espinha quando se é surpreendido pelo latido do cão nas pernas. Mas passado o susto, recomposto o estado da racionalidade pura, será possível dialogar com as três maiores e invisíveis forças da natureza: Cronos (o tempo), Cosmo (o espaço) Caos (aqui traduzido com a incerteza).

Falo do tempo, pois ele é o grande senhor que a todos consome. No nosso caso, o tempo urge e precisamos ter clareza disso em nossas ações, pois depois que a areia escorre pelo fino gargalo da ampulheta, pouco se tem a fazer ou a espacializar de fato

Sobre a incerteza, acredito demais nela, é o corpo teórico com o qual gosto de trabalhar. Defendo inclusive que a vida é imprevisível, que “só há um ponto fixo”, como afirma Kafka e que é daí que precisamos partir.

Não acredito que o cérebro funcione apenas para transmitir e dividir o movimento das ondas neurais. Algo mais que motricidade e mecânica físico-química acontecem nesse órgão de seleção e ação. Meio que discordando de Bérgson citado por Meyer (2002), somos possuidores de memória pura antecedente e o que chamo de essência espiritual dos titãs. Assim justifico tão enfronhado texto de mitos, homens, mulheres e divindades.

Por isso, somos homens e mulheres mortais e sem culpas, nesse caso, conscientes dos papeis por nós assumidos entre “os trabalhos e os dias”, temos um poder reconhecido enquanto “lembrança pura”, transformada em “lembrança-imagem” (MAYER, 2002, p.24), e o conhecimento que podemos utilizar servirão para como Hercules, libertamos prometeu das correntes, pois sua luta foi conquistar o fogo para os humanos e por tal façanha foi acorrentado.

O lugar como um detalhe abre espaço-tempo para o uso da inteligência coletiva (LÉVY, 2000) e para a constituição de laços sociais e relações com o saber dos quais temos profundo censo de justiça, ética e mais uma vez inteligência coletiva. Esse é o espaço que precisamos geograficamente refletir.



Referências:

HESÍODO. Os trabalhos e os dias. (Traduz. LAFER, M. C. N.). São Paulo: Iluminuras, 2006.

LÉVY, Pierre. A Inteligência coletiva – por uma antropologia o ciberespaço. São Paulo: Edições Loyola, 2000.

MEYER, Philippe. O olho e o cérebro – biofilosofia da percepção visual. São Paulo: Ed. Unesp, 2002.

A Geografia Cultural e o Cordel do Fogo Encantado

Por: Belarmino Mariano Neto

Estamos no Nordeste brasileiro. Nordeste do Brasil não é apenas um referencial geográfico definido pelas coordenadas geográficas em suas latitudes e longitudes, definidas pela rosa dos ventos em seus pontos cardeais, colaterais e subcolaterais. Esse desenho por nós conhecido desde os primórdios do ensino.

O Nordeste brasileiro é uma construção cultural marcada por rotas e novelos de existências humanas indígenas, negras e brancas em um mosaico multefacetário em suas imagens caleidoscópicas.

As palavras não conseguem dizer o que o Nordeste brasileiro representa em seus ruídos, imagens e sons. Os ouvidos enquanto sentidos auditivos projetam imagens mentais de coisas que só sendo nordestino e tendo vivido em determinados lugares, como os sertões, comunidades quilombolas, caboclas ou coisa parecida. Os sertanejos e suas marcas cravejadas de espinhos, pedras e coriscos em carrascais que só a paisagem sertaneja guarda em suas estações de secas, primaveras, verões e invernos. Tons de couro de vacas e cabras em utensílios muitos. Balaios, peneiras, chocalhos e potes de botar água de beber.

Humanos de serras e vales secos. Humanos de espinhos e rostos queimados pelo fogo solar em seus cotidianos de lida pelas catingueiras. As chuvas em temporais e seus rios cheios de vazios de barros e barrancos. Humanos presos pela força das águas e capazes de conviver em pleno vale encantado dos lajedos mágicos. Na voz das resadeiras e seus oratórios da casa ou santos pendurados nas taipas das paredes da sala.

O Cordel do Fogo Encantado é um grupo musical das brenhas do Sertão pernambucano, das bandas de Arco Verde e redondezas. Esse grupo consegue assimilar a essência do ser nordestino, simbolismo, existência e fascinação criadas por sons, cores, sabores e odores ditos por uma língua em farpas do pensar cantado. Uma filosofia viva, vivida em cotidianos extremamente ricos de diversidades e contradições.

O Cordel do Fogo Encantado canta lamentos nordestinos, alegrias e tristezas que se manifestam em festas e sotaques de aboios e canções de lavadeiras. Eles cantam uma geografia cultural profundamente arraigada às tradições da fala nordestina, da fala e da escrita em diálogos feitos com cordas de palavras penduradas pelas línguas em cordéis de dizeres que só o nordestino consegue dizer. A palavra ganha força, a voz nordestina em sua agudeza afro-descendente em rituais de tambores e chamamentos espirituais. As coisas dos índios em ritmos caboclos. A fala seca musicada em ritmos semi-áridos.

O canto popular, as cantigas do lugar coladas em seus diferentes ritmos e significados. Este ensaio é a perspectiva de uma geografia cultural. A Geografia de um lugar é sua cultura manifestada em atores sociais que percebem a riqueza dos sons, dos ritmos e dos padrões de linguagem. Parece até que estamos falando do local, no sentido da lugaridade ou do localismo em fragmentos desligados da globalidade. Nada disso. O Cordel do Fogo encantado trabalha com os sons do universo, os ruídos e métricas matemáticas da música em suas profundezas (Letra de Música):



A Árvore Dos Encantados
Cordel Do Fogo Encantado (Composição: Lirinha)

Acorda levanta resolve
Há uma guerra no nosso caminho
Nos confins do infinito
Nas veredas estreitas do universo
Vejo
As cinzas do tempo
O renascimento
As danças do fogo
Purificação transporte
Escuto
O trovão que escapou
As ladainhas das mulheres secas
Herdeiros do fim do mundo
Isso não é real
Não
Isso não é real
A brotação das coisas
Herdeiros da Tempestade
Girando em torno do sol
Do sol
Girando em torno do sol
Vejo
Aquele cego sorrindo
No nevoeiro da feira
Aquele cego sorrindo
Beijo
A fumaça que sobe
O peito da santa
O cheiro da flor
Árvore dos Encantados
Vim aqui outra vez pra tua sombra
Árvore dos Encantados
Tenho medo mais estou aqui
Tenho medo mais estou aqui
Aqui Mãe
Aqui meu Pai
Em cima do medo coragem . Recado da Ororubá

Sentimos as profundezas da letra e sua interpretação pelo grupo simplesmente desafia as leis do firmamento. A Geografia cultural então observa que o autor Lirinha constrói uma paisagem de sons, melodias e imagens caleidoscópicas de um ritual místico, mas ao mesmo tempo tenebroso; cheio de enigmas e escuridões. A história contada pela musica a árvore do encantado nos permite ir até gênese ou o livro de São Cipriano. Aos confins do Brasil e as entranhas da África. O arrasta de espíritos negros em suas correntes de fumaças.

"Entre o cristal e a fumaça" (ATLAN, 1992) é possível ver segredos revelados pelo medo estampado no “peito da santa”. A arvore do encantado é a ciência humana em suas profundezas. A busca da verdade. A grande questão do real: “Isso não é real”. O que é real? Qual a verdade? Como diz Fernandes (2003), a fantástica possibilidade da cegueira humana, da ciência brincando de cobra cega. Mas quando levamos para a essência das coisas, claro que estamos diante de clarividentes, exercitando uma paisagem geográfica.

Referências:

ATLAN, Henri. Entre o Cristal e Fumaça. Rio de Janeiro. Jorge Zhar editor,1992.

FERNANDES, Manoel. Aulas de Geografia. Campina Grande: Bagagem, 2003.

http://www.cordeldofogoencantado.com.br/

morte espetacular

Brmino Mariano Neto


Quando ocupei o útero de gaia ainda não era homem, mas apenas sonho. Gaia Gerou do sêmen solar a luz da vida que germina em suas entranhas fecundas. Primeiro um pó de luz se espalhando pelos recantos e imaginários olhos de mulher, que chora, grita, e sorrindo cria nas profundezas do ser os cristais para o novo e desprendido movimento do nascer galáctico: o filho de uma nova idade, fluído de uma aromática essência de mulher que chorando se corta por dentro e sangra um avermelhado e violento momento matriarcal.

"Eu vi a morte, (...) com manto negro, rubro e amarelo. Vi o inocente olhar, puro e perverso, e os dentes de coral da desumana. Eu vi o estrago, o bote, o ardor cruel, os peitos fascinantes e esquisitos. Na mão direita a cobra cascavel, e na esquerda a coral, rubi maldito. Na fronte uma coroa e o gavião, nas espáduas as asas deslumbrantes que ruflando nas pedras do sertão, pairavam sobre urtigas causticantes, caule de prata, espinhos estrelados e os cachos do meu sangue iluminado. (...) Mas eu enfrentarei o sol divino, o olhar sagrado em que a pantera arde. Saberei por que a teia do destino não houve quem cortasse ou desatasse. (...) Ela virá a mulher aflando as asas, com os dentes de cristal feitos de brasas e há de sagrar-me a vista o gavião. Mas sei também que só assim verei a coroa da chama e Deus meu rei assentado em seu trono do Sertão." (Suassuna, Poesia Viva, 1998, CD:14 e 15 )

Estes fragmentos de sonetos, carregados de signos, enigmas e imagens únicas são os elementos da morte, percebidos por Ariano Suassuna. Neste imaginário, as figuras da morte, vestida com adereços de elementos da natureza sertaneja, nos fazem viajar pelas palavras para na morte a sublimação da carne, onde o sol é um testemunho vivo de tal sede. Assim, símbolos da natureza semi-árida são ressaltados como poderosos e sagrados, no ponto do divino centralizar sua força nestas terras. Em outras partes do soneto, Suassuna ressalta a morte como um toque inapelável do divino, maciez, vida e obscuro toque de um Deus no homem. O lugar e seus elementos como o gavião, a cascavel, a coral, a vida e a morte como figura feminina, que em suas palavras ganham um profundo significado. O destino, outro elemento muito forte na cultura nordestina, que em sua “triste partida” pode estar traçado, e diante da morte é preferível vagar pelas terras alheias, na espera de um dia voltar. Pois o destino traçado em suas mãos vai além de seus poderes terrenais.

Morte espetacular, em todos os seus elementos de arte. A morte possui a arte de matar. A morte mata o tempo e morrer é muito natural. Todo tempo é de morte, é de morrer.

O ato de morrer parece o fim da vida, animal ou vegetal. Pode ser uma entidade imaginária, crânio humano sobre ossos e cinzas. Morte agônica, súbita, neurocerebral e irreversível.

A morte cósmica de uma estrela, grande e natural morte. Morte matada não natural. Morrida, natural. Por doença, violenta, rápida, imprevista. Desastre, homicídio, suicídio. Chorada, cantada, lastimada, irremediável.

A morte de um amor ou de um rancor. Cores incolores pouco vivas, pálidas, mortas, brancas, pretas almas.

Um espetáculo. Milhares de pessoas todos os dias e noites. A cor incolor da morte tecida em luz e trevas, ausenta e apresenta-se sai dos esconderijos e em seu clandestino silêncio, representa a contemplação nua dos deuses com seus toques mágicos de mulheres em seda, morim e cetim. Tintas e cores tecidas no multicolorido matar incolor. Um espetáculo aos vivos. Bandeiras sobre os caixões, fogo das paixões cremam em lágrimas, enquanto as flores murcham e as moscas acompanham o cortejo fúnebre.

Era um anjinho, menos de um ano. Cedo de mais para seus oitenta e cinco anos de vida lúcida e pública. Apenas um ano e o câncer se espalhou por toda sua vida acumulada em rugas.

Um espetáculo de cores que para o trânsito e muda o sentido das conversas. Breve, curto, longo sentir. Apenas um tremor de terra, quase tudo pelos ares. Via satélite, aos vivos. Um espetáculo de imagens em escombros. Quase tudo fora do lugar. Um resgate pelo cochilo da morte. É o que é da morte em todos os lugares, um complemento ao ponto final. Um espetacular cálculo estatístico que preocupa os órgãos de saúde.

As covas são valas rasas e pequenas para os milhares de mortos infantis por desnutrição transcontinental. Um espetáculo, assistido em propagandas de iogurtes, promoções de supermercados ou recordes de produção nas safras de grãos.

Um espetáculo em imagens para a hora do almoço e do jantar. Uma morte que fica bonita e ganha vida própria. Colorido, trilha sonora, visitas ilustres e cenas de choro e lenços. Populares e ilustres tecem curtos trechos de filosofia vã (vida/morte, ser/existir, desistir). A tristeza se reveste de pompa, os óculos pretos e modernos contrastam com as faces rubras de peles bem tratadas.

A morte ganha todas as cenas, gera audiência, redimensiona a memória/imagem de passados que já estavam mortos. Os filtros das câmaras criam um ar acinzentado e mórbido. Flores quase mortas avivam os entornos do espetáculo mortal. Uma princesa, um velocista, um bandido, um índio Galdino, um mega star, um caminhão de sem terras no click de Sebastião Salgado ou mesmo um simples popular do corpo de bombeiros, que arriscava a vida para salvar vidas. Todos filhos da morte.

Tons e sons de morte sobrevoam o local do cortejo. É uma pessoa ilustre, um chefe de Estado, era integro honesto e bravo. Álbuns de família são focados pela panorâmica das câmaras. Uma desatinada busca e alucinada espera. Cortante e bruto alimento do pensar, desconstrução de destruição na construção de uma miragem. Filhos do estupro ou abortados pelo medo, homens. Violação patriarcal do divino, violência matriarcal em estar vivo. Morte calada que rebusca nas cinzas a poeira cósmica da noite, que escondo o sono e que não permite a embriagues dos sonhos.

Um espetáculo mortal, monumental. Milhares foram soterrados pela truculência da natureza, em um simples tremor de terras. Cenas mundiais repetidas mais de uma vez pelos diversos canais, via satélite, aos vivos.

A tragédia é africana e européia. Combina morte/ rivalidade, alimento/ fome. Um espetáculo mortal e louco de vacas inocentemente sacrificadas aos milhares. Tragédia euroafricana de vacas e homens. Quantas vidas para cada morte. Uma morte, uma vida. Uma cena espetacular que desencadeia todos os pensamentos que a lucidez consegue roubar da mente em uma loucura. Um viajar imaginário do ser e penetrar da seda fina do subatômico do momento do sábio nadar e no demasiado sendeiro do escuro da luz nada encontrar. É grande a noite se resumida a uma madrugada da morte. Parece uma nevasca eterna. São tantos os espaços da morte que até o vazio se desespera.

É um espetáculo a certeza da morte. Como garrafas de vinho vazias representa os devaneios humanos, a morte das uvas e o nascimento dos sonhos que embebidos pelo doce/amargo, seco/suave traz na sua idade o sabor de uma vida presa, enfrascadora de energias que em estado líquido, tinto, branco ou rose, pode derramar-se sobre o corpo, a alma, a calma e a alegria. Por libertar-se, ser vinho, rio correndo pelo pensar e passar dos que se tornam vinhos em suas fantasias fermentadas. Te vê do alto com um voar de homem-pássaro, tua contradição dilacera todos os sentidos de um apocalíptico alfa do gradativo vitral nadesco a se apagar. Sem luz perdi de ver o brilho dos teus olhos, perdi de ver de vez o que talvez não veja jamais.