terça-feira, 7 de abril de 2015

Geografia e banalidade do discurso ambiental


Por: Belarmino Mariano Neto

Início, meio e fim. Estou aqui diante de três coisas. Tendo que começar a dizer sobre um tema que vem se tornando cada vez mais banal no meio de um verdadeiro bombardeio de informações sobre a importância de preservar a natureza e muito preocupado com o fim de tudo isso, pois enquanto as pessoas falam ou discutem o meio ambiente, muitos estão com o cigarro aceso ou acabaram de jogar o papel do bombom pela janela (MARIANO NETO, 2001).
A partir de agora, centralizarei meu texto nos elementos da informação ambiental como uma das marcas do atual estágio de globalidade pela qual passa e vive o humano em seu presente. A ideia é relacionar a linguagem como elemento envolvente dos sistemas de informações e da própria ciência que até certo ponto se torna refém do discurso e da representação.
Fonte da imagem: www.radioaustralia.net.au
A informação ambiental como banalidade do discurso é uma tentativa de conectar os limiares da pós-modernidade com a informação, seus veículos em rede e todo o emaranhado de contradições do presente.
Vivemos o paradoxo da pós-modernidade em que a linguagem, a informação ou o discurso ocupam o centro da ciência. A linguagem é a ponte na criação das relações. A teia com os outros mundos e o espaço do dizer e da produção cultural. A informação passou a ser o elemento de maior importância para o mundo contemporâneo. Um mundo visual que produz a consciência da sensibilidade, o conhecimento dos primórdios e do essencialismo e as imagens construídas pela vida de cada pessoa.
A linguagem constrói ciência, (des)constrói o censo de verdade ou de realidade alimentando ideias e utopias. A linguagem cria condições, quebra fronteiras e desafia a constante ideia de ponto final. A capacidade cultural e tecnológica de dizer, de falar, de escrever, de informar e de estabelecer conexões intervencionando a lógica do tempo e do espaço, abrindo portas para a tele distância na arte da ideia do humano como sendo um programa de palavras ditas, não ditas e por dizer.
Se a espécie humana ainda precisa de uma alavanca para modificar o mundo. Modificar, não. Para salvar o mundo, ela já reencontrou. Essa ferramenta, usada e demonstrada com competência pelos cinco mil jornalistas que fizeram a cobertura da Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+10, em Johannesburgo, na África do Sul, tem um novo nome: informação ambiental (FIRMINO, Hiram. p. 06, 2002).
A grande questão é: até que ponto a totalidade da informação ambiental tem surtido algum efeito real nas atitudes humanas, em seus Estados, governos, sociedades e empresas? Sem sombra de dúvidas, a informação ambiental foi totalmente democratizada. Internet, televisão, vídeos, rádios, revistas, jornais, folhetos, etc.
São produzidos diariamente com temas que estão relacionados com o meio ambiente e sua preservação. Já somos mais de 6,8 bilhões de seres humanos, e de um jeito ou do outro nos chega a informação ambiental.
Mas, até que ponto, nós nos importamos com estas questões a ponto de mudarmos de atitudes? É claro que a consciência não se faz num dia, mas no dia da consciência de cada uma destas são questões relevantes para o momento pelo qual passa a humanidade.
Estou percebendo que o problema não é de (cons)ciência – conhecimento. A questão maior é que existe uma poluição informacional em todos os sentidos. A massificação da informação ambiental é acompanhada de uma massificação ainda maior do consumismo.
Ao lado de uma informação do tipo defenda a natureza, temos dez informações sobre compre, compre, compre, consuma, consuma, consuma, compre, consuma, compre, consuma, compre. A sociedade de mercado monopolista e de consumismo a qualquer preço já descobriu as marcas ecológicas, que geralmente também são dez vezes mais caras. Já temos nos SUPERMERCADOS seções inteiras de produtos ecologicamente corretos: café ecológico, açúcar de demerara e mascavo, açúcar orgânico claro, arroz integral e ecológico, verduras orgânicas e sem agrotóxicos, etc. Estas marcas disputam espaço com os ligths, dietéticos, transgênicos, enlatados, estabilizados, e todas as "marcas envenenadas e turbinadas" do mercado tecnológico dos alimentos.
Firmino (2002) acha que, se continuarmos pensando globalmente, mas não fizermos nada localmente, enquanto indivíduos, cidadãos e nação, o fim não será surpresa. A situação do planeta é de alto risco, mas às práticas da superprodução capitalista despreocupadas com os efeitos sobre o meio ambiente nos deixam perplexos, impotentes e alienados de qualquer ação efetiva contra este estado e velocidade destrutiva.
O pior é que as informações ambientais não estão sensibilizando efetivamente a grande maioria das pessoas. Salve a natureza ou a si próprio é algo banalizado em meios aos outros tipos de apelos bombardeados pelo mercado. "Beba coca-cola e salve a natureza ou salve a natureza e será salvo" não estar fazendo muita diferença mesmo. Ninguém acredita, mas acaba tomando coca-cola e esquecendo de salvar a natureza.
Fonte da Imagem: qkantton.wordpress.com
A aparente ação de muitas empresas é de que estão investindo em defesa do meio ambiente, principalmente empresas com elevado nível de poluição.
Fazendo uma meia culpa. Mas no geral continuam com suas atividades a todo vapor. Ou seja, não basta um programa paliativo. O que precisamos é de uma radical mudança de atitudes. Uma sociedade ecológica, uma humanidade ecológica precisa ser em todos os sentidos.
A exploração abusiva dos recursos naturais nos coloca diante de uma natureza fúnebre. A natureza como ambiente dos lugares estragados, a natureza como um depósito de lixo a céu aberto.
A informação ambiental é uma prática que começa a ser especializada pela mídia a partir da reunião do Clube de Roma, anos 70, primeiro passo para a percepção de que os recursos naturais não são renováveis, e que a exploração desenfreada dos recursos renováveis coloca em risco a vida na Terra. Desse encontro tira-se o documento que aponta para o Crescimento Zero.
Onde os países ricos alertando o mundo para os problemas ambientais globais, causados pela sociedade urbano-industrial e crescente dinâmica demográfica dos países subdesenvolvidos, colocam em risco o desenvolvimento econômico e o meio ambiente, especialmente para as nações com dependência tecnológica e atraso econômico que propagam "o desenvolvimento a qualquer custo" (BRODHAG, 1997, p. 49).
Em 1972, a Organização das Nações Unidas – ONU convocou a Conferência de Estocolmo (Suécia), que marcou a mundialização das questões ecológicas. (SENE & MOREIRA, J. C. 1998, p. 407) Nessa "Declaração do Ambiente", são perpassados os primeiros acordes para as preocupações com o desenvolvimento sustentável, com um forte apelo aos direitos fundamentais do homem - vida, liberdade e igualdade de condições em um ambiente racionalmente protegido, onde o desenvolvimento deve ser planejado pelo Estado no sentido de melhorar o ambiente em benefício das populações; fazer uma gestão dos recursos no sentido preservar e melhorar o ambiente, assegurando às gerações atuais e vindouras uma melhor qualidade de vida. Foram aprovados 26 princípios gerais e pouca ação por parte dos diferentes países. O importante é que Estocolmo marcou a visão ecológica global, tendo sido, de fato, uma conferência de caráter planetário.
Na sequência, chegamos à Rio 92, Conferência Internacional da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, com a presença de 106 chefes de Estados ou representantes e mais de 35 mil pessoas. Este encontro resultou na "Agenda 21", com quarenta capítulos, 800 páginas, muitas sugestões e poucos compromissos firmes. Pois este documento não fixou os objetivos, estimativas, custos, nem modalidades. Estamos diante dos fios invisíveis que manipulam as contradições de uma política ecológica mundial (FREIRE, 1992, p.27).
Fonte da imagem: Antes que vire lixo - gaiabrasil.com.br
As ONGs e outros se contrapuseram ao encontro patrocinado pela ONU, mas o que prevaleceu foram as decisões do G-7 (o grupo dos sete países mais ricos) e suas instituições financeiras. Os crimes ecológicos e o modelo de desenvolvimento continuam, apesar do compromisso das nações em gradualmente diminuir tais crimes (BRODHAG, 1997, p.61). O desperdício da sociedade de consumo forma esse novo caldo de cultura, que não é total, mas fragmentado nos indivíduos de cada canto do mundo como em um processo sem fim. Incorporadores de valores, rugosidades, sentidos e ritmos do existir.
Do dia 26 de agosto a 04 de setembro de 2002, em Joanesburgo, na África do Sul, foi realizada a Rio + 10. Uma Reunião da Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável. Reuniu mais de 160 chefes de estados, 45 mil delegados e 7 mil ONG’s representantes de 185 países. Em nível de representação internacional, essa foi sem dúvidas a maior conferencia mundial sobre o tema.
Se a Rio 92 nos deixou claro que a natureza é finita, limitada e que funciona dentro de um sistema interdependente e que precisa do princípio do equilíbrio, perguntamos o que de fato os governos, empresas e sociedade civil fizeram para reverter a velocidade de suas práticas econômicas antiecológicas? Estamos diante de uma década da Rio-92. Naquele período vários ecologistas já apontavam para esta situação de descaso com o meio ambiente.
Roberto Freire (1992) divulgou um manifesto intitulado a FARSA ECOLÓGICA. A ECO-92, encontro paralelo ao Rio-92, foi fortemente criticado como divisionismo de radicais. Hoje a gente entende porque a Rio+10 foi um fracasso frustrante. Não só a Rio+10. Tivemos o Protocolo de Kyoto, o Fórum social mundial realizado na África do Sul, a ameaça Norte AMERICANA de guerra aos iraquianos e o descompromisso do Governo Bush e dos seus colaboradores em relação ao meio ambiente. Estes elementos históricos parecem distantes, mas na atualidade, os governos dos países desenvolvidos continuam seguindo o mesmo receituário contra ambiental de a dua década.
Para o Greenpeace, o Rio + 10 pode ter sido a 2ª chance. Será que teremos uma terceira, quarta, quinta chance? Com esse capitalismo turbinado, os impactos locais, regionais, nacionais e globais já estão totalmente sistematizados. O pequeno Rio de minha cidade estar cheio de pneus pirellefarestone, garrafas pet de coca-cola, latas de óleo da Texaco, Shell e todas as grandes marcas, mundiais.
O Rio de 1992 encontra-se mais poluído, mais violento, mais pobre. Em 2016 teremos os Jogos Olímpicos e o Rio de Janeiro será sede. Entre as exigências oficiais, um grande trabalho ambiental para limpeza da Baia da Guanabara. Efetivamente, não acontecerá como previsto.
A África de 2002, em especial Joanesburgo, não mudou muito a sua situação ambiental. O Rio+10 é a pura constatação de que a agenda 21 foi mais gasto de papel, energia e utopias de um mundo ambientalmente viável, socialmente justo e economicamente sustentável. Reflexo disso é a grave crise ambiental vivida no continente africano, onde epidemias e doenças graves como o ebola assolam grandes áreas do continente.
Fonte da imagem - Natureza morta - moblog.whmsoft.net
Para concluir esse quase manifesto deixo aqui registrado a denúncia, de que no Brasil já existe uma nova indústria parecida com aquela da seca. É a "Indústria Ambiental". Os recursos para salvar os rios, as florestas, os animais, começam a aparecer nas placas dos governos e até empresas privadas, mas o ambiente continua degradado. Entidades estão sendo criadas para defender o meio ambiente, muitos são escritórios para carrear recursos para fins ilícitos. Essa pode ser uma visão pessimista, mas só vejo uma saída: a transformação dessa sociedade capitalista e consumista por uma sociedade ecológica autogestionária. O que chamo de Socialismo Comunitário Ecológico. Ou quebramos essa lógica de destruição socioambiental capitalista ou não teremos futuro ecológico.

Referências:
BOOKCHIN,Murray. Por uma ecologia Social. Rio de Janeiro: Utopia, nº. 04, 1991.
BRODHAG, Christian. As quatro verdades sobre o planeta. Por uma outra civilização. Lisboa: Instituto Piaget, 1997.
CASTELLS, Manuel. O Poder da identidade. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. São Paulo: Paz e Terra, 2000.
FIRMINO, Hiram. A Ecologia do Sapo. In.: JB Ecológico. Rio de Janeiro, nº. 08, 21/12/2002.
FREIRE, Roberto. A Farsa Ecológica. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1992.
LEVI, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 2000.
MARIANO NETO, Belarmino. Ecologia e Imaginário – Memória Cultura, Natureza e Submundialização. Joao Pessoa/PB: Editora da UFPB, 2001.
SENE, Eustáquio de, & MOREIRA, J. Carlos. Geografia Geral e do Brasil: Espaço Geográfico e Globalização. São Paulo: Scipione, 2002.
SILVA, T. Tadeu da, HARAWAY, Donna & KUNZRU, Hari. Antropologia do Ciborgue – as vertigens do pós-humano. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.