quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

morte espetacular

Brmino Mariano Neto


Quando ocupei o útero de gaia ainda não era homem, mas apenas sonho. Gaia Gerou do sêmen solar a luz da vida que germina em suas entranhas fecundas. Primeiro um pó de luz se espalhando pelos recantos e imaginários olhos de mulher, que chora, grita, e sorrindo cria nas profundezas do ser os cristais para o novo e desprendido movimento do nascer galáctico: o filho de uma nova idade, fluído de uma aromática essência de mulher que chorando se corta por dentro e sangra um avermelhado e violento momento matriarcal.

"Eu vi a morte, (...) com manto negro, rubro e amarelo. Vi o inocente olhar, puro e perverso, e os dentes de coral da desumana. Eu vi o estrago, o bote, o ardor cruel, os peitos fascinantes e esquisitos. Na mão direita a cobra cascavel, e na esquerda a coral, rubi maldito. Na fronte uma coroa e o gavião, nas espáduas as asas deslumbrantes que ruflando nas pedras do sertão, pairavam sobre urtigas causticantes, caule de prata, espinhos estrelados e os cachos do meu sangue iluminado. (...) Mas eu enfrentarei o sol divino, o olhar sagrado em que a pantera arde. Saberei por que a teia do destino não houve quem cortasse ou desatasse. (...) Ela virá a mulher aflando as asas, com os dentes de cristal feitos de brasas e há de sagrar-me a vista o gavião. Mas sei também que só assim verei a coroa da chama e Deus meu rei assentado em seu trono do Sertão." (Suassuna, Poesia Viva, 1998, CD:14 e 15 )

Estes fragmentos de sonetos, carregados de signos, enigmas e imagens únicas são os elementos da morte, percebidos por Ariano Suassuna. Neste imaginário, as figuras da morte, vestida com adereços de elementos da natureza sertaneja, nos fazem viajar pelas palavras para na morte a sublimação da carne, onde o sol é um testemunho vivo de tal sede. Assim, símbolos da natureza semi-árida são ressaltados como poderosos e sagrados, no ponto do divino centralizar sua força nestas terras. Em outras partes do soneto, Suassuna ressalta a morte como um toque inapelável do divino, maciez, vida e obscuro toque de um Deus no homem. O lugar e seus elementos como o gavião, a cascavel, a coral, a vida e a morte como figura feminina, que em suas palavras ganham um profundo significado. O destino, outro elemento muito forte na cultura nordestina, que em sua “triste partida” pode estar traçado, e diante da morte é preferível vagar pelas terras alheias, na espera de um dia voltar. Pois o destino traçado em suas mãos vai além de seus poderes terrenais.

Morte espetacular, em todos os seus elementos de arte. A morte possui a arte de matar. A morte mata o tempo e morrer é muito natural. Todo tempo é de morte, é de morrer.

O ato de morrer parece o fim da vida, animal ou vegetal. Pode ser uma entidade imaginária, crânio humano sobre ossos e cinzas. Morte agônica, súbita, neurocerebral e irreversível.

A morte cósmica de uma estrela, grande e natural morte. Morte matada não natural. Morrida, natural. Por doença, violenta, rápida, imprevista. Desastre, homicídio, suicídio. Chorada, cantada, lastimada, irremediável.

A morte de um amor ou de um rancor. Cores incolores pouco vivas, pálidas, mortas, brancas, pretas almas.

Um espetáculo. Milhares de pessoas todos os dias e noites. A cor incolor da morte tecida em luz e trevas, ausenta e apresenta-se sai dos esconderijos e em seu clandestino silêncio, representa a contemplação nua dos deuses com seus toques mágicos de mulheres em seda, morim e cetim. Tintas e cores tecidas no multicolorido matar incolor. Um espetáculo aos vivos. Bandeiras sobre os caixões, fogo das paixões cremam em lágrimas, enquanto as flores murcham e as moscas acompanham o cortejo fúnebre.

Era um anjinho, menos de um ano. Cedo de mais para seus oitenta e cinco anos de vida lúcida e pública. Apenas um ano e o câncer se espalhou por toda sua vida acumulada em rugas.

Um espetáculo de cores que para o trânsito e muda o sentido das conversas. Breve, curto, longo sentir. Apenas um tremor de terra, quase tudo pelos ares. Via satélite, aos vivos. Um espetáculo de imagens em escombros. Quase tudo fora do lugar. Um resgate pelo cochilo da morte. É o que é da morte em todos os lugares, um complemento ao ponto final. Um espetacular cálculo estatístico que preocupa os órgãos de saúde.

As covas são valas rasas e pequenas para os milhares de mortos infantis por desnutrição transcontinental. Um espetáculo, assistido em propagandas de iogurtes, promoções de supermercados ou recordes de produção nas safras de grãos.

Um espetáculo em imagens para a hora do almoço e do jantar. Uma morte que fica bonita e ganha vida própria. Colorido, trilha sonora, visitas ilustres e cenas de choro e lenços. Populares e ilustres tecem curtos trechos de filosofia vã (vida/morte, ser/existir, desistir). A tristeza se reveste de pompa, os óculos pretos e modernos contrastam com as faces rubras de peles bem tratadas.

A morte ganha todas as cenas, gera audiência, redimensiona a memória/imagem de passados que já estavam mortos. Os filtros das câmaras criam um ar acinzentado e mórbido. Flores quase mortas avivam os entornos do espetáculo mortal. Uma princesa, um velocista, um bandido, um índio Galdino, um mega star, um caminhão de sem terras no click de Sebastião Salgado ou mesmo um simples popular do corpo de bombeiros, que arriscava a vida para salvar vidas. Todos filhos da morte.

Tons e sons de morte sobrevoam o local do cortejo. É uma pessoa ilustre, um chefe de Estado, era integro honesto e bravo. Álbuns de família são focados pela panorâmica das câmaras. Uma desatinada busca e alucinada espera. Cortante e bruto alimento do pensar, desconstrução de destruição na construção de uma miragem. Filhos do estupro ou abortados pelo medo, homens. Violação patriarcal do divino, violência matriarcal em estar vivo. Morte calada que rebusca nas cinzas a poeira cósmica da noite, que escondo o sono e que não permite a embriagues dos sonhos.

Um espetáculo mortal, monumental. Milhares foram soterrados pela truculência da natureza, em um simples tremor de terras. Cenas mundiais repetidas mais de uma vez pelos diversos canais, via satélite, aos vivos.

A tragédia é africana e européia. Combina morte/ rivalidade, alimento/ fome. Um espetáculo mortal e louco de vacas inocentemente sacrificadas aos milhares. Tragédia euroafricana de vacas e homens. Quantas vidas para cada morte. Uma morte, uma vida. Uma cena espetacular que desencadeia todos os pensamentos que a lucidez consegue roubar da mente em uma loucura. Um viajar imaginário do ser e penetrar da seda fina do subatômico do momento do sábio nadar e no demasiado sendeiro do escuro da luz nada encontrar. É grande a noite se resumida a uma madrugada da morte. Parece uma nevasca eterna. São tantos os espaços da morte que até o vazio se desespera.

É um espetáculo a certeza da morte. Como garrafas de vinho vazias representa os devaneios humanos, a morte das uvas e o nascimento dos sonhos que embebidos pelo doce/amargo, seco/suave traz na sua idade o sabor de uma vida presa, enfrascadora de energias que em estado líquido, tinto, branco ou rose, pode derramar-se sobre o corpo, a alma, a calma e a alegria. Por libertar-se, ser vinho, rio correndo pelo pensar e passar dos que se tornam vinhos em suas fantasias fermentadas. Te vê do alto com um voar de homem-pássaro, tua contradição dilacera todos os sentidos de um apocalíptico alfa do gradativo vitral nadesco a se apagar. Sem luz perdi de ver o brilho dos teus olhos, perdi de ver de vez o que talvez não veja jamais.

Um comentário:

Yvanna Oliveira disse...

Professor, que texto bonito, poético! A morte instiga. Vi na mh leitura queixas e críticas.

Fiquei pensando....

Como o senhor citou Ariano, permita-me deixar uns versos de Augusto q o seu texto me fez lembrar:

"É a Morte - esta carnívora assanhada -
Serpente má de língua envenenada
Que tudo que acha no caminho, come...
- Faminta e atra mulher que, a 1 de Janeiro,
Sai para assassinar o mundo inteiro,
E o mundo inteiro não lhe mata a fome!"

Um abraço!