quarta-feira, 14 de março de 2012

Da discordia ao Discordianismo


Discordianismo - Por: belarmino mariano neto - belogeo@yahoo.com.br -

Podemos começar pensando o discordianismo na perspectiva mitológica, isso para encontrarmos uma idéia de deidade ou divindade da discórdia. Essa divindade é de sexualidade feminina. Éris - Uma das divindades primordiais, filha de Nix (a Noite). Em outras versões, é mencionada como filha ou irmã de Ares, o deus da guerra. Acompanhava-o aos campos de batalha, disseminando ódio entre os combatentes. Nix era Filha de Caos, um espaço aberto, matéria rude e informe, à espera de ser organizada, princípio de todas as coisas. Nesse espaço surgiu a Terra (Gaia). Nix gerou uma infinidade de deuses como Nêmesis (a Vingança), Momo (o Sarcasmo), Tánatos (a Morte), Hypnos (o Sono), Éris (a Discórdia). Nix envolvia o Caos como uma sólida casca, dando-lhe o aspecto de um ovo. No interior desse ovo gigantesco originou-se o primeiro ser: Fanes (a Luz). Este ser, unindo-se a Nix, engendrou o Céu e o próprio pai dos deuses. Segundo outra corrente da cosmogonia órfica, Nix não formava uma casca. Era uma ave negra de enormes asas. Fecundada pelo vento, pôs um ovo de prata no seio da Escuridão. Desse ovo saiu Eros, o Amor Universal.
 

Se Éris pode ser considerada como a divindade da discórdia, assim poderíamos até admitir a existência de um primitivismo religioso pautado na adoração de Éris. Não podemos afirmar que a deusa tivesse seus adoradores de plantão, mas é importante considerar que o próprio sentido da palavra reforçada pelo principio do caos, do conflito ou da guerra em(Ares), como filho legítimo de Zeus e Hera.
Temos nesse caldo divino da cultura grega a essência para o discordianismo filosófico e teológico. Conta o mito que Ares revestido de couraça e capacete e armado de escudo, lança e espada, acompanhava-se de Deimos (o Medo) e Fobos (o Terror), seus filhos com Éris.
Zeus era filho de Cronos com Réia e seu pai devora todos os filhos. Cronos - O mais jovem dos Titãs, filhos da Terra e do Céu. A pedido de sua mãe, mutilou o pai e ocupou seu lugar no trono do universo. Esposou sua irmã Réia e teve alguns daqueles que se tornariam os principais deuses olímpicos. 
Assim como Éris, Nix gerou também a Morte que para os gregos era um gênio masculino alado que, entre os gregos, personificava a morte. Era filho de Nix (a Noite) e irmão gêmeo de Hipnos (o Sono). Entre os romanos a Morte era uma deusa, Mors, ou mais freqüentemente, uma pura abstração personificada.

Se a morte pode ser irmã de Éris, divindade da discórdia, estamos diante da grande dicotomia da mística Grega e até certo ponto ocidental. Vida e morte elementos por essência discordantes mas complementares e que alimentam todos os princípios religiosos. A vida para a morte enquanto a possibilidade de uma outra vida. 
O Discordianismo é 'a base de todas as religiões'. Uma visão do espaço da Geografia Cultural na qual podemos perceber o limite cultural de uma experiência religiosa, seus princípios e relações fechadas em relação aos outros experimentos culturais.

O Discordianismo religioso acontece na zona de contato entre duas culturas ou mesmo na base de compreensão cultural de dois ou mais pensadores e propositores de linha de ligação (religare) entre o humano e a inexplicação dos enigmas ou mistérios da natureza envolvente.
Em especial no que tange a visão expansiva do que sai do alcance da mente humana. Quando há um ponto de divergência entre dois ou mais filósofos, místicos ou lideres de um grupo social básico para o desenho religioso nascente. 
O que apresentamos se confirma em todas as grandes correntes religiosas ou filosóficas, sejam do ocidente ou do oriente. Mas quando observamos os guetos de formação de uma seita e dessa para um espaço de ampliação e até massificação dos contatos intergrupos o discordianismo vai se estabelecendo.

A religião ganha sentido no processo de validação dos pares, mas e principalmente no processo arranjado pela discórdia de pontos de vistas, rituais e dogmas da religião oposta e/ou diferente da que se apresenta. 
O pensamento, o sentimento e a vontade são o trivium para o estabelecimento de uma religião. É na reflexão e na prática de contato entre estes três elementos que se constrói uma unidade religiosa. O mais interessante nesse processo é o fato de que na individualidade, sempre existem pontos discordantes de cada fiel em um todo religioso. Seja em relação a um rito, a um símbolo, a um perfil teórico da base teológica ou até mesmo dos representantes diretos do modelo no qual o individuo se insere. 
Nesse sentido, o discordianismo tende a ser o elemento chave para na sua ampliação, sendo gerada uma nova experiência de caráter religioso.

Vejamos o caso do cristianismo em sua esfera primitiva com encaminhamentos dos essênios para uma ruptura de alguns valores e dogmas do judaísmo da antiguidade. Estes foram os pilares para uma nova mensagem de fé que demarcou o espaço geográfico do Oriente Médio na Antiguidade. Com a adoção do cristianismo pelos romanos e seu reconhecimento oficial, foram estabelecidos os concílios e todo um jogo de regras e disputas de poder na organização hierárquica da Igreja Católica Apostólica Romana.
Nesse processo e com um viés espacial demarcado em Roma e em Constantinopla, tivemos elementos discordantes e até mesmo de isolamento cultural que terminaram por provocar uma forte dicotomia no cristianismo católico (ortodoxia e romanismo cristão).
É importante ressaltamos que o discordianismo pode se estruturar a partir de muitos fatores, mas, o elemento cultural perpassado pelo pensamento, sentimento e vontade delimitados pelo indivíduo e ampliados para demais indivíduos de um grupo religioso, representa o "cimento" de um novo perfil religioso e conseqüentemente a possibilidade de alimentação do discordianismo em sua base.
Nessa seqüência, com as grandes transformações socioeconômicas, políticas e culturais vividas pela Europa no seu processo histórico de modernidade, o romanismo cristão (cristianismo apostólico romano) sofreu um violento processo discordante em sua base. Isso provocou importantes desalinhos na unidade cristã da Europa.
O perfil inicial do protestantismo tem suas bases no discordianismo do oficio religioso e hierárquico da estrutura de poder do Vaticano e conseqüentemente na cisão efetiva da base religiosa. Isso gerou cristianismos: luterano, anglicano, dominicano, etc. O principal comprovante da amalgama do discordianismo religioso. Não enquanto construção religiosa efetiva, mas enquanto busca de um desenho divino que se aproxime o máximo possível do desenho cultural que cada grupo apresenta em sua história. 
Esse é um processo de sofrimento religioso que se estabelece principalmente em grandes sistemas religiosos que tendem a impor seu modelo, ou que fecham algumas passagens do pensar e sentir dos seres que tentam seguir o modelo.

Isso atravessa de cheio o princípio da vontade, atingindo a essência do humano que se constrói na liberdade individuada em si. O preso pensar, o preso sentir e o preso agir são os alimentadores do discordianismo religioso. A Religião que não perceber a importância da flexibilidade, tende a alimentar em seus fies uma divindade da discórdia.
Esse Deus da discórdia pode até ser lido como uma figura do mal que atrapalha o fiel em seu caminho, mais em muitos caso, o Deus da discórdia acaba alimentando a criação de novas divindades e/ou a (re) dimensão da base religiosa existente. Quando os princípios religiosos de um grupo social se dão de forma politeísta, o discordianismo em essência já se encontra manifestado naqueles que tentam atrair alguém para sua seqüência ritual. Mas no caso do monoteísmo, o discordianismo religioso pode ser um processo lento e gradual que só estabelece rupturas bruscas quando elementos diversos da sociedade convergem para a quebra de valores que engendra a sociedade como um todo.

Belarmino Mariano Neto é professor de Estudos Integrados do Meio Ambiente pela Universidade Estadual da Paraíba - Brasil. Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de Campina Grande e da Paraíba. 

Contatos: belogeo@yahoo.com.br 
A base mitológica desse artigo se encontra no site: 
http://www.filonet.pro.br/mitologia/eris.htm 

Fonte: 
http://essencialismo.blogs.sapo.pt/

2 comentários:

João Maria Cardoso e Andrade disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Belarmino Mariano Neto disse...

isso mesmo, vou tentar...